terça-feira, 16 de dezembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS[9]



- A Boa Notícia de Paulo -




As ekklesias locais que Paulo fundou procuravam viver num verdadeiro espírito fraterno e de comunhão (aquilo a que chamavam na língua grega de koinonia). Ele desejava que todos se encontrassem num ponto de convergência comum em Cristo: como irmãos amados, testemunhas da ressurreição, e na alegria de viverem como salvos. Porém…

Não eram ainda comunidades modelo. Recém-formadas nas grandes cidades, não podiam deixar de sofrer a influência de um mundo cheio de contrastes e ambiguidades. Nelas conviviam pessoas provenientes de culturas, hábitos e visões religiosas distintas. Aquelas assembleias de Cristãos tinham um longo caminho a percorrer: choques ideológicos entre os judeo-cristãos e cristãos vindos do paganismo, invejas, recaída em práticas pagãs idolátricas ou judaizantes, conflitos... não era fácil formar uma família assim.

Contudo, o Euangelion de Paulo constituía uma força de unidade e vitalidade para estas Igrejas. A sua Boa Notícia era mesmo “excessivamente boa” para ser derrotada pelas dificuldades. O seu zelo incrível, a sua formação rabínica, o contacto com os pagãos, o direito de cidadania romana, o domínio da língua grega, a ousadia e irreverência…tudo isso consagrou-o como uma testemunha excepcional da ressurreição de Jesus! Nem os apóstolos, nem nenhum dos discípulos que tiveram uma vivência histórica com o Nazareno, se atreveriam a sonhar ou a proclamar o que Paulo anunciou…




1 Da Lei à Graça

Perante o seu encontro com o Cristo Nazareno, Paulo chegara à conclusão que a Lei do Sinai não era mais mediação da Benção de Deus. Pelo contrário, aquilo que outrora parecia ser um meio para mudar o coração humano revelava-se na expressão absoluta do que não estava mudado!


O cumprimento das 613 prescrições legais - ou aquilo a que ele chamava “as obras da Lei” – eram resultado da perversão mais absoluta da Torah, e tornavam-se num peso insuportável. Tentar cumpri-las conduzia somente à dureza de coração, à impiedade, e divisão entre os homens. Por isso era impossível que a Lei trouxesse a Salvação. Ela exigia obrigações de tal modo cruéis, que mais depressa levavam à desobediência do que propriamente à sua observância, tornando as pessoas mesquinhas e escravas de minúcias rituais vazias.
Por um lado, os mais duros e impiedosos podiam cumpri-la, e somente eles! Porque só quem caísse em tal espiral de desumanidade convertia-se num “campeão da lei”. Por outro lado, os que não a cumprissem estavam condenados por ela! Para Paulo, este era sem dúvida um beco sem saída para os fariseus e os doutores da lei, dizendo: “os que se apoiam em práticas legais estão sob um regime de maldição” (Gl 3,10).


“Eu não conheci o pecado senão pela Lei. Eu não conheceria a cobiça se a lei não dissesse: Não cobiçarás.” (Rm 7,7); Portanto “onde não existe lei, não há transgressão” (Rm 4,15) e toda a força do pecado é a lei (1Cor 15,56)


A grande Boa Nova de Paulo é que tudo isto foi derrotado pela ressurreição de Cristo. Ele viveu toda a sua vida manifestando um amor gratuito e incondicional, amor que vinha de Deus e que agora atingiu a sua plenitude: ninguém tinha de o merecer! Era pura GRAÇA!
A lógica dos méritos pelas “obras da lei” caiu! A Graça manifestada em Jesus de Nazaré é tudo, e mais do que um dogma, era uma experiência viva de Fé das comunidades primitivas. Muitos seguidores do Nazareno, experimentaram a alegria de que já não havia necessidade de esforço humano para receberem uma vida abençoada e salva! Nenhum judeu devia mais empenhar-se por se aproximar de Deus pelo jejum, a meditação, ou as longas orações aprendidas de cor. Nenhum pagão necessitava de fazer mais sacrifícios aos deuses, praticar uma ascese esotérica, ou aprender os “segredos” e “mistérios” duma religião. Ninguém precisava mais de dizer: “eu tenho de fazer…tenho de me esforçar para mudar…eu é que me devo aperfeiçoar…eu...”


Nas comunidades cristãs de Paulo proclamava-se a Boa Notícia de que era o próprio Deus que tomava a iniciativa de transformar o coração humano, de fazer acontecer o Perdão e realizar uma vida nova, mais plena, enriquecida e abundante. Ele mesmo levaria a bom termo o que começou na ressurreição de Jesus. Bastava confiar, abrir-se e acolher com alegria e esperança a força salvadora de Deus que actuava na vida dos crentes pela acção do Espírito Santo, Dom definitivo do Ressuscitado. Os Cristãos agora viviam da Graça: “Tudo nos foi dado, em Cristo Jesus! TUDO!”



E TUDO é muito mais do que poderíamos esperar…



“Quanto à lei, ela interveio para que proliferasse o delito, mas onde abundou o pecado, super-abundou a Graça (Rm 5,20)


“Portanto, se é por Graça, não se deve às obras, porque senão deixaria de ser Graça” (Rm 11,6)


“O pecado não terá domínio sobre vós, pois não viveis sob a lei, mas sob a Graça” (Rm 6,14)



“Mas Deus é rico em misericórdia; por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa dos nossos delitos, deu-nos a vida com Cristo – é por Graça que vós sois salvos –, com ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus em Jesus Cristo. Assim, por sua bondade para connosco em Jesus Cristo, ele quis mostrar nos séculos futuros a incomparável riqueza da sua Graça.
Com efeito, é pela Graça que vós sois salvos por meio da Fé; e isso não depende de vós, é dom de Deus. Isto não vem das obras…”
(Ef 2,4-9)


terça-feira, 9 de dezembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS[8]



- A Igreja dos Cristãos


Graças à acção evangelizadora de Paulo e de outros missionários itinerantes, o movimento dos Cristãos difundia-se desde de toda a Ásia Menor, passando pela Frígia, Panfília, Galácia, e agora propagava-se cada vez mais para ocidente, chegando também à Grécia e Macedónia.

A formação destas novas comunidades no mundo helenizado implicou um distanciamento gradual do judaísmo. Na verdade, a congregação das assembleias dos seguidores do Cristo-Messias iam deixando de ser realizadas nas sinagogas ao sábado. Nas comunidades de pagãos convertidos já não havia necessidade de celebrar a fracção do Pão numa “casa de oração judaica”, formando antes assembleias domésticas.


Cada uma destas assembleias de comunidades fundadas por Paulo era agora designada por um nome já famoso no mundo grego: ekklesia (termo que em português traduz-se como “Igreja”). Paulo não o escolhera ao acaso, uma vez que designava uma realidade anteriormente vivida no mundo pagão, e que agora ganhava um significado pleno no seio do Cristãos.




No mundo antigo a ekklesia nasceu no período do apogeu da civilização grega. No séc. V a.c. a Grécia foi a primeira cultura a instaurar a democracia. Ela constituía uma novidade absoluta na antiguidade, e representava a única alternativa num mundo onde normalmente imperava a lei do mais forte, e onde os poderosos dominavam os mais fracos. A ekklesia era a assembleia principal da cidade de Atenas e representava o pilar democrático da nação. Os seus membros eram provenientes de todas as classes, e em geral formavam um concelho popular para resolver assuntos urgentes de Estado.


Sempre que as cidades gregas viam-se subjugadas por um regime opressivo e corrupto, uniam-se para imediatamente suscitar uma ekklesia de modo a depô-lo. Assim, muitos cidadãos de todas as classes eram congregados a Atenas pelo clamor do povo, por um grito de Liberdade e uma palavra de esperança! Ainda que por razões óbvias, fosse muitas vezes considerada como uma assembleia aparte da autoridade civil, contudo, caso congregasse membros suficientes, a ekklesia reunia o poder necessário para restaurar a justiça e a ordem pública. Por causa de tudo isso era considerada por muitos como a assembleia dos cidadãos livres!


Com efeito, além das decisões de Estado, a ekklesia constituía sobretudo uma reunião democrática de cidadãos que buscavam a justiça relacional, onde houvesse uma supressão radical das suas diferenças. Traduzia por isso o desejo que todos fossem reconhecidos na cidade como iguais e dela participassem com os mesmos direitos, independentemente da raça, género, ou classe social. Foi dessa realidade que Paulo se inspirou para designar as assembleias dos Cristãos…


Para aquele apóstolo dos gentios, por um lado, todos os Cristãos – fossem judeus, pagãos convertidos, ou “prosélitos” – eram congregados por uma Palavra Libertadora do Mestre Nazareno, e Palavra definitiva do Deus que o havia ressuscitado. A Igreja (ekklesia) era assim a comunidade que nascia da Palavra Viva do Deus de Israel, que agora convocava todos os povos à comunhão e convivialidade do Reino!

