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domingo, 29 de agosto de 2010

COMO JESUS VIVIA DEUS






«Tu estás interessado por Deus. É natural que te interrogues se crês nele ou se a tua fé vai-se apagando a pouco e pouco. Mas o importante e decisivo é perguntarmo-nos em que Deus cremos e como o vivemos; que lugar ocupa na nossa vida e como a transforma no nosso dia-a-dia.


Já sabes o que se passa frequentemente connosco, os crentes. Dizemos que “cremos” em Deus, mas na prática vivemos de um modo ateu: como se Deus não existisse. Na hora da verdade, Deus apenas tem importância na nossa maneira de orientar e organizar a vida.


Certamente tu mesmo conheces alguns cristãos cuja vida pouco ou nada mudaria se algum dia deixassem de “crer” em Deus. Talvez deixassem de ir à missa, mas o seu comportamento, o seu modo de pensar e de actuar não mudaria muito. Deus apenas significa algo na sua vida.


Já te perguntaste alguma vez como Jesus vivia Deus? Pode-te fazer bem conhecer melhor a sua experiência. Para ele, Deus é um estímulo que o impele a construir um mundo mais humano. Deus não é uma força conservadora, mas um apelo a mudar e melhorar as coisas. Se um dia te deixares apanhar por Deus, sentir-te-ás chamado a trabalhar por uma sociedade mais justa e mais digna para todos. Serás incapaz de ficar passivo. Deus tem um grande projecto. Há que construir uma nova terra, tal como ele a deseja.


Segundo Jesus, Deus quer a vida, está sempre do lado das pessoas e contra o mal e o sofrimento. Vive Deus como uma força que o impele a libertar as pessoas do mal e leva-o a lutar contra tudo o que magoa alguém. Por isso, Jesus dedica-se tanto a lutar contra as injustiças, abusos, mentiras, poderes e sistemas que desumanizam a vida e geram sofrimento. Quanto mais creres no Deus encarnado em Jesus, com mais força e coragem trabalharás contra tudo o que estropia a vida e a torna mais indigna e infeliz para muitos.


Jesus vive Deus como uma força curadora. A Deus interessa-lhe a saúde dos seus filhos e filhas. Por isso Jesus se dedica a curar, a aliviar o sofrimento e a sanar a vida do seu povo. Deus deseja uma vida mais sã, mais feliz e mais amável para todos. Se tu crês no Deus de Jesus, hás-de aproximar-te das pessoas que sofrem. Farás o possível por trazer a paz e a alegria àqueles que vivem tristes. Semearás força e esperança nos que se encontrem deprimidos. Saberás consolar e acompanhar.


Deus é, antes de mais, para os pobres, os indefesos, os que não têm ninguém. Era assim que Jesus viva Deus. Por isso defende os pobres dos poderosos que os exploram, acolhe as crianças apertando-os contra o seu peito, abençoa os que sofrem. Jesus dedica-se a todos, mas começando sempre pelos últimos. Se te sentires um dia mais cheio de Deus, irás preocupar-te mais pelos últimos, os mais débeis, os mais desvalidos, os mais solitários. Talvez não possas fazer grandes coisas, mas o teu coração estará com eles.



Deus conduz Jesus a acolher os excluídos. É impossível que seja de outra maneira. Deus é de todos e para todos. Não descrimina, não exclui, não excomunga ninguém. Pelo contrário, Deus abraça, acolhe, perdoa. Por isso Jesus aproxima-se dos impuros, acolhe as mulheres, toca os leprosos, come com os pecadores e indesejáveis. Se te deixares agarrar pelo Deus de Jesus, verás a vida de outra maneira. Aproximar-te-ás de forma mais acolhedora dos imigrantes e excluídos. Serás mais compreensivo com os delinquentes e toxicodependentes. Pensarás naqueles que estão condenados a viver praticamente o resto da sua vida na prisão.


Se a tua fé em Deus crescer, a tua vida irá mudando. Quase sem dares-te conta, tornar-te-ás mais humano, mais generoso e mais justo. Entrarás em ruptura com o teu egoísmo. Pensarás nos outros. Vais-te interessar pelos que sofrem. Tratarás de os ajudar. Apoiarás campanhas contra a fome e as injustiças. Aprenderás a fazer pequenos gestos pelos demais. Deus irá transformando-te.»


Creer, para quê? - Como Jesús vivía Dios
José Antonio Pagola






José Antonio Pagola, foi vigário episcopal da diocese de San Sebastian durante mais de vinte anos, e professor na Faculdade de Teologia no Norte de Espanha. Actualmente é director do Instituto de Teologia e Pastoral de San Sabastian, partilhando a sua fé e a sua experiência com grupos de crentes e muitos outros que perderam a fé.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

COMO JESUS SENTIA DEUS?


«Tu tens a tua ideia de Deus. Vives e a sentes de uma determinada maneira. Só tu sabes as reacções que despertam dentro de ti. Atrai-te? Assusta-te? Deixa-te frio ou indiferente? Sentes-te bem com ele? Ou fazes o possível para esquecê-lo?


