terça-feira, 9 de dezembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS[8]



- A Igreja dos Cristãos


Graças à acção evangelizadora de Paulo e de outros missionários itinerantes, o movimento dos Cristãos difundia-se desde de toda a Ásia Menor, passando pela Frígia, Panfília, Galácia, e agora propagava-se cada vez mais para ocidente, chegando também à Grécia e Macedónia.

A formação destas novas comunidades no mundo helenizado implicou um distanciamento gradual do judaísmo. Na verdade, a congregação das assembleias dos seguidores do Cristo-Messias iam deixando de ser realizadas nas sinagogas ao sábado. Nas comunidades de pagãos convertidos já não havia necessidade de celebrar a fracção do Pão numa “casa de oração judaica”, formando antes assembleias domésticas.


Cada uma destas assembleias de comunidades fundadas por Paulo era agora designada por um nome já famoso no mundo grego: ekklesia (termo que em português traduz-se como “Igreja”). Paulo não o escolhera ao acaso, uma vez que designava uma realidade anteriormente vivida no mundo pagão, e que agora ganhava um significado pleno no seio do Cristãos.




No mundo antigo a ekklesia nasceu no período do apogeu da civilização grega. No séc. V a.c. a Grécia foi a primeira cultura a instaurar a democracia. Ela constituía uma novidade absoluta na antiguidade, e representava a única alternativa num mundo onde normalmente imperava a lei do mais forte, e onde os poderosos dominavam os mais fracos. A ekklesia era a assembleia principal da cidade de Atenas e representava o pilar democrático da nação. Os seus membros eram provenientes de todas as classes, e em geral formavam um concelho popular para resolver assuntos urgentes de Estado.


Sempre que as cidades gregas viam-se subjugadas por um regime opressivo e corrupto, uniam-se para imediatamente suscitar uma ekklesia de modo a depô-lo. Assim, muitos cidadãos de todas as classes eram congregados a Atenas pelo clamor do povo, por um grito de Liberdade e uma palavra de esperança! Ainda que por razões óbvias, fosse muitas vezes considerada como uma assembleia aparte da autoridade civil, contudo, caso congregasse membros suficientes, a ekklesia reunia o poder necessário para restaurar a justiça e a ordem pública. Por causa de tudo isso era considerada por muitos como a assembleia dos cidadãos livres!


Com efeito, além das decisões de Estado, a ekklesia constituía sobretudo uma reunião democrática de cidadãos que buscavam a justiça relacional, onde houvesse uma supressão radical das suas diferenças. Traduzia por isso o desejo que todos fossem reconhecidos na cidade como iguais e dela participassem com os mesmos direitos, independentemente da raça, género, ou classe social. Foi dessa realidade que Paulo se inspirou para designar as assembleias dos Cristãos…


Para aquele apóstolo dos gentios, por um lado, todos os Cristãos – fossem judeus, pagãos convertidos, ou “prosélitos” – eram congregados por uma Palavra Libertadora do Mestre Nazareno, e Palavra definitiva do Deus que o havia ressuscitado. A Igreja (ekklesia) era assim a comunidade que nascia da Palavra Viva do Deus de Israel, que agora convocava todos os povos à comunhão e convivialidade do Reino!

Por outro lado, Paulo também apresentava-a como uma família, onde todos eram apreciados como iguais, e por isso mesmo valorizados nas suas diferenças! Ela devia ser a utopia de todas democracias: “Já não se distinguem judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, pois agora vocês todos são um só com Cristo [Messias] Jesus.” (Gal 3, 28). Por isso mesmo, a ekklesia implicava a anulação de todos os pólos que dividissem a humanidade: raça, religião, posição social, sexo… Ela constituía uma família de irmãos unidos segundo os laços do Espírito e que vivia na consciência de dar continuidade à missão salvadora de Jesus. Assim nasciam as ekklesias de Éfeso, Corinto, Tessalónica, Filipos, Colosso, entre tantas outras…



As redes de fraternidade que Jesus sonhara formar, manifestavam-se numa unidade que designava a ekklesia de Deus, o foco difusor do Reino a acontecer e a emergir onde menos se esperara. Porém, não era uma realidade alheia ao Império, e nos mais altos círculos já se começava a falar dos Cristãos. Mais tarde ou mais cedo, esta Igreja estava prestes a enfrentar o maior dos desafios…

3 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado Gustavo, por esse sentido de entender a Igreja nascente e que é tão ao jeito de cristo e de Paulo.
Um abraço
Calmeiro Matias

figlo disse...

...e, se...a Igreja no exercício do seu "Poder de Governo" fosse (e, não deveria ser?)o exemplo Democrático para o mundo...
Que heresia!!!
Um abraço.

Gustavo Sousa disse...

Obrigado Glória pelo teu comentário.
Era precisamente aí que queria chegar com este post...

A Igreja não nasceu dum ideal monárquico ou eclesiástico, mas começou como uma fraternidade. O melhor conceito que Paulo achou para explicitar aos pagãos essa realidade teologal foi a partir do conceito de igualdade democrática.

A Igreja obviamente não é simplesmente uma democracia. Porém, alegro-me em descobrir que o ponto de partida para a compreensão daquilo que significa tenha sido uma assembleia democrática.

E entristece-me que isso hoje não seja mencionado, ou quem sabe, até escamoteado porque "não convém" à actual organização da Igreja...
Na Igreja Primitiva só havia uma autoridade: a própria comunidade! Tudo decidia-se não tanto democraticamente, nem tampouco hierarquicamente, mas FRATERNALMENTE.

Parece que ainda não faz muito sentido dizer: “Somos todos irmãos…mas quem MANDA aqui sou EU!”

Um Abraço forte!