Por outro lado, Paulo também apresentava-a como uma família, onde todos eram apreciados como iguais, e por isso mesmo valorizados nas suas diferenças! Ela devia ser a utopia de todas democracias: “Já não se distinguem judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, pois agora vocês todos são um só com Cristo [Messias] Jesus.” (Gal 3, 28). Por isso mesmo, a ekklesia implicava a anulação de todos os pólos que dividissem a humanidade: raça, religião, posição social, sexo… Ela constituía uma família de irmãos unidos segundo os laços do Espírito e que vivia na consciência de dar continuidade à missão salvadora de Jesus. Assim nasciam as ekklesias de Éfeso, Corinto, Tessalónica, Filipos, Colosso, entre tantas outras…



As redes de fraternidade que Jesus sonhara formar, manifestavam-se numa unidade que designava a ekklesia de Deus, o foco difusor do Reino a acontecer e a emergir onde menos se esperara. Porém, não era uma realidade alheia ao Império, e nos mais altos círculos já se começava a falar dos Cristãos. Mais tarde ou mais cedo, esta Igreja estava prestes a enfrentar o maior dos desafios…

sábado, 6 de dezembro de 2008

O "VENENO" DO EVANGELHO





«A Cruz não é a morte de um condenado qualquer, senão a morte dos "outsiders", dos escravos e dos delinquentes políticos. E além do mais é uma morte conflituosa em último grau : Sócrates necessitou de quase setenta anos para que o conflito com a sociedade se agudizasse até ao extremo de custar-lhe a vida. No caso de Jesus, uma das coisas mais surpreendentes é a celeridade [rapidez] com que se produz o conflito (quem sabe não chegue a durar mais de um ano; no melhor dos casos, três). E essa é a melhor prova da sua tremenda virulência


José Gonzalez Faus, "La Humanidad Nueva"

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[3]


- Deus como Abba e a filiação divina



No coração e no âmago do Amor anunciado por Jesus encontramos o núcleo definitivo do Reino: O Deus-Rei é um Abba! Com efeito, os discípulos foram reconhecendo progressivamente em Jesus a novidade de Deus ser um Papá, quer na sua intimidade de oração, quer também na entrega incondicional à Sua Vontade. Viam-no como uma “criança de peito” que se abandonava no colo de um Paizinho, cheio de segurança e ternura. E era assim, movidos por um fascínio irresistível, que aproximavam-se dele formulando este desejo: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11, 1)

O profeta de Nazaré nunca se entende a si mesmo como o “filho unigénito” porque não guardava nada para si, e muito menos a experiência do seu Abba. Por isso, para ele o Abba não é “meu”! É “nosso”, e de todos! E isso faz dele o primogénito, o Irmão maior e primeiro a dar-se aos irmãos; primeiro a conduzi-los ao Coração e à casa do Abba; primeiro que convida os discípulos e as multidões à confiança filial no “Pai Nosso”.
Finalmente estamos diante de um Deus que é radical novidade, porque não é dito a partir de um discurso religioso ou um ideal sagrado, mas que se diz e comunica na vida de um homem que age como Filho e como Irmão! Um Deus do Reino que, em Jesus, rasgou o véu de todas as aparências de divina autoridade ou de uma majestade infinita, ávida pela adoração dos seus súbditos. Deus é Abba: um Pai que é Dom total, que comunica o seu Amor a todos, e a todos concede a mesma filiação divina pela qual Jesus vive.

É então a partir do encanto por este Nazareno, que muitos entram na sua intimidade e começam a experimentar o Abba como ele: um “papá babado” e amoroso que desce ao mais íntimo de cada um para o fazer subir a Si. Ao seu colo que é seio maternal e ventre criador para gerar um coração novo e agradecido. Um coração de filho, alegre e generoso; capaz de mover-se e co-mover-se a procurar todos os irmãos a quem Ele ama e deseja também reunir.


Este dom da filiação divina comunicado em Jesus passa assim a ser condição para uma vida nova e transfigurada. O dom que é condição para agirmos concreta e humanamente como Irmãos, e ao mesmo tempo, dom da eleição daqueles de quem me faço próximo: começando pelos mais débeis e marginalizados, curando as feridas dos magoados, consolando os aflitos, e perdoando os inimigos.


É deste Rei, deste Abba donde irrompe o Reino...






- A maravilha de um Reino invencível


É evidente que um Projecto desta envergadura chamado Reino de Deus era tudo menos teórico. Tinha de abalar as fundações de um mundo ainda dominado pelo mal e a injustiça. Tinha de mexer nas consciências e provocar resistências, especialmente quando Jesus o viveu afirmando que era vontade de Deus.

A cruz revela bem que Jesus não foi nem um romântico, nem um herói de ficção que conhece um “final feliz”. O Reino que anunciou e inaugurou como projecto de fundação de uma nova humanidade foi de tal modo concreto e palpável que chocou com as instâncias mais poderosas de seu tempo: o Templo, a Lei farisaica e o poder imperial. Para estas instituições era urgente deter o Reino daquele Nazareno. Um Reino já inaugurado e em marcha que derrubava o seu mundo ao contrário e ameaçava os seus privilégios de domínio.

Porém, ainda que entregue ao poder destes inimigos do Reino, e mesmo crucificado, Jesus confiava que o Abba seria Fiel. E nessa confiança entrega a vida ao Pai. Na morte entrega-a como coroa do Reino que inaugurou e edificou, como que dizendo: “Toma-a, é tua. Contigo ela não há-de se corromper. Ainda que eu morra, o teu Reino prevalecerá!”

Jesus morre, contudo não era o Fim…chegara a hora do Abba intervir! Se Ele não tinha o poder de tirar Jesus das mãos dos seus malfeitores, tinha certamente o poder do Amor, poder de o assumir plenamente em Si! Isso significa que o Abba aceita a coroa! Recebe-a porque apaixonou-se pela vida nela contida, ao ponto de identificá-la com o Reino que desejou desde a Criação do mundo. O Abba ao ressuscitar Jesus aceitou a coroa da sua vida, coroando-o com a própria Vida Divina, e entregou-lhe toda a soberania para o consagrar como Senhor da história.

Deus já não necessita de identificar o Reino com um sonho, ou uma esperança. Ele Identifica-o agora com um Vivente: Jesus ressuscitado! Para o Abba, Jesus é o Reino. A partir de agora, nem o ladrão pode furtar a Coroa, nem a traça já pode corromper o que é incorruptível! O Reino é invencível, imortal, vital, dinâmico, está presente, a acontecer na nossa humanização, aqui e agora, e continua imparável…


O Reino de Deus é hoje Dom da ressurreição de Jesus a acontecer na nossa história. É uma realidade já inaugurada e aberta a uma consumação futura: a sua promessa cumpriu-se, é permanente, ainda não terminou, está na fase dos acabamentos, e continua a necessitar de colaborares, discípulos, Filhos, e Irmãos. É Universal, e por isso além de qualquer religião ou crença, além de qualquer raça ou condição, além de qualquer tempo, a construir-se na liberdade humana, e a brotar de homens e mulheres de Boa Vontade que se unem ao coração e à causa do Ressucitado!



Ei-lo Aí! Para quem o quiser ver e o quiser agarrar! Á mão de semear e à mão de colher...Aí está o REINO a acontecer!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[2]



O Baptismo de João despertara em Jesus a consciência de ser o profeta do Reino de Deus. Este Reino Messiânico passa a ser a fonte dos seus critérios, das suas expectativas e escolhas, a ponto de identificar-se com toda a sua vida. Por isso, um Reino que não teve nada de abstracto, de dogmático ou esotérico. É inaugurado nele, incarna nele, e nele manifesta-se em plenitude, na lógica e nas acções que o constituíram como Messias e Salvador:


- Chamou discípulos e nomeou doze

A primeira coisa que Jesus se deu conta, ainda antes de iniciar a sua missão, era que o Reino de Deus não se construía sozinho mas em dinâmica fraternal. Ele sonhava constituir uma rede humana com a força suficiente para derrotar as “forças diabólicas” do mundo, incarnadas nos ritmos e dinâmicas que impediam a marcha da humanização. Para Jesus não era tanto a máxima da “união faz a força” que valia, mas confiava que era a própria força salvadora de Deus que agia com eficácia na Comunhão humana.


Um facto inédito no seu tempo era que alguém escolhesse discípulos, uma vez que os mestres e rabis é que eram escolhidos pelos discípulos que decidiam segui-los. Contudo, ele não hesita em convocar colaboradores e seguidores para o acompanhar. Um sinal muito próprio dessa escolha é a eleição dos Doze de entre os discípulos, dado que são eles a formar um novo Israel. Assim a comunidade dos Doze reúne a força simbólica das doze tribos de Israel que são refundadas para constituir um Povo construtor do Reino. Jesus reúne-os para proclamar a Boa Notícia do Reino de Deus.


- Perdão dos pecados e proximidade com os pecadores e marginalizados

Se para Jesus o Reino de Deus é uma Boa Notícia, então tinha de chegar primeiramente àqueles cuja vida não era “boa notícia”; e que estava sobretudo marcada pelo sofrimento e o abandono. Dirige-se a prostitutas, publicanos, pobres e marginais: gente de coração partido, encadeados e tristes, esmagados pelo fardo da culpa que a sociedade lhes impunha. A compaixão de Jesus move-o a procurar amizade junto destes a quem chama de Irmãos, anunciando pela sua proximidade um Deus que proclama o Perdão dos pecados. Perdão que traz a libertação das amarras da culpa, e manifestado nas atitudes de misericórdia e amor que derrotam todas as forças do mal, todos os “demónios” da violência, do egoísmo, indiferença e solidão. Um Perdão que faz acontecer uma acção terapêutica, e que nos evangelhos encontra expressão nas curas e milagres: "os cegos vêm, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é anunciada aos pobres" (Lc 7,22)


Esta Gente de má fama não era convidada a participar nas festas religiosas do seu povo, estavam impedidos de entrar nas sinagogas, e proibidos de prestar culto no Templo. Pura e simplesmente era-lhes negado o acesso a todos os rituais de purificação e de bênção. Jesus contudo escandaliza tudo e todos sentando-se à mesa com eles. E é nessas refeições de convívio com os “não-convidados” do seu tempo que ele manifesta as celebrações antecipadas do Banquete do Reino a acontecer. Jesus compara o Reino de Deus a um grande Banquete onde todos estes últimos seriam os primeiros a sentar-se na mesa, e o próprio Senhor os haveria de servir! Chegara o tempo da boda, porém, para surpresa e indignação de muitos, estava aberto primeiramente para os “ímpios”.