Não sei se alguma vez pensaste como Jesus sentiria Deus. Para os cristãos é algo muito importante, pois a nossa fé brota da própria experiência de Deus que vive Jesus. E Jesus vive seduzido pela bondade de Deus. Para ele, DEUS É BOM.


Isto é o primeiro e mais importante. Jesus capta o mistério de Deus como um mistério de bondade. Não necessita de apoiar-se em nenhum texto das Sagradas Escrituras. Para ele é uma experiência indiscutível. Deus é uma presença boa que bendiz a vida.


O que caracteriza Deus não é o seu poder. Não é como Júpiter, Apolo, ou Saturno. Não é como as divindades pagãs do império romano, que aterrorizavam os seus fiéis. O que caracterizava Deus não é tampouco a sabedoria, como se pensava em alguns sectores da Grécia. Jesus sente Deus de outra maneira. O mistério último de Deus, o que nos escapa, Jesus capta-o como um mistério de bondade. Deus é bom, deseja-nos muito e somente procura o nosso bem. Tu o sentes assim?


Este Deus bom é um Deus próximo. Jesus vive esta proximidade de Deus com uma simplicidade e espontaneidade assombrosas. O Pai cuida até das criaturas mais frágeis, revela-se aos pequeninos, busca os perdidos. Este Deus encontra-se no núcleo da vida.

Para Jesus, tudo isso não é teoria. Deus está próximo e acessível a todos. Qualquer um pode comunicar-se com ele de maneira directa e imediata desde o mais íntimo do seu coração. Deus fala a cada um sem verbalizar palavras humanas. Até os mais pequenos podem descobrir a sua bondade.



Para o encontro com Deus não é preciso socorreres-te de ritos complicados, nem pronunciares orações solenes. Jesus convida todos a viver confiando num Deus bom e próximo: “Quando orais, dizei: Pai!” Tu sentes Deus assim? Como um Paizinho tão próximo?



Este Deus é bom com todos, não só com os bons. Muitos eram os dias em que Jesus vislumbrava o amanhecer enquanto se encontrava em oração, falando com o seu Pai. Não sabemos como viveria esse momento, mas gostava tanto de dizer: “Deus faz brilhar o sol sobre os bons e os maus. Envia a chuva sobre os justos e injustos”. O sol e a chuva são de todos. Não têm dono. Deus oferece-os a todos como um presente. A ideia de Jesus é clara. Deus não é como nós. Não segue a nossa tendência de descriminar os maus. Deus não é propriedade dos bons. Não pertence somente aos praticantes. O seu amor está aberto a todos, também aos maus.



Esta fé de Jesus na bondade universal de Deus para com todos surpreendia e escandalizava muitos. Durante séculos, tinham escutado em Israel algo completamente diferente. No povo judeu fala-se com frequência do amor de Deus, mas esse amor, havia que merecê-lo. Assim diz, por exemplo, um salmo muito famoso: “Como um pai sente ternura para com os seus filhos, assim sente o Senhor ternura”, mas, por quem? O salmo continuava assim: “…sente ternura para com aqueles que o temem”. Mas, Jesus teria dito: “… sente ternura para com todos os seus filhos”.


Seguramente ouviste muitas coisas acerca de Deus e vais continuar a ouvi-las. Algumas te farão bem, outras nem por isso. Mas tu escuta Jesus! Fixa-te no modo como fala de Deus. Repara como acolhe os pecadores e indesejados. Vai gravando isto no teu coração: Deus é bom e quer-me muito; Está próximo de mim e acompanha-me; Deus ama a todos, ama-me a mim, mesmo antes de eu mudar. E assim, cada vez te sentirás mais atraído por ele.


Se fores conhecendo cada vez melhor Jesus e captares bem a sua bondade com todos, o seu acolhimento e o seu perdão para com os pecadores, a sua proximidade com os enfermos, a sua defesa em favor dos pobres, o seu acolhimento aos excluídos, a sua doação de vida até à morte…descobrirás pouco a pouco que o mistério de Deus incarnou em Jesus e nos foi revelado nele de maneira suprema, única e irrepetível.»





Creer, para quê? - Como sentía Jesús a Dios?
José Antonio Pagola

domingo, 22 de agosto de 2010

A DEUS INTERESSA-LHE QUE SEJAS FELIZ











«Estás seguramente convencido de que, se existe, Deus é bom. Mas está tão distante e é tão grande que provavelmente preocupa-se pouco ou nada com a tua vida concreta. Será que lhe interessa mesmo que sejas feliz este fim-de-semana? Poderá Ele estar interessado que te saia bem esse projecto de trabalho que te tem ocupado tantas horas?


Desde criança, da mais tenra idade, foi-se apossando de ti a ideia que em tudo isto da religião há dois mundos de interesses. Por um lado, está aquilo que interessa a Deus, e por outro lado, o que nos interessa de verdade, homens e mulheres que dia-a-dia lutamos por viver o melhor que podemos.


A Deus interessa-lhe a sua “glória”, isto é, que as pessoas creiam nele, que o louvem e que cumpram a sua vontade divina. Isso é o que Deus quer e busca: que a gente o receie, que lhe preste culto e pratique a religião. Assim Deus sente-se “bem” recebendo das suas criaturas honra e glória.

