
Martin diria mais tarde:

Passados meses de provação heroica, a cidade
começava a rebentar pelas costuras por causa do boicote: cada vez mais donas de
casa apresentavam queixas à Câmara porque as suas criadas negras não apareciam
para fazer limpezas ou cozinhar, vendo-se obrigadas a dar-lhes boleia; as lojas
da baixa da cidade acumulavam perdas, e a empresa de autocarros já não
suportava uma perda de mais de 2500 dólares por dia; os membros do Ku Klux Klan
já não assustavam negros e quando apareciam para aterrorizar caiam no ridículo
de serem completamente desprezados por um grupo organizado de gente de cabeça
erguida e pacífica. 
Este Semeador provoca-nos a esperar com a coragem para desperdiçar e apostar no que é estéril, e no que “está perdido”.
Também aqui está patente outra provocação: terminou o tempo das divisões, e julgamentos. Deus mesmo acabou com a lógica do calculismo humano de separar os bons dos maus, os “puros” dos “impuros”, os úteis dos inúteis. Esgotou-se a Paciência para suportar tais juízos. Nada é inútil! Ninguém é inútil!
Inaugurou-se uma Nova Paciência: a Paciência de Esperar «contra toda a esperança». E Semelhante Esperança só se concretiza quando é movida pelo puro dom.
Jesus ensina aos seus ouvintes que dar-se até ao desperdício e sem olhar a quem não é coisa de gente insensata, mas de gente que Ama. E o poder do Amor ao dar de caras com a rejeição e o fracasso, continua simplesmente a avançar em frente. Para Este Semeador a semente desperdiçada não é a devorada, a queimada, ou a sufocada, mas somente aquela que permanece numa mão fechada.
Deus não Reina apenas no melhor de nós mesmos. O seu Amor também pode florescer a partir dos nossos próprios fracassos, ambiguidades, e debilidades porque aprendeu a arte de Esperar. Por enquanto nada é inevitável, nada está perdido, nada é desperdiçado. O Amor é assim! Decide-se sempre no princípio, e provavelmente esse é o segredo para que por fim, triunfe…
Parece mesmo que existe boa terra em toda a parte! Pode ser que a semente a penetre…pode ser que não...mas a persistência amorosa denuncia que aí mesmo no meio dos espinhos, pedras, pássaros e sol ardente há sempre boa terra, onde ninguém a vê…há que esperar, e continuar a semear! E isso tem que bastar…ainda que não haja resultados…tem que bastar.
A vitória Pascal brota sempre do mesmo lugar: do fracasso onde permaneceram a esperança e o dom até ao absurdo. O resto, só Deus mesmo pode fazer. Ai, e Esse não falha…
E aquela gente começava a compreendê-lo no seu coração. Ao escutarem que «a semente caiu em terra boa e, crescendo e vicejando, deu fruto e produziu a trinta, a sessenta, e a cem por um», perceberam-no e recordavam um antigo Salmo que falava dos tempos da Salvação:
«Aqueles que semeiam com lágrimas vão recolher com alegria. À ida vão chorar, carregando e lançando sementes; no regresso cantam de alegria, transportando os feixes de espigas»
(Salmo 126,5-6).

Quão estranho e fascinante é este Semeador…
Mas afinal não é preciso arar a terra? Revolvê-la? Há que prepará-la primeiro, arrancar as ervas daninhas, limpar os espinhos, remover as pedras, procurar a “boa terra” onde valha a pena semear. Afinal não se pode desperdiçar semente…ao menos que delimitasse o terreno onde iria começar a semeadura…
Mas não! Este Semeador faz tudo ao contrário: Começa precipitadamente a semear, sem arar, sem escolher, sem calcular, sem nenhuma preparação.
«Mas que raios é isto??», «Quem é este semeador insensato?» -

comentavam as gentes que escutavam o Nazareno. E lá está ele, “todo feliz da vida”, desperdiçando semente em toda a parte!! Não põe à prova os terrenos, não faz qualquer espécie de selecção. Antes e acima de tudo Já começou a semear…
E lá vão elas! Umas caiem à beira da estrada, outras por entre rochas, outras ainda entre espinhos. E o semeador continua alegremente, abrindo caminho debaixo de um sol escaldante, e sob a ameaça dos pássaros que vão debicando aqui e acolá as tão preciosas sementes.
Nos dias seguintes vê-se o resultado de tanto “desleixo”. Era de esperar! «Pois claro está, já se estava a ver» - comentavam. «Umas comidas, outras queimadas, outras completamente secas. Que desgraça!». Do ponto de vista das evidências isto era tudo o que se podia esperar. É impressionante como Jesus dá de caras com o realismo! Não esconde nada, põe tudo às claras. Ele não está a revelar nenhuma utopia, diz simplesmente as coisas como são.
Mas precisamente por causa disso, Jesus contrapõe a essa realidade “evidente”, a realidade emergente do Reino: é que este Semeador permanece teimoso e obstinado, a não querer dar ouvidos à nossa sensatez. Continua a semear, e a semear ainda mais, pedras e espinhos adentro, parece que nada o detém. Nada o desanima… não tem medo de aleijar os pés e palmilhar os terrenos difíceis. Parece mesmo que só vai parar quando ficar de mãos vazias…
Ora isto não é um optimismo, nem ingenuidade, é outra coisa bem diferente. E os camponeses começavam a entender…
Em primeiro lugar, este profeta de Nazaré tem uma linguagem diferente do Baptista. João falava sempre em Juízo. Vinha aí a Ira de Deus para ceifar e arrancar as ervas daninhas. Mas Jesus fala na HORA da primavera do Reino que desponta. Vem aí uma nova vitalidade, fertilidade, brilho, encanto, e frescura. Precisamente quando a história estava menos preparada, Deus irrompeu no meio dela como um “mãos largas”, um “esbanjador” de dons e bençãos, que até “desperdiça” mimos, graças e do melhor que tem sobre os imerecidos! «Sim! Ele vem para semear e não para ceifar!», Vem inaugurar o tempo duma Alegria que resvala a teimosia atrevida…
Por isso, este Nazareno está-nos a falar de Esperança. Não é o tempo do Juízo que vem aí, mas o tempo da Paciência e da Espera! Mas apercebem-se também que a Esperança trabalha-se, sempre, sem cessar…não se compadece de cálculos, nem resultados, porque é fiel ao que começou…
Como sempre, fazemos tudo ao contrário: esperamos para agir, mas Deus actua para Esperar! Quando esperamos por “condições” para agir, não temos alternativa senão re-agir “ao que acontece”. Mas Deus é verdadeiramente Criador: age primeiro, criando assim as condições por aquilo que vale a pena Esperar…
CONTINUA