- As Bem-Aventuranças: poder transformador de Deus na história


A predilecção de Jesus para com os aflitos e rejeitados está especialmente patente na sua proclamação das Bem-Aventuranças, aquilo a que podemos designar como a declaração fundamental ou a “Carta Magna” do Reino de Deus. Ela constitui uma novidade absoluta em toda a tradição bíblica, e constituí o princípio do fim das velhas lógicas da realidade.

Para a grande maioria dos judeus do seu tempo há muito que a injustiça dominava o mundo. Constatam que eram sempre os fracos e justos que sofriam nas mãos dos poderosos e ditadores cuja vida era próspera. E ainda que muitos aspirassem a ideais como a paz, a justiça, e a liberdade, reconheciam que não passavam disso mesmo: ideais de uma utopia. Porém, Jesus perante esse mundo vencido por forças opressoras anuncia um acontecimento salvador, convertendo a utopia em realidade:"Felizes os pobres porque deles é o Reino! Felizes os famintos porque serão saciados. Felizes os que choram porque serão consolados. Felizes os que sofrem por amor da justiça..."

Eis uma mensagem nova que supera a antiga tradição sapiencial onde se proclamavam os ditosos como “os bonzinhos”, ou os eticamente respeitados. Os bem-aventurados já não são aqueles que “comem do trabalho das suas mãos”, “os que se guardam dos vícios”, ou os “virtuosos que têm uma vida honrada”aqui estamos claramente diante de um salto tremendo, e uma lógica que vai além de um mero código moral! Com a proclamação das Bem-Aventuranças Jesus declara que chegou um tempo novo. Um tempo de libertação de toda a tirania e angústia, onde a soberania de Deus se sobrepõe a todos os sistemas injustos do mundo: a partir de agora o tempo dos opressores tem os dias contados, por isso “ai de vós” (Lc 6,25-27)

Assim vemos que a justiça das Bem-Aventuranças de Jesus não é imparcial, mas preferencial: aquela que toma partido em primeiro lugar pelos débeis, os desvalidos, e os pobres, e portanto a mesma que marca o fim de todos os privilégios dos que se elevavam à sua custa. Uma justiça eficaz que não é limitada nem retardada pelas nossas imperfeições humanas, mas antes instaurada e restaurada pelo poder salvador de Deus: "O que é impossível aos homens, é possível a Deus" (Lc 18,27). Sim, são as Bem-Aventuranças que anunciam um poder que transforma a história humana para “virar do avesso” todas as desigualdades e injustiças; por isso Jesus nunca as proclamou como um prémio de consolação para uma “vida no Além”. Pelo contrário, anuncia nelas a Boa Notícia de um poder real e concreto que já chegou, que está aí a libertar e salvar, que está aí a actuar, aqui e agora, nos seus gestos e atitudes.


- O mandamento do Amor

Na base das Bem-Aventuranças e na proximidade de Jesus para com os oprimidos está o mandamento do Amor. Já não são os incensos, os sacrifícios, o culto, as normas da Lei, ou as penitências que valem por si mesmas. Jesus reúne toda a Lei e profecia no Amor a Deus e ao Próximo como caminho de vida, e critério último de construção do Reino. Neste Amor há também um elemento novo: a noção de Próximo. A noção judaica de próximo era o “meu vizinho”, o “meu compatriota judeu”, o “da minha raça”, o “da minha tribo” ou “estirpe”. Porém, Jesus abre agora as portas às exigências desse Amor novo, amor manifestado na universalidade e na super-abundância da Graça: convida ao amor pelos inimigos (Mt5,44) e estrangeiros, à superação da Lei de Talião: "ollho por ollho, dente por dente" (Mt5,39), e à iniciativa no perdão fraterno (Mt 5,24).


Acabaram as fronteiras do sagrado e do profano, terminaram os limites da razoabilidade e do “bom senso”, e esgotaram-se os critérios moralistas para distinguir “os próximos” dos “não próximos”. A partir de agora o próximo é aquele de quem me aproximo por iniciativa e bem-querer, disposto ao risco e ao imprevisível, sem reservas! Tudo isso é a proposta de uma nova Ordem de relações marcadas pela Graça de Deus que inaugura um jeito novo de amar: “amai-vos como eu vos amei”.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[1]

Esta semana decidi mudar um pouco o programa do costume. Interrompo as minhas reflexões habituais para deixar aqui um tema que muito gosto me deu trabalhar e meditar no último fim de semana de encontro JR: o Reino de Deus. Algo que não nasceu apenas do meu trabalho individual, mas fruto do poço comum da minha comunidade redentorista. Apresento-o assim, na expectativa de saborearem o mesmo gozo que me deu prepará-lo...



Nos tempos do reinado de Herodes, tetrarca da Galileia, apareceu um homem que anunciava a proximidade da última hora, a hora da intervenção definitiva de Deus em Israel. Seu nome era João e pregava um baptismo de purificação que prepararia o povo para a chegada iminente de Deus. Segundo ele, o mundo estava prestes a ser julgado e não bastava ser filho de Abraão (judeu) para escapar a esse juízo. Yahvé viria para destruir os pecadores e somente os que recebessem o baptismo de penitência se salvariam, o dia terrível da Ira de Deus estava próximo:

“O machado já está posto à raiz da árvore: a árvore que não produzir bons frutos será cortada e jogada no fogo.” (Lc 3,9); “Já empunha a pá com para limpar a sua eira: o trigo o recolherá no celeiro, e queimará a palha num fogo inextinguível” (Mt 3,12).

Entre muitos ouvintes de João, encontrava-se um jovem Nazareno que o seguia de perto sentindo-se interpelado pela sua mensagem, e ao escutá-lo, desperta para algo novo que o vai acompanhar até ao fim da sua vida. Jesus não só experimentava no seu íntimo a novidade que terminara o tempo da espera de Israel, como também confiava com uma certeza infalível que o Dia de Yahvé não chegaria como dia
de condenação, mas como dia de misericórdia: Deus está a chegar com um Reino de paz, justiça e alegria! O seu Abba virá, e sem demora, para enxugar as lágrimas do seu povo.


É firmado nesta esperança que Jesus adere à fila dos penitentes e aproxima-se do rio Jordão para receber o baptismo de João. Deixa-se baptizar, não para escapar de uma maldição iminente, senão para se sentir membro do resto fiel, daqueles que aguardavam ansiosamente a vinda libertadora de Yahvé. A partir daquele dia tudo mudou para aquele carpinteiro da Galileia. Sentia-se enviado a proclamar que Deus finalmente viria governar, guardando no coração a profecia de Isaías: Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que apregoa a boa-nova, e que proclama a salvação! Que diz a Sião: “O rei é o teu Deus! (Is 52,7). Jesus inspirou-se na missão de Consolação de Isaías e ele próprio assume-se como mensageiro da Boa Notícia: Deus está connosco como Rei e vem como Salvador de Israel! Enquanto João esperava na intervenção divina, Jesus vai passar a agir para fazê-la cumprir. Para aquele Nazareno chegara o tempo de uma nova criação: o Reino de Deus estava já a acontecer…

terça-feira, 18 de novembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS[7]



- Primeiros e últimos -


As semanas que se seguiram após a partida de Antioquia da Síria foram intensas…

Saulo e Barnabé assumiam a missão de enviados (apóstolos) pelos judeo-cristãos antioquenos para fecundarem a semente da Boa Notícia por todo o Império e até onde os pés os levassem. Confiavam que o Espírito do Vivente acompanhava-os, investindo-os com a dynamis (força) para abrir uma nova página na história do seu povo, e quem sabe, também de outras nações…


Descem primeiro à região da Selêucia na costa mediterrânica, navegando depois para a ilha de Chipre, terra natal de Barnabé. Chegando à cidade de Salamina, ficam lá por algum tempo com a comunidade recentemente formada, e anunciam nas outras sinagogas judaicas a Boa Notícia da chegada do Cristo-Messias e a instauração definitiva do seu Reino, prometido a Israel desde os patriarcas. A sua proclamação naquela região já era tão célebre que eles, chegando a Pafos, despertaram não só a curiosidade de muitos judeus, como também de alguns cidadãos romanos. Entre estes destacava-se o governador Sérgio Paulo que imediatamente os chamou pessoalmente para escutar a Boa Nova acerca de Jesus. Este “acreditou, maravilhado com o ensinamento do Senhor” (Act13,12).
E é ali mesmo, em Pafos, que pela primeira vez o nome de Saulo é traduzido na língua latina por Paulinus (Paulo).


Nas sinagogas que passavam, os dois tinham sempre o cuidado de colaborar mutuamente, deixando um testemunho de unidade e comunhão em cada vez mais comunidades que formavam entre os judeus. Talvez Barnabé fizesse um primeiro anúncio, deixando a Saulo (Paulo), rabino de formação, a tarefa delicada de justificar pelas Escrituras este Messias tão surpreendente e tão diferente de tudo o que os seus compatriotas esperavam. Para alegria de Barnabé, Paulo revelava como era digno da fama que recebera desde Damasco, tomando progressivamente a dianteira na proclamação da ressurreição do Nazareno.