Por outro lado está o que de verdade nos interessa: ter um trabalho, partilhar uma vida feliz com um cônjuge, acertar com os filhos, viver bem, divertirmo-nos, desfrutar de uma sociedade em paz. Essa é a esfera dos nossos interesses, donde nos esforçamos por viver o melhor possível.


É fácil que também tu, como muitos outros, penses assim. A Deus interessa-lhe “o que é seu” e trata de pôr as pessoas ao seu serviço. Impõe os seus dez mandamentos – como podia ter imposto outros, ou até nenhum – e está atento a como os humanos lhe respondem. Se lhe obedecem, premeia-os; caso contrário castiga-os. Como é Deus e Senhor supremo do mundo, também concede favores. Às vezes, gratuitamente, aos que ele bem entende; outras vezes, a troco de qualquer coisa, mas sempre procurando a sua própria glória.

Os homens e as mulheres, por seu turno, buscam os seus próprios interesses e tratam de pôr Deus do seu lado. Não é para isso que serve a religião? As pessoas que são religiosas pedem ajuda a Deus para que tenham sucesso, dão-lhe graças pelos favores que recebem dele; fazem o que podem para o manter satisfeito; inclusive oferecem-lhe sacrifícios e cumprem promessas para fazer com que ele mesmo se interesse pelos seus assuntos.
Assim pensam muitos crentes de boa fé. Mas, sem dúvida alguma, esta maneira de entender e de viver a fé é falsa. Deus é amor e somente amor. A Deus, o único que lhe interessa somos nós.


Esta talvez é a novidade mais importante que introduz Jesus na sociedade do seu tempo. Toma bem nota: segundo Jesus, para Deus o mais importante não é a religião, senão a vida das pessoas. Isto é o que o levou a confrontar-se com os líderes religiosos do seu tempo.


Para os sacerdotes de Jerusalém e os doutores da lei, o mais importante é dar glória a Deus, cumprindo a lei, respeitando o sábado e assegurando o culto do templo. Para Jesus, pelo contrário, o mais importante são as pessoas. Por isso se dedica a curar os enfermos, aliviar o sofrimento, acolher os leprosos e marginalizados, defender as mulheres, devolver a dignidade às prostitutas, bendizer e abraçar as crianças.


Se fores descobrindo, a pouco e pouco, como é Deus, a tua vida mudará. Sentirás que Ele não te ama buscando o seu próprio interesse. Somente pensa na tua felicidade. Até quando te chama a viver uma vida moral digna. Não te enganes. Não julgues que Deus quer estragar a tua vida. Ele quer que vivas o que é bom para ti, não o que te faz mal. Deus é assim.»



Creer para quê? - A Dios le interesa que vivas bien
José António Pagola


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

PEQUENEZ








«Ao longo destes anos encontrei-me com pessoas que se foram afastando de Deus porque já não suportavam ouvir constantemente que é “Omnipotente” e “Todo-Poderoso”. Sentiam-se mal diante desse Deus. Não podiam mais viver em paz com ele. Preferiam esquecê-lo.

Talvez também a ti se passe algo semelhante. Não te atreves a dizê-lo de forma absoluta, mas no fundo sentes Deus como um ser “prepotente”, que nos tem a todos sob o seu controle e ameaça. Não podes fugir dele. Estás nas suas mãos, ainda que não queiras. Como viverás a gosto com ele?


Este pode ser um dos nossos maiores erros. O poder de Deus não é como às vezes imaginamos.
Na realidade Deus não é “omnipotente”. Não pode fazer qualquer coisa. Deus não pode abusar de nós, não pode manipular, humilhar, zombar de ninguém. Deus não pode magoar-te nem fazer-te mal. Deus é amor e só pode o que o amor pode.


Repara, para agredir, para destruir, ou magoar não se necessita de um grande poder.Qualquer um pode fazer mal. Mas, para acolher, para perdoar, para respeitar, para amar, para fazer sempre o que é bom, já é necessário ser GRANDE. Deus é assim!

Por isso, ainda que às vezes nos custe crê-lo, Deus manifesta-se no pequeno, no frágil, no humilde. Deus é grande e não necessita defender-se dos seres humanos. É forte e não necessita de andar a exibir a sua força. É amor e não necessita de controlar, dominar nem esmagar ninguém.


É necessário recordar isto porque sempre que entre os cristãos se entendeu muito mal a omnipotência de Deus, e se exaltou falsamente o seu poder, converteram-no num “poderoso” indigno, para fomentar a intolerância, a repressão moral, o medo de Deus e o “terror religioso”.

Se, nalguma medida, sentes Deus como um “tirano”, e que não tens outra alternativa senão revoltar-te, quero dizer-te que esse Deus não existe. Estás a revoltar-te contra um “fantasma”. Andas a sofrer inutilmente.

Tudo mudará no dia em que sintas Deus como um amigo humilde, próximo e respeitador. Não te posso explicar com palavras, mas Deus é uma “presença” afável, próxima, que te faz viver e amar a vida de maneira diferente. Deus não te está a barrar caminhos ou a travar o teu desejo de seres plenamente feliz. Não está no teu coração a pressionar-te ou a violentar-te. É o teu melhor Amigo. Nele podes encontrar a luz mais clara e a força mais vigorosa para enfrentares a dureza da vida e o mistério da morte.


