terça-feira, 21 de outubro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS [3]




- O Caminho de Damasco -


Todo o cuidado era pouco naqueles tempos difíceis…




A qualquer momento as portas da casa onde se encontravam podiam ser derrubadas e começariam as ameaças, prisões, a ira das multidões, e quem sabe até a morte… a comunidade de Jerusalém já testemunhara a fúria do Sinédrio contra Estevão, e outros irmãos. Conheciam muito bem a proximidade que os 72 membros do Concelho mantinham com as autoridades romanas, a poderosa influência que exerciam sobre o povo, e sobretudo já tinham ouvido falar daquele nome terrível que liderava as fileiras dos executores, nome sussurrado na boca dos mais temerários: “Saulo, o fariseu”.

Porém, ainda que assustados, estavam muito longe de desesperarem…

Os doze e outros discípulos tinham sido preparados pelo Mestre de Nazaré desde o princípio. Quantas vezes e de quantos modos já tinham testemunhado o seu desassombro e ousadia? Experimentaram os seus numerosos confrontos com as castas dos mais poderosos e a perícia com que desmontara todas as suas manhas. Viam-no como o “homem sem-medo” que subira até Jerusalém, curando e libertando uma multidão de gente a ponto de desafiar a podridão escamoteada do Templo e a prática injusta da Lei. E finalmente, como não poderiam esquecer a experiência pascal? A derradeira confirmação de que o Mestre era um Vivente, vitorioso sobre tudo e todos quantos o desafiaram?! O mesmo que comera e bebera com eles tinha sido erguido dos mortos, e nesse impulso de exaltação, elevara-os do mais profundo abismo da decepção, da angústia e do desamparo.


Aqueles discípulos, acompanhantes dos primeiros passos do Mestre, tinham sido provados no melhor e no pior de tudo o que implicava ser testemunha de um ressuscitado, saboreando agora o triunfo de uma Vida totalmente entregue pela causa do Reino! Não havia força que os vergasse, ameaça que os atemorizasse, nem prisão alguma que os detivesse. Até à morte se fosse necessário…era desta segurança que os restantes irmãos se alimentavam. E com este Espírito os primeiros discípulos animavam e lideravam a comunidade, preparando todos a enfrentarem o pior com ousadia, na confiança que a morte já não lhes poderia tirar nada porque a vida do ressuscitado já fluía entre eles e a vantagem do Reino era mais que garantida!


Esta atitude era agora fortalecida por outra notícia que chegara recentemente: Filipe dava a conhecer à comunidade que os samaritanos haviam acolhido o Euangelion! Naquela situação não será difícil adivinhar o sentimento que invadia todos os discípulos de Jerusalém: com gritos de júbilo davam Graças ao Abba e à presença confirmada do Espírito do ressuscitado. Imediatamente reúnem-se e decidem enviar Pedro e João à Samaria. Os dois viajam até lá e são calorosamente acolhidos por Filipe e os samaritanos. Assim, testemunhando as maravilhas da nova comunidade nascente, os apóstolos impõem-lhes as mãos e transmitem-lhes o Espírito Santo como sinal de comunhão e de bênção. A chama criadora que animara os profetas e reis, a mesmo que permanecera em Jesus, era agora visível e operante nos samaritanos. Pelos laços do Espírito aqueles pagãos entravam assim na longa linhagem do Povo de Israel, o resto fiel de discípulos do Nazareno e irmãos da comunidade de Jerusalém.


Entretanto Saulo não se contentava com o decorrer dos acontecimentos. Para ele não havia um minuto a perder. A seita judaica dos nazarenos não podia continuar a expandir-se, e desta vez era necessário levar o poder do Sinédrio para além dos muros de Jerusalém. Sentia a necessidade de se investir de toda a autoridade da cidade santa, na esperança de colaborar com os sinédrios locais das outras cidades da diáspora. Se esse plano fosse avante, havia uma hipótese de outros seguirem-lhe o exemplo e a iniciativa, e talvez finalmente os nazarenos fossem erradicados de vez…



Apresenta-se então diante de Caifás e “solicita-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que se encontrasse homens e mulheres que fossem desta Via, os trouxesse algemados para Jerusalém” (Act 9,1-3). O sumo-sacerdote naturalmente não lhe nega nada. Saulo era um fervoroso fariseu, homem culto e esclarecido na Lei. Como cidadão romano de Tarso, tinha a vantagem de falar o grego e seria assim a arma ideal nas mãos do Sinédrio para atingir o coração da nova seita no estrangeiro.


Sem demora, Saulo sai velozmente a galope da cidade com uma comitiva de companheiros. Porém, estando a caminho e já próximo de Damasco, algo de inesperado acontece. Algo que não “estava nos planos”. Não sabemos bem como foi, ou quais as circunstâncias que provocaram aquele evento. Não sabemos sequer por mediação de quem…o que sabemos é que na chegada iminente a Damasco, Saulo é “subitamente envolvido por uma intensa luz “ e “cai por terra”



Caíra “do cavalo”. Caía dos pedestais que o tinham elevado como fiel servidor do Senhor de Israel; caía abaixo de todas as seguranças e certezas que faziam dele um fariseu; “caía por terra” para se enfrentar numa última batalha, no solo rasteiro e poeirento das arenas onde os profetas se gladiavam com Deus. O Ungido de Yahvé entrara na sua vida sem convite, por pura gratuidade e com todo o seu poder salvador. Da queda, Saulo saia gravemente ferido no orgulho, no zelo nacionalista, e despido de todos os motivos que o tinham levado a encetar aquela cruzada sanguinária. Pela primeira vez sentia-se inseguro e derrotado diante de alguém. E aí caído, no mais íntimo de si, Saulo encontrava-se “face-a-face” com o ressuscitado, reconhecendo nele alguém mais forte do que a Lei! Assim, num misto de agonia e encanto irresistível escuta:
“Saulo, Saulo, porque me persegues?”




O jovem fariseu perante aquela voz dá-se por vencido, rende-se totalmente, reconhecendo nela o poder e a realeza de Yahvé. Em toda a sua vida jamais encontrara um adversário à altura… aquela voz só podia ser do Messias, porque só O Messias podia detê-lo e atirá-lo “por terra” daquele jeito! Só mesmo o poder daquele Vivente podia despi-lo de toda a vida que levara e devolvê-la a seguir para um novo propósito, um novo caminho, um novo homem…


Saulo "o fariseu" morria assim para renascer; para ser suscitado do novo pelo mesmo Nazareno que perseguira

5 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado por este de investigação séria e profunda.
Sinto que nosestás a proporcionar os fundamentos para olharmos a fé como realidade viva e histórica.
Calmeiro Matias

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...
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figlo disse...

A maioria de nós nasceu católica, habituou-se a ser católica entre católicos. "Certos" no meio de "gente certa". A catequese infantil encheu-nos a cabeça de regras, preceitos, orações, lugares que nos esperam, como recompensa das nossas boas obras de cumpridores...Quando a Boa Notícia chega até nós e nos toca, abrem-se os nossos ouvidos e caem as escamas dos nossos olhos...e deixamos de ser "fariseus"...
A areia foge debaixo dos nossos pés, sentimo-nos afundar. Foram na enxurrada as estacas a que nos segurávamos e nos asseguravam a vida eterna como futuro...
Morremos para ressuscitarmos novos do "desastre"...o coração e a vida descobrem o gosto da LIBERDADE!

Mila disse...

A música é linda!