Mais tarde partem de Chipre em direcção a ocidente e desembarcam em Perge, na costa norte do mediterrâneo. Daí percorrem mais de duzentos quilómetros até chegarem finalmente à grande cidade de Antioquia, situada na zona fronteiriça da Pisídia (actual Turquia). Naquela metrópole estava prestes a ocorrer um incidente que traria um novo impulso ao movimento da Boa Notícia de Jesus…


Num dia de sábado, os dois companheiros dirigem-se a uma das mais frequentadas sinagogas da cidade. A seguir às leituras dos textos da Torah e dos profetas, o chefe da sinagoga convoca solenemente um dos irmãos presentes para comentar a Palavra escutada. Paulo entretanto toma a iniciativa e, levantando-se do meio da assembleia, começa a proclamar a ressurreição de Jesus. Como era hábito, instala-se o alvoroço. Entre a assembleia havia judeus que aderiam à Boa Notícia, como os outros, que indignavam-se, rejeitando-a imediatamente por pôr em causa as tradições. Apesar de tudo, a maioria dos que se encontravam na sinagoga aceitaram com agrado aquela Notícia inédita. Tal foi o aparente “sucesso” do kerygma de Paulo, que à saída muitos pediam a ambos que continuassem a ensinar sobre Jesus no sábado seguinte.
Todavia naquele dia, a sinagoga recebia também um outro grupo, mais oculto e restrito, para quem o euangelion constituía certamente uma Novidade ainda maior.


Naquela cidade, como em tantas outras da diáspora, abundavam não poucos pagãos atraídos pelas “virtudes” e os ensinamentos do monoteísmo judaico. A maior parte deles concentrava-se nas entradas das sinagogas aos sábados; muitos homens em particular, apesar de iniciados nalguns rituais judaicos, ainda lhes faltava dar o último passo para entrarem como membros plenos no judaísmo: a circuncisão. Contudo, poucos eram os que na idade adulta aceitavam submeter-se a esse estigma físico. Por isso, ainda que interessados por escutarem a doutrina da Lei e dos profetas, estes “prosélitos” permaneciam lá atrás, recuados na periferia daquelas assembleias numerosas. Lá permaneciam como os últimos ouvintes, quer não só por serem estrangeiros, mas sobretudo porque na sua maioria eram incircuncisos, e por isso não plenamente convertidos ao judaísmo.

Para estes últimos, aquele dia fora inesquecível…


Paulo falara-lhes do euangelion de um homem, um Nazareno que acolhia prostitutas, pastores, publicanos, indigentes, e toda a espécie de pecadores públicos. Um judeu Nazareno que questionava muitos dos costumes judaicos, e surpreendentemente se dava com “más companhias”, inclusive os próprios pagãos romanos e outros tantos que habitavam na Galileia dos gentios. Esse judeu atrevera-se a dizer que todos estes “últimos do mundo” eram os “primeiros no Reino”. E porque os amara e defendera até ao fim foi rejeitado em Jerusalém e violentamente morto fora dos seus muros como herege! Por tudo isso, Paulo proclamara-o como o Messias não só do Judeus, mas de todos os que acolhessem de coração aberto esta Boa Notícia.


Sim, aquela Boa Novidade fazia tanto sentido para aquela gente ignorante da Lei e ainda fora da Aliança, que sentiam-se claramente os seus primeiros destinatários naquela assembleia! Sentiam-se amados e acolhidos por esse Yeshu tão vivo nas palavras de Paulo. Aquele Messias judaico trazia um reino de liberdade e Justiça não só para os da sua raça, mas para todos, e sobretudo para eles, os “últimos” entre os Judeus. Sem demora, começam a falar com familiares, sócios, amigos, e outros gentios conhecidos que encontravam para escutarem a Boa Nova anunciada pelos dois visitantes que tinham vindo de tão longe. Os cochichos não paravam de circular e já se espalhavam naquele quarteirão da cidade.


No sábado seguinte, para surpresa dos judeus, rebenta a confusão na sinagoga. Jamais se viram tantos pagãos à porta. Alguns, mais atrevidos, talvez até tentassem irromper ao empurrão pela assembleia adentro, ansiosos por escutar de perto as Novas de que tanto se falara. Porém, como sempre, os pagãos eram expressamente proibidos de entrar. Surpreendentemente parece até que alguns judeus piedosos, sempre acostumados aos habituais “lugares de destaque” já nem conseguiam furar pelo meio daquela multidão de gente para entrar na sinagoga. Estando tudo à pinha naquele lugar, entretanto chegam os dois enviados de Antioquia.


Paulo e Barnabé, surpreendidos, fitam o olhar um no outro, e percebem finalmente o que se passava ali. Paulo então, ali mesmo no meio da praça e em público, toma a palavra e continua a ensinar o Euangelion do Nazareno a todos: judeus, pagãos e “prosélitos”. Entretanto, escutam-se vozes de protesto. Muitos dos judeus estavam furiosos, e aqueles dois visitantes eram os responsáveis pelo estardalhaço…

“Os Judeus, ao ver a multidão, encheram-se de inveja e contradiziam as palavras de Paulo com insultos.” (Act 13,45)

Paulo e Barnabé estavam chocados, especialmente Paulo. Este reconhecia naqueles judeus o mesmo nacionalismo desenfreado que defendera uns
anos antes. Entristecia-se por ver aqueles seus irmãos, depositários da Promessa, a desprezarem o Euangelion da nova era messiânica. Como resposta à rejeição da maioria da assembleia judaica, os dois lançam então uma repreensão àquela gente irada: “Visto que rejeitais a Boa Notícia, a partir de agora nos dirigiremos aos pagãos”


Os dois abandonam a vizinhança da sinagoga com os gentios, “prosélitos” e até alguns judeus tocados por aquele anúncio ousado. Nos dias que se seguiram, reuniram-se nas suas casas e noutros lugares para os prepararem para a formação de uma das primeiras comunidades de pagãos convertidos à Boa Notícia.


E assim o Espírito de Deus encontrava espaço de acção para fazer acontecer a Universalidade do Reino. Vivia-se de facto um tempo como nunca o mundo tinha assistido antes: “felizes os olhos que vêem o que vós vedes, pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram.” (Lc 10,23-24). Iniciava-se uma Nova Aliança, selada pela presença de um Espírito que “sopra onde quer”, e para Paulo e Barnabé tudo tornara-se muito claro: ninguém tinha de ser necessariamente judeu para tornar-se Cristão!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

JESUS, O REINO, E A IGREJA


Enquanto não vem o próximo post, gostaria de partilhar convosco uma das minhas leituras. Este fragmento de texto vem ao encontro da origem e fundamento da Igreja, que é precisamente o tema que tenho vindo a expor. Por isso não podia deixar de passar este pequeno testemunho do Padre Anselmo Borges.




A prova de que Jesus não fundou nem quis fundar uma Igreja enquanto instituição é que ele viveu no horizonte da escatologia apocalítica, portanto, na convicção da irrupção iminente do Reino de Deus. Agora, quando irromper o Reino de Deus, Deus mesmo vai reinar sobre o seu povo, porque o Reino de Deus é o próprio Deus. Deus vai transformar radicalmente a história de imediato, levando à consumação plena e final a sua obra da Criação. Do ponto de vista histórico há hoje consenso em que Jesus esperou o fim iminente e a transformação radical da presente situação do mundo. (…)


Depois da ressurreição, os discípulos, que após a morte de Jesus na Cruz se dispersaram, voltando às suas tarefas normais, reuniram-se outra vez em Jerusalém e foram formando comunidades congregadas pela fé em que esse Jesus, o Messias de Deus, voltaria em breve para instaurar o Reino de Deus. Portanto, também as primeiras comunidades cristãs viveram dessa profecia, dessa fé e dessa esperança da chegada iminente do Reino de Deus. (…)


Não há duvida que as comunidades de São Paulo se legitimaram democrático-carismaticamente. Como é um facto que as primeiras comunidades cristãs se reuniam em casas particulares e celebravam a Eucaristia – o banquete do amor e testemunho da verdade até ao fim – recordando a última Ceia e as várias refeições de Jesus, e quem presidia era o dono ou dona da casa. Isto significa que todos os ministérios da Igreja actual, nomeadamente o ministério episcopal e o ministério sacerdotal, não foram criados por Jesus, mas pela Igreja. Como escreve Hans Küng, dado o adiamento da Segunda vinda de Jesus, foi por motivos práticos que se impôs mais tarde uma “hierarquia”, uma “hierarquia ministerial”, composta por bispo, presbíteros e diáconos.


Mas a partir dos documentos do Novo Testamento, não se pode falar de uma “instituição” desta hierarquia ministerial e ordenada por Cristo ou os Apóstolos. Por isso, “apesar de toda a ideologia eclesiástica”, também não se pode afirmar que essa hierarquia seja “imutável”. Ela é “resultado”- talvez inevitável – de “um desenvolvimento histórico”, de tal modo que, embora a Igreja possa ser assim organizada, “não tem que sê-lo”.


Portanto, a Igreja dispõe dos ministérios livremente. Pode mantê-los, aboli-los, mudá-los. Nisto, o princípio tem de ser: não é a comunidade que tem de orientar-se pelas necessidades do ministério, mas o ministério pelas necessidades da comunidade. Os ministérios existem para a comunidade, não a comunidade para os ministérios. Assim, mesmo para presidir à Eucaristia, o pressuposto não tem de ser forçosamente uma ordenação sacra, pois é suficiente uma missão, que poderá ser temporária e conferida a um homem ou a uma mulher, casados ou não.”