Deus não te vai gritar. Jamais te forçará. Jamais imporá sobre ti a sua força. Vai-te respeitar sempre, faças o que fizeres. Ele deu-te a vida como presente. É tua. És tu que tens de decidir como queres viver e para quê. Ele só quer que acertes a viver bem.

Às vezes, pode-te parecer que Deus é demasiado “invisível”. Não o sentes. Não o podes tocar. Não escutas a sua voz. Crês que não há ninguém ao pé de ti. Mas o que sucede é que Deus é discreto e respeita até ao fim as tuas decisões. A sua presença é tão humilde, próxima e íntima que pode passar despercebida.
Está tão unido a ti que, se não penetras em ti mesmo, pode-te parecer que estás sozinho.


E como posso encontrar-me com esse Deus? Não sei. Creio que há que buscá-lo de um modo simples, sem complicações, com um coração límpido e numa atitude confiada. Todos nós podemos dizer coisas muito acertadas. Mas só tu sabes o que te faz bem e o que te aproxima verdadeiramente desse Mistério a que chamamos Deus.


Não podemos esquecer a alegria de Jesus ao comprovar que a gente mais humilde e sincera era a que melhor captava a experiência de Deus. Numa ocasião deu graças a Deus com estas palavras: ‘Eu te Bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos, e as revelaste aos pequeninos’»


Creer para quê? - Dios es humilde
José António Pagola

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

CONFIAR




«Não sei se estarás de acordo mas, segundo tudo leva a crer, a desconfiança está a aumentar na sociedade contemporânea. São os inquéritos e as sondagens de opinião que o dizem. A gente desconfia cada vez mais dos colegas de trabalho e dos vizinhos. Desconfia da Administração, já não embarca nas promessas dos políticos. Vai retirando a sua confiança da Igreja. Já não se espera grande coisa de ninguém.


Os especialistas dizem que as causas são diversas.
A competitividade, a falta de comunicação, a insegurança perante o futuro estão a gerar um tipo de pessoa que se coloca na defensiva e toma sempre as suas “precauções”.
Não sei se é assim. O certo é que viver a partir de uma atitude desconfiada não ajuda ninguém a viver de maneira plena. Tu o sabes:
para enfrentar a vida de cada dia de maneira positiva e criativa há que viver com confiança.


Há uns anos li as cartas que Dietrich Bonhoeffer escreveu na prisão onde tinha sido colocado pelos nazis. Numa delas, escrita poucos dias antes da sua execução, o grande teólogo e mártir escrevia assim: “Não há nada pior que semear e favorecer a desconfiança; pelo contrário, devemos favorecer a confiança em toda a parte, sempre que possível. Ela seguirá sendo para nós um dos maiores dons, dentre os mais raros e belos”


Estou convencido de que é assim. É a confiança que te pode suster nas situações mais difíceis e que te dará sempre um grande potencial de energia para enfrentares os teus problemas. Se te deixas cair nas garras do cepticismo e do ressentimento, se vives desconfiado de tudo e de todos, irás-te empobrecendo. Viverás de um modo triste e estéril.


Quero recordar-te outra coisa. É difícil que a Fé em Deus possa brotar de um coração desconfiado. Já o pude comprovar muitas vezes, em conversas que tive com pessoas que andam à procura de Deus. Há muito que exigem provas e argumentos para crer, mas não se dão conta de que interiormente vivem “fechados” a Deus. E, quando uma pessoa não se abre a Deus, ou não se atreve a confiar totalmente nele, Deus não pode entrar na sua vida.

Também já assisti ao contrário. Pessoas simples, que depois de muitos anos de viver afastadas da fé, procuram a Deus não pelo caminho das provas, dos argumentos e dos livros, mas pela via do coração, numa confiança total nele (…).
Na tradição cristã, o apóstolo Tomé é tido como o protótipo do homem desconfiado que não aceita crer em Cristo ressuscitado enquanto não o vir com os seus próprios olhos e não o tocar com as suas próprias mãos. Não se fia de ninguém. Quer provas. Não sei se tens presente a cena que nos descreve o evangelista João. Quando Jesus se lhes apresenta, diz-lhe estas palavras: “Tomé, não sejas incrédulo, mas fiel”.


Quem sabe se tu não estarás cheio de dúvidas. Cada vez te parece mais difícil crer em certas doutrinas. Percebes que há coisas na Igreja que nunca poderás aceitar. Sentes dentro de ti com certa insipidez e mal-estar. Já sabes que nunca poderás compreender a Deus com a tua mente mas, perguntas-te tu, não haverá alguma prova ou algum argumento definitivo?

Eu só sei dizer-te as palavras de Jesus: “Não sejas incrédulo, mas fiel”. Confia, não feches nenhuma porta. Procura a Deus com confiança. Não desanimes.
A Deus procura-se “às apalpadelas”. Por vezes, a fé mais sincera surge da dúvida mais penosa.

