quarta-feira, 15 de outubro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS [1]



- A Expansão -




O caos rebentara em Jerusalém…


Após a morte de Estevão é desencadeada uma perseguição declarada e violenta aos nazarenos (Act 8,1). O Sinédrio estava agora, mais do que nunca, empenhado em provocar uma vaga que os exterminasse de vez. O tempo da “guerra fria” terminara. Os chefes de Jerusalém apercebiam-se pelo discurso de Estevão que havia um ataque directo e explícito à Lei e ao Templo. E pior ainda; ele vinha de judeus provenientes do mundo grego. Os helenistas convertidos eram os mais independentes e incisivos. Por isso a ameaça não se manifestava apenas dentro dos muros da cidade, mas podia alastrar-se rapidamente a todo o judaísmo do Oriente. Era uma questão de dever nacional…


Assim muitos judeus gregos, conterrâneos e amigos de Estevão, fogem da capital para a Judeia e Samaria provocando a disseminação da comunidade dos nazarenos de Jerusalém. Apesar do medo das autoridades, estes fugitivos continuavam a sentir o ardor e o zelo pela Boa Notícia de Jesus. Era impossível silenciá-los! O imenso reconhecimento que possuíam levava-os a sentirem-se como pertença a um mistério de vida maior, e as maravilhas que testemunharam marcara-lhes para sempre…

Havia neles um impulso de gratuidade, uma energia criadora e um sentido de unidade incomparáveis. Por isso mesmo, ainda que dispersos e distantes entre si, comungavam dum só Espírito: a Ruah que os animava enchia-lhes de uma força, uma dynamis para proclamar a ressurreição do Nazareno. Entre aqueles que se dirigiam para a Samaria, contava-se Filipe.


Os samaritanos eram considerados como raça impura, gente que não conhecia a Lei, e por isso desprezados pelos judeus, porém Filipe, um dos sete diakonoi nomeados de Jerusalém, não tinha qualquer pudor em anunciar o Euangelion a estes estrangeiros; a gratuidade que o movia superava os seus preconceitos. Não havia barreiras à acção poderosa e libertadora do Espírito Santo. Filipe espalha o fogo do Euangelion no seio daquela gente abandonada por Israel, e ali funda uma comunidade fecunda a tal ponto que “a cidade transbordava de alegria”. Era primeira vez que a Boa Notícia de Jesus transpunha o judaísmo. E assim o tempo passava e novas comunidades iam florescendo na palestina e mais além.


A acção das autoridades de Jerusalém na prática resultara desastrosa. O seu desígnio de conter os nazarenos pela violência só provocara a sua expansão. Aqui verificava-se a fecundidade do martyrion [que significa “testemunho”] de Estevão! A morte daquele discípulo não era desejada por Deus, tal como a de Jesus. Por isso ela não podia cair num absurdo! Aquela testemunha do ressuscitado não podia morrer em vão, o Deus de Israel não o permitiria; o Abba intervinha poderosamente a partir daquela aparente derrota. Sim, o martírio profético de Estevão era revestido da força do Alto, e provocava uma viragem histórica na emergência do movimento nazareno! A Boa-Nova agora “rebentava à força de bomba”, como eco da ressurreição de Jesus. Rasgava-se uma brecha, iniciava-se um novo capítulo na história da salvação.


O gérmen da Igreja despontava sob o sangue derramado de Estevão, aquele profeta da ressurreição tornava-se profecia… mais tarde, Tertuliano, um Cristão de Cartago do séc III confirma a regra:

“o sangue de mártires é semente de cristãos”

2 comentários:

Anónimo disse...

Só se conhece bem aquilo que se ama.
Obrigado pelo teu amor ao Evangelho e à sua incarnação na História o que nos ajuda a compreender como o Espírito Santo é activo.
o amigo
Calmeiro Matias

Andreia disse...

Depois de ler este texto, que é um pedacinho de história que eu nao conhecia, fiquei ainda com mais certeza de que o nosso Pai é fiel. A morte de Estevão não foi em vão, e penso que muito disto se deve a uma coisa que gosto de distinguir dentro de mim: Jesus destacou-se por ter dado a Vida por nós e não por ter morrido por nós. E sinto que Estevão também Viveu anunciando aquilo em que acreditava.
Sabes Gustavo, acho que há mais uma coisa que ficou ainda mais clara em mim...Em Jesus foi inaugurado um corpo do qual ele é a cabeça, e este Estevão é um membro daqueles logo do inicio que nos mostram que vale a pena viver naquilo que acreditamos, e que nada é indiferente ao nosso Papá.

Obrigada pela Boa Noticia que me deste hoje=)