Anselmo Borges, “Religião - Opressão ou Libertação?”, p.157-158.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS[6]

- Novo Mundo -



Eram cada vez mais numerosas as comunidades suscitadas pelo kerygma da ressurreição de Jesus. E não parando de surgir um pouco por aqui e por acolá, já chegavam a regiões e culturas além daquelas adjacentes à Palestina…


Fundadas pelos judeus da diáspora, muitas delas gozavam de total liberdade frente aos costumes tradicionais da Lei e o Culto. Estes irmãos, também conhecidos como helenistas, possuíam uma mentalidade mais aberta que os seus homónimos palestinenses, os quais ainda não tinham abandonado certos costumes judaicos apesar de acolherem a Boa Nova. Na verdade, alguns destes nazarenos continuavam a frequentar o Templo, e permaneciam fortemente enraizados aos ritos antigos.


Como já vimos, a maioria das novas comunidades foram fundadas pelos fugitivos de Jerusalém, pela altura da grande perseguição iniciada com a morte de Estevão. Se Filipe escolheu a Samaria como território do seu anúncio, não faltaram também helenistas que levaram o Euangelion a outros destinos como missionários itinerantes.
Entre os anos 37 e 42 já se contavam comunidades fundadas em Cesareia, Lida, Fenícia, Chipre e Antioquia.


A comunidade de Jerusalém, atenta a esta vaga de expansão, decide enviar Barnabé à longínqua cidade de Antioquia para lá prestar assistência à comunidade nascente. Barnabé, “homem bom, cheio de Fé e do Espírito Santo” (Act 11,24), era já reconhecido na cidade santa pela dedicação à comunidade. Proveniente da linhagem dos levitas do Templo e helenista descendente do Chipre, participava assiduamente na comunhão de bens e na vida fraterna com os nazarenos.


Antioquia da Síria destacava-se como uma metrópole célebre no mundo antigo. Estrategicamente situada entre o Mediterrâneo, Arménia e a Pérsia, servia de ponto de passagem das mais variadas rotas mercantis. Conta-se que nessa altura a cidade já rondava cerca de quinhentos mil habitantes, formando um “caldo” cultural e étnico como muito poucos naquela época. Situada na fronteira entre os mundos ocidental e oriental, Antioquia acolhia numerosos estrangeiros como os persas, cipriotas e outras minorias, dentre as quais se destacavam também os judeus. Foi precisamente no seio dessa colónia judaica que o Euangelion se propagou na cidade.


Quando Barnabé chega a Antioquia rapidamente assume uma diaconia (serviço) exemplar e aceite por todos. O seu pensamento estava próximo dos helenistas, e por isso, é acolhido por estes sem reservas; e simultaneamente, a sua ex-condição de levita de Jerusalém conferia-lhe também a autoridade necessária para lidar com os judeus mais conservadores das antigas tradições.


Porém, Com o crescimento da comunidade, Barnabé estava necessitado de novos colaboradores. Tendo ouvido falar de Saulo, já famoso em Jerusalém, dirige-se ao seu encontro em Tarso. A partir de então, Saulo é conduzido por Barnabé a Antioquia. Lá permanecem por um ano, amadurecendo e aprofundando as suas experiências de discípulos. Da proximidade entre eles nascia uma forte amizade, fruto da identidade que partilhavam nas atitudes e opções pelo anúncio do Reino. Saulo admirava o exemplo de Barnabé: um homem de mentalidade conciliadora e também apaixonado pela Boa Notícia.


Ambos continuam “instruindo uma comunidade numerosa” (Act 11,26) num ambiente onde a língua predominante era o grego. É então neste meio helenizado de Antioquia que muitos cidadãos começam a ouvir falar de um nome inédito: os judeus piedosos que rejeitavam o Euangelion dirigiam-se com desdém aos membros da nova comunidade, apelidando-os de Christianoi (CRISTÃOS). Estes irmãos, segundo eles, tornaram-se infiéis à antiga Aliança e à Lei de Moisés por causa do “falso” e “escandaloso” Messias que proclamavam; o seu “Cristo”.


A seita judaica dos nazarenos ganhava progressivamente um rosto distinto e com um novo alcance. A Boa Notícia de Jesus já não era somente proclamada nas pequenas aldeias e vilas do meio campesino. A grande cidade de Antioquia converter-se-ia no novo pólo de irradiação de um movimento que Saulo e Barnabé eram pioneiros. Ambos decidem partir de Antioquia, decididos a fundar novas comunidades, convictos que agora pisavam um novo mundo, dando os primeiros passos para o advento do CRISTIANISMO

terça-feira, 4 de novembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS [5]


- De Damasco a Jerusalém –


O caminho que conduziu Saulo ao Paulo que conhecemos hoje foi fruto do ambiente que se respirava naqueles tempos e sobretudo das mediações excepcionais que recebeu. O seu processo de amadurecimento estava longe de terminar, e a fuga para a Arábia marcara somente a primeira etapa do “atleta de Cristo” (Flp 3,14).

Decorria o ano 39…

Saulo após algum tempo, e com a garantia dum clima favorável ao seu regresso, retorna a Damasco e reencontra-se com a comunidade que jamais esquecera. Dirigindo-se com eles ao lugar onde se reuniam, celebram novamente juntos a fracção do pão. E aí, no memorial da vida do Mestre, o jovem de Tarso dá graças por agora tomar parte nela, por partilhar o melhor de si, pronto a dar-se pela causa do Reino. Saulo estava preparado para o próximo passo, envolvido e comprometido por inteiro na vida renovada que recebera das mãos dos seus compatriotas, os helenistas damascenos.


Por eles conhecera e reconhecera o seu Vivente, o seu amado. Agora não existiam mais os véus ritualistas, a miopia das minúcias normativas, ou as escamas obscuras do nacionalismo. Ele via claramente e tocava realmente o ressuscitado na proximidade íntima e fraternal daquela comum-unidade, com a consciência de sentir-se também pertença do Cristo, seu discípulo fiel, seu mensageiro. A missão de Saulo inaugurava-se aqui, e no seio daquela nova irmandade escutava a voz do Mestre que lhe sussurrava:
“Segue-me! Persegue-me agora por Amor”…



Decidindo permanecer na cidade por mais algum tempo, a comunidade incumbe-lhe a tarefa do ensino nas sinagogas. Logo desde muito cedo, ao observarem-no em missão, os irmãos de Damasco vão-se dando conta que nele havia um karisma especial. A sua Fé, paixão e anúncio conferiam-lhe uma autoridade fora do comum. Muitos até eram unânimes em reconhecer no Kerygma de Saulo uma novidade: a eloquência, coerência, e sobretudo o conhecimento das Escrituras, impressionava tanto judeus como gregos até ao ponto de alguns deles aderirem ao Euangelion. Em pouco tempo Saulo converteu-se numa revelação que ganhou fama além de Damasco.


As notícias não paravam de correr pela Palestina. Á comunidade de Jerusalém e a outras próximas chegavam novas: “aquele que antes nos perseguia, agora anuncia a Boa Notícia da fé que antes tentava destruir”(Gal1,23). Era certamente uma notícia invulgar, e ainda que recebida por alguns com incredulidade, estava todavia carregada de esperança. Era acima de tudo uma notícia densa de Boa Novidade para aquelas comunidades da Judeia e da Galileia, oprimidas tantas vezes pela incompreensão e intolerância dos outros judeus.


Que impacto seria, escutar que Saulo “o terrível fariseu e inquisidor de Jerusalém” convertera-se em nazareno. É certo que alguns talvez ainda guardassem a vivida memória da sua perseguição, os seus interrogatórios, invectivas e ameaças. É certo que alguns tinham experimentado até a condenação de familiares pelas suas mãos. Porém, os sinais do Reino que Saulo operava em Damasco iam diminuindo as hipóteses de dúvida, e provavelmente, um pouco por toda a Palestina, as comunidades celebravam o memorial da fracção do pão com este espírito de comunhão e encanto:


“Nós te Louvamos e bendizemos Deus da Promessa e da Aliança! Agradecemos-Te, querido Abba, o Dom da Vida de Yeshu, nosso Meshiah [Messias] e Salvador…nosso amigo…nosso Irmão! A sua fidelidade superou todas as esperanças até ele se revelar como Novidade messiânica! Novidade que não cessa de acontecer na nossa história, e na vida do nosso povo, Israel, e por isso exultamos de alegria pela Boa Notícia de nosso novo irmão Saulo: outrora fariseu que nos perseguia agora foi alcançado pelo teu e pelo nosso ressuscitado! Sim Abba, somos felizes porque Saulo encontrou-te e reconheceu-te no rosto do nosso amado Yeshu de Nazaré!
Por este querido irmão nos consagramos, para que ele, agora fortalecido, anuncie aos nossos compatriotas e com todo o desassombro a Boa Notícia do Reino, esperado desde a criação do mundo, anunciada a David, e proclamada pela boca dos profetas. Estamos todos com ele, o nosso Saulo, unidos no mesmo amor e fraternidade do Mestre, e com ele esperamos a vinda definitiva do teu Reino!”


