Mostrar mensagens com a etiqueta O Reino de Deus está entre vós.... Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O Reino de Deus está entre vós.... Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Hoje, assim, diante de mim...



O que escrevo aqui hoje é uma tentativa de significar um acontecimento vital que sucedeu comigo há bem pouco tempo. Um acontecimento, uma experiência Grande e Boa demais para guardar. Porque afinal as melhores experiências são pessoas!

E garanto-te que hoje revelo-te alguém não só muito especial para mim, mas sobretudo alguém que creio ser um Dom para nós…





Hoje. Há muito que não experimentava um dia assim…há muito mesmo



Hoje… apanhaste-me desprevenido e não o imaginava assim, não desta maneira nem depois de tudo o que passaste…

Envolvente, imenso, e desconcertante… assim é a Beleza do Mistério que te habita!
O Mistério bom que ainda és para mim.

Comunicaste-me uma Boa Notícia que encerra o âmago da própria Vida. Algo tão excepcionalmente sublime e autêntico…que ainda o mastigo por dentro.
Saboreio com um encanto louco as tuas palavras, mas não me atrevo a revelá-las ainda. Não…não assim cruamente, nem já.

Primeiro estás Tu o teu contexto! Primeiro toda a gente tem de saber quem és para se darem conta da Notícia tremenda que há em ti!! Por isso aqui vai:



Conheço a tua história…

Conheço-a muito bem porque a vivi contigo desde menino, no tempo onde entraste na minha vida como “o tio doente que vem morar connosco”.

Com apenas 6 anitos, recordo-me de chegares lá em casa e ainda te apoiavas num andarilho. A avó conduziu-te ao quarto que passou a ser o teu lar improvisado por 8 anos; teu e dela, porque desde esse dia nunca mais a vi separada de ti. Dormindo numa cama junto à tua, a cuidar-te, lavar-te, vestir-te, alimentar-te…enfim, a amar-te. E que bem ela te amou! Tão bem…

Não demorou muito tempo até eu saber porque estavas assim:

Num dia de viagem um camião chocou contra o teu carro, esmagando ainda mais viaturas pelo caminho. E enquanto os bombeiros acudiam as outras vítimas, ficaste encurralado no lugar do condutor com a coluna vertebral afectada. Felizmente conseguiram-te retirar, mas não era o fim do drama, somente o começo…
Uns dias mais tarde, os médicos diagnosticaram-te tetraplegia irreversível e não mais do que alguns anos de vida…
Assim, pouco a pouco, e num curto espaço de tempo, os teus membros foram-se desligando um por um: primeiro as pernas, depois os braços, as mãos, até que quando eu completei 7 anos…só conseguias mexer a cabeça. Como se isso não bastasse, durante esse tempo, enquanto a paralisia progredia, a tia pediu-te o divórcio e a minha prima teve de ficar na custódia dos avós maternos…

Eu não ouso sequer imaginar o que sentiste naqueles tempos, e ainda hoje…

Mas a verdade é que apesar de tudo; sim, apesar de tudo isso, desde a infância, não me recordo de te ver desesperado ou frustrado. Nunca. Nem por um instante!
Ainda que desabafasses o quanto te custava aquela situação, em nenhum momento senti em ti revolta ou ressentimento;

A paz iluminava teimosamente o teu rosto, e apesar dos teus momentos difíceis lá em casa, a serenidade e a boa disposição eram a tua imagem de marca, sempre!
Contudo a resignação também não te dominava. De modo nenhum! Foste persistindo e resistindo com o andar do tempo. E sei os mil e um esforços que empenhaste para procurar ainda uma solução de última hora, um milagre da medicina ou outro qualquer que pusesse termo à tua invalidez. E quando finalmente te convenceste que a situação era irreversível, ainda assim… não desististe de ti.

Também me lembro muito bem das horas que passavas vergado na cadeira de rodas, com os olhos cerrados, em silêncio, perdido num mundo ainda desconhecido para mim. É certo que o fazias para esquecer as dores que já te atormentavam. Mas mais tarde confidenciavas-me como passavas momentos muito bons assim, junto de Deus, saboreando o lado de dentro da vida, o lado que hoje confirmo visível, diante de mim.