O que importa é que te aproximes do mistério de Deus de coração aberto. Não estejas à espera de resolver pela tua própria cabeça as interrogações e as dúvidas que te fazem sofrer. Mesmo no meio da escuridão, das dúvidas e das incertezas pode despontar em ti a fé, se souberes abrir-te a Deus com humildade e confiança.»


Creer, para quê?
Jose Antonio Pagola

CRER E PERGUNTAR





Olá! Já passou imenso tempo desde que não passo por cá…



Mas por razões pessoais, e sobretudo profissionais, não me foi possível ir actualizando este blog. Contudo, isso não significa que desista das coisas boas que comecei por cá! Por isso, hoje, para “sacudir o pó”, começo por revelar um pouco das leituras que venho fazendo.

Trata-se de um livro muito interessante de um teólogo que aprecio: Antonio Pagola. Escreveu estas páginas dedicadas especialmente àqueles que “perderam a fé”, e partilho-o aqui simplesmente porque, com uma linguagem muito simples, Pagola tem um jeito especial de experimentar a fé como se fosse a primeira vez, ainda que muitas das coisas já nos pareçam tão familiares…

Mas a Fé não é coisa de “saber”, senão aquilo que se “saboreia” e dá sabor. É aquele sal da terra, e gosto pela vida, que brota duma relação e de uma história de amizade que um dia Deus mesmo começou connosco…



«Provavelmente tu não rejeitas Deus. (…) O que acontece é que não consegues crer, nem vês para que te pode servir a fé. Então, porque não começarmos por esclarecer algumas coisas?

Poderá alguém ser forçado a crer? Não. Ninguém te pode obrigar a crer a partir de fora. Tens que te sentir absolutamente livre. Tu és o único responsável pela tua vida. És tu que tens que decidir como queres viver e como queres morrer. A única coisa que podemos fazer é dialogar entre nós, partilhar honestamente as nossas experiências e ver se nos podemos ajudar um pouco a acertar na vida.

Temos que fazer algo para crer? Sim, desde já. Não chega falar destas coisas de maneira indiferente ou frívola. Também não é suficiente deixar-te arrastar pela tradição. És tu mesmo que tens de aprender a sentir-te a gosto com Deus. Para começar, estar mais atento ao que vai dentro do teu coração, e atrever-te a escutar as interpelações que brotam do teu interior.


Haverá algum método para crer? Não. Cada pessoa tem que percorrer o seu próprio caminho. Não existem receitas nem fórmulas mágicas. O importante é que sejas sincero, que trates de escutar a vida até ao mais fundo e busques a Deus com confiança. Isso sim, tens que te empenhar seriamente e dedicar algum tempo.


Mas…então a fé não é uma questão de temperamento? Sim, sem dúvida que há pessoas mais sensíveis ao mistério de Deus e outras menos dispostas, mas a fé não é um assunto de pessoas “crédulas” ou “sensíveis”. Não tens que violentar a tua maneira de ser. Tu podes e deves buscar a Deus a partir do teu próprio temperamento. Deus quer encontrar-se contigo tal como tu és.

Pode-se ter fé tendo dúvidas? Claro que sim. Para seres crente não é imprescindível que saibas responder a todas as interrogações e a todas as dúvidas que te vêem à cabeça. O decisivo é que te relaciones com Deus honestamente. Não é mais crente aquele que aborda os “dogmas” ou a doutrina cristã com mais segurança, senão aquele que se esforça com sinceridade por viver em verdade diante de Deus. O que importa é que te não te enganes a ti próprio nem trates de enganar a Deus.

Será preciso sentir alguma coisa para voltar a crer? Não, necessariamente. Alguns costumam sentir paz e alegria interior; têm a sensação de estarem a descobrir o caminho certo. Mas o importante não é procurar “experiências especiais”, senão dar passos concretos de modo que se veja o teu desejo sincero de descobrir o sentido último da tua existência (...)


Será simples ou complicado crer? Olha, crer é tão simples e tão complicado como o viver e o amar. Umas vezes, poderá parecer-te o único meio de viver de uma maneira digna e feliz. Outras vezes, poderá parecer-te difícil e duro. Mas, se te encontrares verdadeiramente com Deus nunca mais o esquecerás; se te encontrares com Jesus de Nazaré no mais íntimo do teu ser, a tua vida mudará e serás outro»


CONTINUA


Creer, para quê? - Preguntas
José Antonio Pagola

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Dizer Deus dizendo o homem [3]



« Em quase todas as concepções religiosas de Deus, a divindade é um Deus que inspira temor, espanto. A maior parte dos deuses, incluindo a ideia de divindade, são violentos, a não ser que sejam simples figuras estéticas ou simbólicas, como na Grécia. O homem tem medo dos deuses e a religião possui todo um sistema de sacrifícios, fórmulas de conjuração e rezas de expiação; uma montagem que sirva para conseguir, senão o favor dos deuses, ao menos que o temor e a vingança se afastem deles. A relação entre Deus e o homem é, portanto, aqui uma relação de violência e temor.