Entretanto, em meados de 42, o jovem de Tarso sente-se agora decidido a subir a Jerusalém, quem sabe, curioso por conhecer a primeira comunidade da Via do Senhor e nela dar o testemunho pessoal da sua conversão. Talvez estivesse igualmente ansioso por saber como foi a experiência pascal dos primeiros discípulos. Sobre todos os motivos possíveis, havia porém uma certeza naquela decisão: a paixão de Saulo pelo seu ressuscitado fazia-o mover-se, caminhar, até correr para o anunciar aonde fosse preciso. Não podia parar, e a cidade de Damasco agora tornara-se demasiado pequena para proclamar o kerygma do Vivente de Nazaré, o Cristo.


Chegado a Jerusalém encontra-se com Pedro e Tiago e lá permanece por quinze dias (Gal1,18-20). Tiago, também conhecido como "Irmão de Jesus", não era nenhum dos doze mas alguém de relevo naquela comunidade, mais um dos que tinham feito a experiência pascal com o Vivente de Nazaré. Saulo reúne-se com Pedro escutando com fascínio os seus episódios da vida comum com Jesus, o modo como os seus olhos se abriram ao reler as Escrituras, e a partir daí como ele e os seus companheiros em reunião, tinham vivido o primeiro encontro com ele. Jesus afinal estava Vivo, com eles, presente de forma nova, vitoriosa e plena; Saulo agora saboreava como tudo tinha mudado a partir dali, e tal como antes, não tinha dúvidas: a ressurreição era o núcleo da Boa Nova do Reino, da nova ordem iniciada por um Vivente e Messias, o Cristo, permanentemente re-suscitado a partilhar tudo o que recebera do Abba aos seus irmãos e discípulos.


Saulo saboreava esse testemunho de Pedro com exultação, porque ele mesmo experimentara-o também na carne! Experimentara que a visão do ressucitado tinha como ponto de partida todas as promessas das Escrituras, e como ponto de chegada a certeza de que a sua presença permanente não era individual, mas confirmava-se na derradeira proximidade da Philadelphia (amor entre irmãos) com o Dom do Espírito. Assim testemunharia mais tarde aos Coríntios:


“Antes de tudo, transmito-vos aquilo que eu mesmo recebi: que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras, apareceu a Cefas, e depois aos doze; a seguir, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez (…); em seguida, apareceu a Tiago e depois a todos os apóstolos. Por último apareceu a mim, …” (Cor 15,3-8)


Enfim, agora Saulo partia de Jerusalém, feliz pelos testemunhos de Pedro e Tiago. Confirmara-os pelo testemunho da sua conversão, e ao mesmo tempo, também saía confirmado por eles na sua missão, como verdadeiro irmão de Yeshu, discípulo que também o vira e reconhecera. E nesta alegria serena, Saulo decide regressar à sua cidade natal a fim de lá também anunciar o Euangelion.


Lá, em Tarso, não tardaria a receber uma visita de alguém que mudaria o rumo da sua história, e o haveria de preparar como futuro apóstolo dos gentios

terça-feira, 28 de outubro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS [4]


- O homem novo -


Nascer de novo, nascer novo… a experiência pascal de Saulo era profunda e marcara-o a ferro e fogo. O encontro com o Nazareno ressuscitado apanhara-o como uma espada afiada que penetrava-lhe o fio da vida a ponto de rasgá-la em dois momentos: o “antes” e o “depois”… a luz que encontrara no seu íntimo era tão ofuscante que convergia num pólo de atracção invencível, impulsionando-o para um salto qualitativo, um seguimento…porém, seguir aquela luz exigia também superar o túnel escuro e tenebroso das lógicas antigas.


Aquele jovem sentia-se ainda envolvido numa luta interior, dividido entre o velho fariseu que ainda o habitava e o novo seguidor do Nazareno que inesperadamente emergia. Romper com os princípios e tradições farisaicas implicava sobretudo uma ruptura de esquemas mentais dominantes. Não era tarefa nada fácil, e como se não bastasse havia perguntas que não cessavam de atormentá-lo: “E agora? O que fazer? Para onde, como, e com quem?” Experimentava assim uma crise intensa que o suspendia num estado de vertigem, conflito e instabilidade. Sentia-se como um cego que desesperadamente procurava apoio.

“Saulo levantou-se do chão e, ao abrir os olhos, não enxergava…” (Act 9,8)

Na verdade, sozinho, Saulo jamais estaria capacitado a alcançar um outro paradigma, uma nova coerência de ser e de viver. O encontro com o ressucitado tinha apenas assinalado o início de uma longa etapa, por isso a sua conversão não teve nada de espontâneo ou automático nem se deveu a um “acto mágico”. Foi antes o resultado de um processo, um caminho catecumenal mediado por um contexto propício: a própria comunidade dos nazarenos de Damasco! Saulo foi então “conduzido pela mão” pela mesma comunidade que tencionara destruir. E lá permaneceu o tempo suficiente até lhe “caírem as escamas dos olhos”. Para isso foi fundamental a intervenção privilegiada de Ananias. Este discípulo de Damasco tornara-se assim no principal mediador da acção da Ruah em Saulo: “Irmão Saulo, o Senhor Jesus me enviou, aquele que te apareceu quando vinhas, para que recuperes a visão e te enchas do Espírito Santo” (Act 9,17)




Paciente e de forma muitas vezes sofrida, como que gemendo as dores de um parto, Saulo reconstruía-se com os critérios da fraternidade que vivia com os nazarenos. A pouco e pouco, este jovem renascia robustecendo-se na Fé, na alegria e na força do Euangelion. E neste caminho de conversão, reformulava também toda a sua visão da Lei e da Antiga Aliança à luz dos preciosos estudos rabínicos que recebera. Assim, a Boa Nova do Galileu de Nazaré adquiria para ele um sabor de confirmação que mais ninguém ainda conhecia, nem mesmo os primeiros discípulos. A re-leitura de toda a história do seu povo com o Deus de Israel harmonizava na perfeição com a vida, as opções e as palavras do ressucitado! Tal revelação não podia permanecer com ele, sentia-se compelido a partilhar esta Boa Notícia a qualquer custo…


Não podendo mais conter o entusiasmo “logo se pôs a proclamar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus [Messias]” (Act 9,20). Como retaliação, alguns judeus que o escutaram decidiram matá-lo porque aquele anúncio confundia-os. Talvez lhes perturbasse mais ainda ouvirem estas coisas dum ex-fariseu, um ex-inquisidor dos nazarenos. Isso sim, confundia-os e assustava-os de verdade! Sem outra alternativa, os discípulos de Damasco planeiam a fuga de Saulo. Procurando evitar fazê-lo sair pelos portões vigiados da cidade, descem-no num cesto pelos seus muros. Assim Saulo parte para longe, retirando-se por algum tempo para o território da Arábia…





A experiência pascal de Saulo foi talvez a mais radical que alguma vez conhecemos em toda a história da salvação. O jovem que se consagrou como instrumento de morte aos nazarenos, convertera-se para se tornar em breve num “instrumento escolhido para difundir meu nome entre pagãos, reis e israelitas” (Act 9,15). A sua grande paixão deixara de ser a Lei, e o seu zelo irrepreensível, outrora farisaico, gravitava agora, e com ainda mais vigor, em torno do Christós [tradução grega de Messias].


A ressurreição do Cristo-Messias-Ungido era o núcleo do seu Kerygma, a Boa Novidade que trazia a libertação e a vitória sobre o homem velho, aquele que conhecera tão bem e o mesmo que tombara à entrada de Damasco. A vinda do homem novo, mais tarde proclamado por Saulo, não só era inaugurada na vida do Mestre de Nazaré, mas também adquiria carne e autoridade na sua própria vida. Por isso não tinha qualquer pudor em anunciar que “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20). O amor vencera-o, e agora era preciso derramá-lo a todos os que ainda não o conheciam…


“Quem nos afastará do amor de Cristo: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada?(…)Em todas essas circunstâncias, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou. Estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem anjos nem potestades, nem presente nem futuro, nem poderes, nem altura nem profundidade, nem criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus Senhor nosso.”

Rom 8, 36-39

terça-feira, 21 de outubro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS [3]




- O Caminho de Damasco -


Todo o cuidado era pouco naqueles tempos difíceis…




A qualquer momento as portas da casa onde se encontravam podiam ser derrubadas e começariam as ameaças, prisões, a ira das multidões, e quem sabe até a morte… a comunidade de Jerusalém já testemunhara a fúria do Sinédrio contra Estevão, e outros irmãos. Conheciam muito bem a proximidade que os 72 membros do Concelho mantinham com as autoridades romanas, a poderosa influência que exerciam sobre o povo, e sobretudo já tinham ouvido falar daquele nome terrível que liderava as fileiras dos executores, nome sussurrado na boca dos mais temerários: “Saulo, o fariseu”.

Porém, ainda que assustados, estavam muito longe de desesperarem…

Os doze e outros discípulos tinham sido preparados pelo Mestre de Nazaré desde o princípio. Quantas vezes e de quantos modos já tinham testemunhado o seu desassombro e ousadia? Experimentaram os seus numerosos confrontos com as castas dos mais poderosos e a perícia com que desmontara todas as suas manhas. Viam-no como o “homem sem-medo” que subira até Jerusalém, curando e libertando uma multidão de gente a ponto de desafiar a podridão escamoteada do Templo e a prática injusta da Lei. E finalmente, como não poderiam esquecer a experiência pascal? A derradeira confirmação de que o Mestre era um Vivente, vitorioso sobre tudo e todos quantos o desafiaram?! O mesmo que comera e bebera com eles tinha sido erguido dos mortos, e nesse impulso de exaltação, elevara-os do mais profundo abismo da decepção, da angústia e do desamparo.


Aqueles discípulos, acompanhantes dos primeiros passos do Mestre, tinham sido provados no melhor e no pior de tudo o que implicava ser testemunha de um ressuscitado, saboreando agora o triunfo de uma Vida totalmente entregue pela causa do Reino! Não havia força que os vergasse, ameaça que os atemorizasse, nem prisão alguma que os detivesse. Até à morte se fosse necessário…era desta segurança que os restantes irmãos se alimentavam. E com este Espírito os primeiros discípulos animavam e lideravam a comunidade, preparando todos a enfrentarem o pior com ousadia, na confiança que a morte já não lhes poderia tirar nada porque a vida do ressuscitado já fluía entre eles e a vantagem do Reino era mais que garantida!


Esta atitude era agora fortalecida por outra notícia que chegara recentemente: Filipe dava a conhecer à comunidade que os samaritanos haviam acolhido o Euangelion! Naquela situação não será difícil adivinhar o sentimento que invadia todos os discípulos de Jerusalém: com gritos de júbilo davam Graças ao Abba e à presença confirmada do Espírito do ressuscitado. Imediatamente reúnem-se e decidem enviar Pedro e João à Samaria. Os dois viajam até lá e são calorosamente acolhidos por Filipe e os samaritanos. Assim, testemunhando as maravilhas da nova comunidade nascente, os apóstolos impõem-lhes as mãos e transmitem-lhes o Espírito Santo como sinal de comunhão e de bênção. A chama criadora que animara os profetas e reis, a mesmo que permanecera em Jesus, era agora visível e operante nos samaritanos. Pelos laços do Espírito aqueles pagãos entravam assim na longa linhagem do Povo de Israel, o resto fiel de discípulos do Nazareno e irmãos da comunidade de Jerusalém.


Entretanto Saulo não se contentava com o decorrer dos acontecimentos. Para ele não havia um minuto a perder. A seita judaica dos nazarenos não podia continuar a expandir-se, e desta vez era necessário levar o poder do Sinédrio para além dos muros de Jerusalém. Sentia a necessidade de se investir de toda a autoridade da cidade santa, na esperança de colaborar com os sinédrios locais das outras cidades da diáspora. Se esse plano fosse avante, havia uma hipótese de outros seguirem-lhe o exemplo e a iniciativa, e talvez finalmente os nazarenos fossem erradicados de vez…



Apresenta-se então diante de Caifás e “solicita-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que se encontrasse homens e mulheres que fossem desta Via, os trouxesse algemados para Jerusalém” (Act 9,1-3). O sumo-sacerdote naturalmente não lhe nega nada. Saulo era um fervoroso fariseu, homem culto e esclarecido na Lei. Como cidadão romano de Tarso, tinha a vantagem de falar o grego e seria assim a arma ideal nas mãos do Sinédrio para atingir o coração da nova seita no estrangeiro.


Sem demora, Saulo sai velozmente a galope da cidade com uma comitiva de companheiros. Porém, estando a caminho e já próximo de Damasco, algo de inesperado acontece. Algo que não “estava nos planos”. Não sabemos bem como foi, ou quais as circunstâncias que provocaram aquele evento. Não sabemos sequer por mediação de quem…o que sabemos é que na chegada iminente a Damasco, Saulo é “subitamente envolvido por uma intensa luz “ e “cai por terra”



Caíra “do cavalo”. Caía dos pedestais que o tinham elevado como fiel servidor do Senhor de Israel; caía abaixo de todas as seguranças e certezas que faziam dele um fariseu; “caía por terra” para se enfrentar numa última batalha, no solo rasteiro e poeirento das arenas onde os profetas se gladiavam com Deus. O Ungido de Yahvé entrara na sua vida sem convite, por pura gratuidade e com todo o seu poder salvador. Da queda, Saulo saia gravemente ferido no orgulho, no zelo nacionalista, e despido de todos os motivos que o tinham levado a encetar aquela cruzada sanguinária. Pela primeira vez sentia-se inseguro e derrotado diante de alguém. E aí caído, no mais íntimo de si, Saulo encontrava-se “face-a-face” com o ressuscitado, reconhecendo nele alguém mais forte do que a Lei! Assim, num misto de agonia e encanto irresistível escuta:
“Saulo, Saulo, porque me persegues?”




O jovem fariseu perante aquela voz dá-se por vencido, rende-se totalmente, reconhecendo nela o poder e a realeza de Yahvé. Em toda a sua vida jamais encontrara um adversário à altura… aquela voz só podia ser do Messias, porque só O Messias podia detê-lo e atirá-lo “por terra” daquele jeito! Só mesmo o poder daquele Vivente podia despi-lo de toda a vida que levara e devolvê-la a seguir para um novo propósito, um novo caminho, um novo homem…


Saulo "o fariseu" morria assim para renascer; para ser suscitado do novo pelo mesmo Nazareno que perseguira

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS [2]



- Saulo -


Enquanto a semente do Reino do ressuscitado rebentava em cada vez mais povoações e lugares longínquos, em Jerusalém o Sinédrio recrutava e movia todos os recursos e gente para desferir o golpe fatal sobre os nazarenos da cidade. Nessa vaga participavam não só sacerdotes, levitas e saduceus, como também gente piedosa do povo de sentimentos nacionalistas, nomeadamente os fariseus. Entre eles destacava-se Saulo. Vemo-lo presente na lapidação de Estevão a segurar as capas dos agressores e aprovando aquela morte. Mas afinal quem era aquele jovem?




Saulo, proveniente da província da Cilícia e cidadão de Tarso, era “hebreu, filho de hebreus da tribo de Benjamim” (Fl 3,5). Altivo, temperamental, e de personalidade forte arrogava-se de representar a elite do Povo Eleito, um dos poucos fieis de Yahvé. Desde nascença manifestava o orgulho de ser um israelita autêntico, depositário da Promessa, e fiel cumpridor da Aliança e da Santa Lei. Todo ele se deixava imprimir por estas três colunas da religião dos filhos de Jacob.


Na idade da adolescência ingressa na famosa escola rabínica de Gamaliel (Act 22,3). Ali dedica muitas e longas horas aos pés do mestre, investigando as Escrituras e aprofundando o estudo da Lei a fim de tornar-se num discípulo brilhante e zeloso. O jovem cresce assim como um fariseu piedoso e dos mais escrupulosos, não aceitando o menor contacto com pagãos. Havia que viver como Judeu entre Judeus, separado de toda a idolatria.


Passa a cumprir o rito de orar sempre com um véu, o ”tailith”, um manto de longas filactérias e os “tefilim” enrolados nas mãos para recitar as dezoito bênçãos. Comia somente alimentos “kosher” para evitar qualquer contaminação com comida impura. Cingia-se também do “tzitzit”, um cinto rodeado de franjas, e sinal exterior que exibia um israelita devoto, e irrepreensível cumpridor dos mandamentos da Lei.


Além de tudo isto crê-se que pertencia a uma facção extremista do fariseísmo, um grupo de conservadores das velhas tradições de Israel, e cumpridores das mais insignificantes minúcias rituais. Estávamos diante de um jovem adepto de uma espécie de “nacional-judaísmo”, ou “extrema-direita” judaica.


Imaginem...

Imaginem só um homem destes, a caminhar pelas ruas de Jerusalém, que de súbito dá de caras com a propaganda sobre uma seita de gente que desprezava o Culto e a Lei? Um Jovem que tinha dedicado toda a sua vida à estrita observância da Torah, fiel frequentador da sinagoga, e educado como fariseu reaccionário que seria capaz de dar a vida ou derramar sangue num "piscar de olhos" pela nação e o "deus" que tanto amava! Claramente era um homem a temer, capaz de qualquer coisa, qualquer uma…para defender a fé judaica.


Ouvir falar dos nazarenos despertara-lhe uma fúria que lhe revirava as entranhas. Simplesmente não suportava a notícia da ressurreição de um amigo de prostitutas, publicanos e estrangeiros…aquele Galileu era um “glutão e beberrão”, desrespeitara inúmeras vezes o Sábado, e arrogara-se de perdoar pecados. Tinha desrespeitado a Lei, a Tradição e o Templo. “É um maldito que mereceu a crucifixão! Como Deus podia ressuscitá-lo??” – pensava ele. “E quem é essa gente que o proclama?Não podem ser nossos compatriotas. São antes um bando de traidores da nação!! Yahvé há-de exterminá-los um por um e, como servo fiel, tornar-me-ei no seu instrumento!”