(…) O medo gera medo, a violência gera violência.
Um Deus de violência e de temor, que provoca o medo, coloca o homem no medo e na violência, não somente em relação a ele, a Deus, mas em relação a si próprio, o homem, e em relação ao próximo.


Dando a volta à frase de Lucrécio:
o medo criou os deuses” poderíamos reformulá-la deste modo: “Os deuses criaram homens temerosos”.


Os deuses, e uma determinada imagem de Deus, instalaram o medo e a violência no homem convertendo-o num ser aterrorizado. Toda a religião contém nas suas entranhas – e o cristianismo ainda não se livrou de todo este trauma - o risco da violência e da sua escalada.


(…) É “normal” que os deuses sejam violentos, omnipotentes, arbitrários, provocadores do medo e do espanto, recorrendo a formas ingénuas (terramotos, tormentas, etc.), ou ainda sob formas subtis de culpabilização da consciência e de terror.


Sem dúvida, uma vez mais, temos de nos perguntar senão é o Deus da loucura, o revolucionar tudo o que parece normal, e que vem mudar as coisas e assegurar (coisa incrível) que a relação entre Deus e o homem não é de temor e de violência, e que o homem não foi criado para o medo, (…)


“Vós não haveis recebido um Espírito que faça de vós escravos, novamente no temor, senão que haveis recebido um Espírito que faz de vós filhos adoptivos” (Rom 8, 15). (…) “Não temas, porque estou contigo” (Gen 26,24).


O texto fundador é este: “ Já não vos chamo servos mas amigos”. [A partir daqui] A relação entre Deus e o homem ficou completamente subvertida, mas
quem sabe não nos tenhamos adaptado verdadeiramente a esta novidade inquietante e não saibamos ainda medir todas as consequências.


(…) Jesus veio anular o antigo vínculo religioso entre o sagrado e a violência. Um Deus de Encarnação não é já um Deus de incandescência. Como diz extraordinariamente Rilke: “Os que com frequência nos ameaçam são deuses desocupados”. Pelo contrário, o Deus ocupado do homem,
o Deus que se encarna, vem acabar com toda a violência do deus entrincheirado em si mesmo, que fundamenta o seu poder numa sacralidade e num anonimato de ameaça.


A ideia de encarnação é, (…), a ideia da dissolução do sagrado como violência. Porque, adiante, o sagrado se entende como o sagrado da kenosis [entrega total de si], do despojo, da doação. Isto é, do Deus amigo dos homens (liturgia oriental); que vem a nós à margem da barbárie e da violência de uma glória divina custodiada por ele zelosamente (Flp 2, 6); que estabeleceu o seu posto, a sua tenda e sua casa no meio de nós (Jo 1,14); anunciando-nos que, do mesmo modo que o seu Cristo, nós podemos tratá-lo como um Pai.


Seria desejável que, depois, do “livra-nos do mal”, se acrescentasse no final do Pai Nosso um “livra-nos do medo”. O mesmo que ocorre com a fatalidade, o cristianismo adverte-nos que não devemos viver nem nos deixarmos conduzir pelo temor.


Dessa relação com Deus, completamente nova e de todo surpreendente, nasce um homem novo e liberto, de que ainda não foi assumida, nem nos atrevemos ainda a assumir em toda a medida. Porque esta é efectivamente…incompreensível! E é – devemos repeti-lo – na revolução cristã donde nos fazemos compreensíveis a nós mesmos (definitivamente, não violentos) graças à incompreensibilidade de um Deus que é amor. Porque esse reino da não-violência, do não-medo, é o reino do amor. “No amor não há lugar para o temor” (1 Jo 4, 18).


Quando S. João define Deus como amor (veja-se 1 Jo 4,8.16), do que se trata é – e nós não nos damos conta disso – de uma verdadeira transgressão a todas as ideias comuns sobre Deus. Deus, com efeito, deixa de ser um Deus ameaçador.


Então, o homem já não é um ser ameaçado. “Livre do temor” ( Lc 1,74), livre “de nossos inimigos” (ibid.), é dizer, desses demónios obscuros que tem dentro e o aterrorizam, o homem pode finalmente “servir a Deus” (ibid.), sem sentir-se já ameaçado e sem converter-se já numa ameaça para si mesmo.


“Deus não sabe desapreciar nem desdenhar. Pelo contrário, Ele desdenha a ameaça” (Sto Agostinho, Sermão 23,6).


(…) A amizade divina de que falavam os Padres da Igreja: a que existe no seio de Deus (a Trindade) e que deve existir em nossos corações e entre nós (Reino de Deus), nesta terra onde desaparecem os cavalos do Apocalipse. Para que o homem seja livre e já não se sinta ameaçado, deve saber que seu Deus não é um Deus ameaçador, senão um Deus pacífico.

Não é este o Deus que vem armar a sua tenda entre os homens, um Deus que não tem medo em afirmar, que estando entre nós, está nele mesmo? (Jo 1,11)?»