Como atitude tão típica do seu modo de ser, empenha-se totalmente e sem reservas a esta nova missão: alistando-se na vaga hostil aos nazarenos “Saulo devastava a igreja, entrava nas casas, agarrava homens e mulheres e entregava-os á prisão” (Act 8,3), e como se isso não bastasse “respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (Act 9,11). Aquele inquisidor fanático mais tarde admitiria:



“Foi o que fiz em Jerusalém, com autoridade recebida dos sumos-sacerdotes, punha na prisão muitos consagrados. E quando condenavam-nos à morte, eu dava o meu voto. Muitas vezes nas sinagogas eu maltratava-os fazendo-os blasfemar; e meu futuro cresceu a ponto de persegui-los em cidades estrangeiras.” (Act 26,10-11)


A perseguição de Saulo estava longe de terminar em Jerusalém. O rasto de destruição que deixava atrás de si iria-se propagar muito mais além. Este homem tinha declarado uma guerra de morte aos discípulos e discípulas do Yeshuah de Nazaré…

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS [1]



- A Expansão -




O caos rebentara em Jerusalém…


Após a morte de Estevão é desencadeada uma perseguição declarada e violenta aos nazarenos (Act 8,1). O Sinédrio estava agora, mais do que nunca, empenhado em provocar uma vaga que os exterminasse de vez. O tempo da “guerra fria” terminara. Os chefes de Jerusalém apercebiam-se pelo discurso de Estevão que havia um ataque directo e explícito à Lei e ao Templo. E pior ainda; ele vinha de judeus provenientes do mundo grego. Os helenistas convertidos eram os mais independentes e incisivos. Por isso a ameaça não se manifestava apenas dentro dos muros da cidade, mas podia alastrar-se rapidamente a todo o judaísmo do Oriente. Era uma questão de dever nacional…


Assim muitos judeus gregos, conterrâneos e amigos de Estevão, fogem da capital para a Judeia e Samaria provocando a disseminação da comunidade dos nazarenos de Jerusalém. Apesar do medo das autoridades, estes fugitivos continuavam a sentir o ardor e o zelo pela Boa Notícia de Jesus. Era impossível silenciá-los! O imenso reconhecimento que possuíam levava-os a sentirem-se como pertença a um mistério de vida maior, e as maravilhas que testemunharam marcara-lhes para sempre…

Havia neles um impulso de gratuidade, uma energia criadora e um sentido de unidade incomparáveis. Por isso mesmo, ainda que dispersos e distantes entre si, comungavam dum só Espírito: a Ruah que os animava enchia-lhes de uma força, uma dynamis para proclamar a ressurreição do Nazareno. Entre aqueles que se dirigiam para a Samaria, contava-se Filipe.


Os samaritanos eram considerados como raça impura, gente que não conhecia a Lei, e por isso desprezados pelos judeus, porém Filipe, um dos sete diakonoi nomeados de Jerusalém, não tinha qualquer pudor em anunciar o Euangelion a estes estrangeiros; a gratuidade que o movia superava os seus preconceitos. Não havia barreiras à acção poderosa e libertadora do Espírito Santo. Filipe espalha o fogo do Euangelion no seio daquela gente abandonada por Israel, e ali funda uma comunidade fecunda a tal ponto que “a cidade transbordava de alegria”. Era primeira vez que a Boa Notícia de Jesus transpunha o judaísmo. E assim o tempo passava e novas comunidades iam florescendo na palestina e mais além.


A acção das autoridades de Jerusalém na prática resultara desastrosa. O seu desígnio de conter os nazarenos pela violência só provocara a sua expansão. Aqui verificava-se a fecundidade do martyrion [que significa “testemunho”] de Estevão! A morte daquele discípulo não era desejada por Deus, tal como a de Jesus. Por isso ela não podia cair num absurdo! Aquela testemunha do ressuscitado não podia morrer em vão, o Deus de Israel não o permitiria; o Abba intervinha poderosamente a partir daquela aparente derrota. Sim, o martírio profético de Estevão era revestido da força do Alto, e provocava uma viragem histórica na emergência do movimento nazareno! A Boa-Nova agora “rebentava à força de bomba”, como eco da ressurreição de Jesus. Rasgava-se uma brecha, iniciava-se um novo capítulo na história da salvação.


O gérmen da Igreja despontava sob o sangue derramado de Estevão, aquele profeta da ressurreição tornava-se profecia… mais tarde, Tertuliano, um Cristão de Cartago do séc III confirma a regra:

“o sangue de mártires é semente de cristãos”

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

NO TEMPO DA SEITA DOS NAZARENOS [6]


- A Testemunha -


A comunidade de Jerusalém continuava a crescer apesar do clima de tensão vivido com as autoridades. Mais do que nunca, era agora necessário dar atenção às diferentes sensibilidades de discípulos cada vez mais numerosos e de origens diversas. A ela aderiam judeus não só provenientes da própria cidade e da palestina, mas outros que vinham do estrangeiro, da chamada diáspora, e que entretanto se tinham instalado em Jerusalém. Falavam a língua grega, e além de receberem a educação e tradição judaicas, tinham assimilado também a cultura helenística.


Discutia-se entre eles que as viúvas de irmãos gregos não recebiam o mesmo cuidado que as dos israelitas natos (Act 6,1). Apesar do problema, a comunidade reúne-se com os apóstolos. Ali não havia hierarquia nem castas privilegiadas. Todos examinavam, dialogavam, reflectiam, e decidiam em comum igualdade segundo a Fila-délfia [traduz-se como “amizade entre irmãos”], uma autêntica fraternidade entre discípulos e discípulas de um Mestre na arte de amar e servir.

Assim nomearam por unanimidade sete irmãos, sete judeus gregos que auxiliassem os doze na diakonia [tradução grega de “serviço”] à comunidade. Seus nomes eram
Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas, e Nicolau.


Estes sete diakonoi [servidores] eram convocados para o serviço da fracção do pão, assegurando a partilha comunitária de bens aos mais desprotegidos, nomeadamente aos órfãos e viúvas. Porém, na prática também dedicavam-se ao anúncio do Euangelion.
Por isso expressavam a mesma diakonia dos doze, a diakonia de Jesus: “Eu vim para servir, não para ser servido”


Estes diáconos não eram instituídos segundo uma “ordem sacra”! Eram escolhidos sobretudo porque todos reconheciam neles a eficácia do Kerygma, o mesmo “selo de qualidade” atestado nos apóstolos e nos outros primeiros discípulos e discípulas de Jesus. Eram nomeados precisamente por serem os mais estimados pela comunidade. Estima que vinha do bem extraordinário que faziam. Por isso, a sua nomeação era sinal de confirmação de que a Ruah já actuava eficazmente neles com as qualidades (karismas) de servidores da Palavra do Mestre Nazareno, e por isso seguidores das suas acções…


Entre eles sobressaía Estevão. Aquele Jovem predilecto, e “menino dos olhos” da comunidade de Jerusalém, anunciava a ressurreição de Jesus com a maior vitalidade, acolhendo, confortando e trazendo a redenção aos abandonados de Jerusalém.
Esses agraciados liam no seu jeito de ser e nos seus actos “grandes milagres e sinais”, à maneira de Jesus.

A alegria e o entusiasmo pelo Yeshu de Nazaré envolviam-no e penetravam nele até às entranhas de tal modo que maravilhava tudo e todos. Estevão cativando assim cada vez mais corações agradecidos, surgia como um dos primeiros frutos maduros dos nazarenos, um fruto abundante do Reino de Deus que se propagava e parecia já ultrapassar todas as barreiras culturais no seio do judaísmo.


De súbito, numa discussão com outros gregos cultos pertencentes à sinagoga, Estevão é assaltado por uma turba de gente furiosa. Um grupo restrito da sinagoga, em conluio com o Concelho da cidade, tinha subornado alguns entre a multidão espalhando boatos de que Estevão blasfemara contra o Templo e a Lei. Era esta a oportunidade tão esperada pelos membros do Sinédrio. Estavam dispostos a fazer dele um exemplo, uma mensagem de ameaça e terror para afugentar os nazarenos.




O jovem comparece num julgamento de juízes tendenciosos, acusado por testemunhas falsas, e condenado ainda antes do caso ser concluído. Iria sofrer as consequências da luta pela liberdade e salvação dos filhos de Israel, nas mesmas condições do seu Mestre Yeshu. O sumo-sacerdote Caifás desafia-o a responder às acusações.


Surprendentemente, Estevão não as nega, mas fundamenta-as! Todo o Concelho sobressalta-se! Colocam as mãos à cabeça. O tiro saíra-lhes pela culatra. Esperavam que ele se humilhasse argumentando uma defesa justa para parecer culpado. Mas aquele homem não só admitia as falsas acusações, como apresentava-as e defendia-as como sua causa.


Com firmeza e cheio do Espírito Santo, cita o próprio Deus, o Abba de Jesus, alto e bom som, pela boca do profeta Isaías: “que templo podereis construir para mim?”. Estevão estava a reduzir em frangalhos toda a tradição sacerdotal de Israel, atribuindo também um novo significado à Lei.
Deus não habitava em templos de “justos”, mas nos corações dos justificados e últimos. Jesus ressuscitado era a pedra angular de um Templo novo que não conhecia fronteiras, que se edificava nos corações dos nazarenos.


Caifás aterrorizado via nele uma face sem medo, uma face que lhe lembrava o Nazareno que havia condenado. O sangue dos poderosos do Sinédrio gelava-lhes nas veias. Aquela cena era assustadoramente familiar. Mas que era isto??? O medo que pretendiam instigar apossara-se deles. O feitiço virava-se contra o feiticeiro…

Estevão não pára! Ardente de zelo pela causa e o Reino de Jesus, denuncia-os como homens de “dura cerviz, incircuncisos de coração e ouvidos”, “resistentes ao Espírito” e “assassinos de profetas”.

Perante aquela defesa escandalosa e subversiva, “eles mordiam-se por dentro e rangiam os dentes contra ele” (Act 7,54). Então dando um grande grito, taparam os ouvidos e lançaram-se com toda a fúria contra Estevão. Arrastam-no pelas ruas de Jerusalém à vista do povo e conduzindo-o para fora dos muros da cidade apedrejam-no violentamente até à morte.




Estevão tinha dado um testemunho verdadeiro e absoluto, não pela sua morte, mas por uma vida entregue até àquela morte, de que Jesus era o Messias ressuscitado e inimigo declarado do Templo e da forma como os poderosos de Jerusalém entendiam a Lei.

Entretanto nos bastidores desta cena terrífica encontrava-se um jovem que tinha segurado as capas daqueles que apredrejaram Estevão. Seu nome era Saulo