Adolphe Gesché, "Jesucristu", p.51-55

Estava a escrever isto e a recordar-me de quantas vezes Jesus diz aos discípulos, e a todos com quem se encontrava: “não temas”, “não tenhas medo”. Talvez seja mesmo a sua expressão mais frequente. Estou cada vez mais convencido, – e quantas vezes o sinto na pele – que o medo é o pior inimigo do evangelho! O nosso inimigo comum (de Deus e do Homem), o único e definitivo demónio a derrotar… acredito mesmo que o contrário da Fé não é a “descrença” ou o “ateísmo”, mas o medo.

Recordo-me também de algo muito bonito que o Professor António Couto nos transmitiu certa vez. Ele dizia que a palavra “sagrado” ou “Santidade” advêm da mesma raiz que significa “distância, separação”. Dizia que é das palavras mais adulteradas que existe; enquanto nos precipitamos a traduzi-la como “separação” entre Deus e os homens, na experiência de Israel, e sobretudo para os autores da corrente profética, significava precisamente o contrário. Recordo dele dizer mais ou menos assim:

«Afirmar a santidade de Deus é dizer que Ele está absolutamente separado de si próprio, descentrado de si mesmo, para Ser totalmente para o Homem, para dele se dedicar com toda a ternura e cuidado, para nele habitar e fazer morada. Por isso, somente o Deus verdadeiramente Santo é verdadeiramente um Deus Connosco!».

Dada a riqueza do texto, tinha de acrescentar este apêndice delicioso…

SHALOM

sábado, 27 de junho de 2009

Dizer Deus dizendo o homem [2]






« A antiguidade viveu sob o sinal da fatalidade (Factum, moira [destino], …). Ao fim, tomadas as coisas ao pé da letra, não há nada a fazer. O próprio Zeus [o maior e mais poderoso dos deuses gregos] viu-se submetido a uma espécie de Lei que se impõe e contra a qual ele nada podia.



Certamente, a Grécia possuía a noção de liberdade e inclusive, foi a que iniciou o longo e difícil caminho da liberdade (…). Mas depressa esta liberdade é derrubada e vencida. Sem dúvida isto ocorreu assim com os gregos pois, para eles, quase tudo se joga entre o azar e a necessidade. Deste modo a liberdade se vê aprisionada por duas forças maiores. Não há salvação.


Parece claro que foi precisamente pela ideia da salvação e, de modo particular e paradoxalmente, pela ideia de pecado, que o cristianismo criou esta brecha de liberdade e da libertação da fatalidade da história.


E o que significa o pecado? Que o mal, ao menos por uma parte - uma vez que somos também vítimas de adversidades que não implicam a nossa responsabilidade - depende do homem. E isso significa que ele é responsável. Além disso, posto que se trata definitivamente de um acidente histórico e não de um produto da natureza, o homem, em princípio, pode não cometê-lo ou não voltar a cometê-lo, em nenhum caso se trata duma fatalidade.


Portanto, o mal não é algo monumental, fora de série, impossível de deter. O homem não está submetido como se fosse escravo do destino.
O pecado é um mal responsável, atribuível ao domínio pessoal, que poderia não ter sido cometido.


Isto é dizer que o pecado, em certo sentido, não é mais que um pecado e o homem não se define irremediavelmente pelo mal. O cristianismo leva-nos a dizer ao rapaz que roubou: efectivamente, tu roubaste; mas tu não és um ladrão. (…). Sim, tu drogaste-te; mas não és um drogado. O criminoso não tem que ser reduzido ao crime cometido.


Sabemos que Caim, no Génesis, recebe um sinal na sua fronte; mas esse sinal não lhe é posto para desqualificá-lo para sempre; pelo contrário, Deus o imprime para recordá-lo que ele permanece protegido e amado por Deus (…).


Interpretamos a resignação perante o destino como uma sabedoria tolerável. É precisamente a ideia de salvação que chega em contracorrente desta “sábia resignação” ou deste desastroso submetimento ao destino.
Que significa, com efeito, a ideia de salvação senão precisamente que nada é irremediável; que tudo pode ser sempre repetido, reiniciado, voltar a partir do zero; que nada se perde definitivamente, que tudo pode ser salvo?


(…) Ao falar, ao pensar e ao actuar deste modo, o cristianismo desfatalizou positivamente a história do homem. Inclusivé no que diz respeito não só ao pecado, mas também à adversidade (injustiças de nascimento, etc.). Na antiguidade esse mal que cai sobre o homem é atribuído de modo irremediável ao destino, a forças das quais ninguém se podia libertar.


A ideia de salvação implica que as coisas não são necessariamente como aparentam, nem são destinadas a permanecer tal como estão.


“O que o nascimento fez de vocês pode ser apagado”. Com outras palavras, o mal pode ser abatido e derrotado. Pode ser abatido e derrotado nos sentidos da palavra “poder”: tem-se o direito, e não é um sacrilégio, nem um atentado contra os deuses, mas antes um confronto com o mal; e se tem a capacidade: há uma força em nós capaz de confrontar-se com o mal e destruí-lo. Não há nenhuma culpabilidade em querer abater e derrotar o mal, muito pelo contrário;
encontramo-nos incluídos e associados à vontade e ao poder de Deus.


(…) Seguramente Deus não suprimiu o mal, mas antes desfez a sua tirania: o mal não deve exercer sobre nós nenhum fascínio, nenhuma coacção, nenhum medo, nada que nos possa impedir de atacá-lo porque o consideramos um poder intolerável.
»






Adolphe Gesché, "Jesucristu", p.49-51

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dizer Deus dizendo o homem [1]


Bem-vindos! Já há uns tempos que não aparecia por cá. Os exames também me têm ocupado um pouco. Mas hoje gostava de partilhar alguns fragmentos de um livro que me tem cativado. O autor é Adolphe Gesché, um teólogo belga que escreveu várias sínteses e reflexões sobre temas fundamentais da fé. Assim vale a pena fazer teologia, aqui deixo o primeiro de alguns posts...






« Para falar do homem, a Escritura possui uma problemática muito especial. Consiste em falar não de maneira directa, senão observando-o na sua relação com Deus. Porque a Escritura na sua totalidade, não é um discurso sobre Deus, nem um discurso sobre o homem, mas um discurso sobre a relação entre ambos (criação, aliança, encarnação). Assim é como ela fala do homem. A sua única preocupação é contar esta relação entre Deus e o homem e, desde aí, extrair seu ponto de vista sobre o homem(…).


Tanto Deus como o homem são qualificados não a partir do que são em si mesmos, senão a partir do que são um para o outro. Tu não saberás quem eu sou, diz Deus (“Eu sou aquele que sou”: Ex 3,14); tu saberás somente quem sou para ti (“Eu estou contigo”: Ex 3,12). A partir daí saberás quem eu sou e quem tu és (…).


Encontramo-nos exactamente aqui perante o conteúdo essencial da fé cristã, a encarnação, que representa a realização paradigmática da relação entre Deus e o homem. Em Jesus o crente descobre, lê e decifra precisamente a mais estreita relação que existe, a relação por excelência entre Deus e o homem. Aí decifra também o seu ser (…).


Com efeito, é este Deus louco e incompreensível de Jesus (cf. 1Cor 1,18-31 e 2,1-16), fonte de uma sabedoria completamente nova, que desconcerta os sábios e ilumina os pequenos (cf. Mt 11,25), ele é que nos vai revelar, deste modo, a verdadeira compreensão do homem. Cristo introduz a incompreensibilidade de Deus como chave para a compreensão do homem. Efectivamente Deus é amor, o qual, quer dizer loucura. Um atributo indecifrável, incompreensível, dado que é “irracional” (o amor não é razoável). Mas será esta dimensão do indecifrável do Amor que nos permitirá decifrar o homem.


Foi, sem dúvida, a partir deste Deus louco e incompreensível de Jesus Cristo como o cristianismo foi capaz de descobrir e proclamar a grandeza dos pobres e abandonados. A este propósito o Evangelho descobriu o pobre, e descobriu-o como homem. (…) A Grécia e o humanismo não falaram, nem foram capazes de falar, do pobre, do homem caído, do excluído, do homem que, por ser economicamente inútil, fisicamente destroçado, afectivamente insignificante ou socialmente marginalizado, devia ser deitado fora da sociedade; antes exigiam sabedoria e bom sentido revestidos de humanismo e clarividência a quem queria reger a cidade com ordem e eficácia.


As bem-aventuranças, o Magnificat, o vaso de água dado ao mais pequeno, o respeito absoluto pela criança, o assombro de Jesus perante o mistério de compaixão em que se convertem o paralítico, o leproso, e tantos outros gestos e atitudes demonstram totalmente o oposto desta distinta sabedoria (…).


Ao contrário da Grécia, que entende o homem em termos metafísicos, em termos de essência (donde, com tanta facilidade, os homens podem ser interpretados como de essência diferente), o cristianismo, ao ajuizar o homem em termos de história e de destino, e considerando esse destino como prometido e concedido a todos os homens, pôde modificar a sua maneira de olhar o pobre. Foi necessária a loucura de um Incompreensível, que considera compreensível o pobre. “Cada rosto é um Sinai que proíbe o assassinato”(…).


Em vez de nos descobrirmos a nós mesmos contemplando-nos ao espelho, descobrimo-nos no rosto do outro, da mesma forma que nos deciframos no rosto de Deus.


O cristianismo não pode separar a sorte de Deus e a do homem. Isso é o que a encarnação fixou na história. Chateaubriand, em os Mártires (1809), narra o episódio de um pagão e de um cristão que encontram um pobre. O cristão dá o seu manto ao pobre e então o pagão diz ao cristão: “pensavas certamente que se tratava de um deus?” – De modo algum, responde-lhe o cristão; eu sabia que era um homem”.


Foi seguramente a partir deste Deus louco e incompreensível como o Evangelho libertou o homem de sucumbir perante a fatalidade, essa fatalidade que marcou tantas vezes o rosto dessa divindade impassível e implacável, insensível ao homem. Todos os historiadores do pensamento e da cultura o dizem e reconhecem, os marxistas à cabeça (escola de Frankfurt, Adorno, Horkheimer): o cristianismo desfatalizou a história. Este seria, segundo eles, o seu único êxito absoluto.»


CONTINUA...


Adolphe Gesché, "Jesucristo", p. 45-48