Com efeito, eu já experimentava em ti alguém muito especial:

Com um sorriso, contavas sempre anedotas e histórias engraçadas. Eu pequenito, às vezes, sentava-me ao pé de ti enquanto a avó te dava de comer, e ria-me à fartazana a ouvir as tuas traquinices. Recordo-te com carinho como uma pessoa muito fraterna, excepcionalmente alegre e eloquente. Por isso não me admirava que tantos amigos te visitassem! As longas horas a fio que passavam contigo, cativando-se com a tua presença. Tal como hoje…

Por vezes, a avó pedia que se despedissem, porque já não aguentavas sentado por tanto tempo. Tem graça, era preciso ela tomar sempre a iniciativa porque de ti ninguém ouvia sequer uma lamúria ou uma queixa. E poderia ser de outra maneira? Precisavas de conviver, comunicar, sentir-te querido e desejado. A companhia dos que amavas e estimavas fazia-te sempre esquecer a dor…

E que vontade! Ai que vontade manifestavas… uma vontade imensa de abertura, bem-querer e comunhão! Por isso nunca notei em ti um pingo de egoísmo ou auto-enroscamento. Às vezes via-te mais preocupado e atribulado com os outros do que contigo. Mas certamente também foi o que te manteve Vivo por tanto tempo…

Entretanto os anos foram passando, tu e a avó já tinham casa própria e uma senhora suficientemente generosa para dispor-se a morar convosco e cuidar dos dois. Contudo, algum tempo depois aconteceu o que todos esperavam, mas para o qual não estavas preparado: a avó morreu…
A tua Mãe, enfermeira, e confidente deixava-te após 15 anos de cuidados e ternura intensivos. Como foi duríssimo e doloroso para ti…

De repente, os teus irmãos e cunhados já murmuravam: “preparem-se! Ele não há-de durar muito mais. Isto acabou com ele!”. Mas, apesar do choque e da solidão que sentiste; e contra todas as expectativas e previsões… já se passaram 10 anos e ainda estás connosco!

Porém, os últimos tempos não te deram tréguas.

A doença avançou e já te dificulta a respiração. Não aguentas muito tempo a falar. A vista e a audição enfraqueceram muito. Agora nem és capaz de ler um jornal, e não há óculos que te valham. As dores agora espalharam-se por todo corpo e já não suportas mais de meia-hora sentado. Dormes somente duas a três horas por noite, e a medicação para o sono deixou de fazer efeito. Sei perfeitamente o que tens passado…

Há pouco tempo confidenciavas-me com amargura que já era demais. Sim é verdade que era demais!Há limites…e aceitava que mais dia, menos dia, ias atingir os teus. Quanto a mim, não podia fazer mais nada senão ficar contigo, em silêncio… ao pé de ti. Enfim, eu já agradecia por teres suportado e vivido tanto até agora, mas…

Doía-me ver-te assim. Via-te mais abatido do que nunca e a alegria de outrora deixara-te. Às vezes desejava no meu íntimo que a morte te visitasse mais cedo, porque mais do que a tua enfermidade, não suportava ver-te naquela exasperação.

Já me ia convencendo que aquele que conheci, e que tanta vida me inspirou no passado, tinha finalmente sucumbido perante o peso de tanto tormento. E de algumas semanas para cá não deixava de pensar nisto… até hoje…

E hoje revi-te novamente, na mesma posição que te encontro sempre: deitado e molestado por dores incríveis como tantas vezes me confessas. Como de costume, sentei-me ao lado da cama e saudei-te. Conversamos sobre coisas de família, e quando partilhamos o que ia no coração de cada um, aí notei que estavas diferente. E foi então, enquanto palavra puxava palavra, que…de súbito me sussurraste:



“Tu sabes que já estou assim há 28 anos. Mas olha, apesar de todas as contrariedades, hoje dou-me conta que sou Feliz, sou mesmo Feliz. Sinto-me Feliz!”



A primeira reacção já não sei se foi choque ou apatia, mas ainda tentava perceber se estava a sonhar ou acordado! Porém, enquanto te escutava, fitei o teu rosto: o olhar sereno, a firmeza da tua voz, a solenidade com que o disseste…caramba. Era mesmo verdade!!! Será possível?

E que dizer mais? Haverá palavras? Nelas não cabe certamente o que aconteceu contigo…e comigo.


Parece romântico… Mas é verídico! Aconteceu. Hoje. É verdadeiro. Real. Aconteceu. Hoje. Diante de mim.

...



E uma coisa é certa: não foi uma explosão de optimismo que te invadiu! Não foi um “vype” que te deu assim… é impossível porque sei muito bem como a realidade te visita, e não é com “açúcar”. Não! Também não foi uma ilusão porque a tua circunstância nunca te deu margem para isso!

Então o que é? O que te faz dizer isso? O que te faz dizê-lo, senti-lo e vivê-lo assim no meio da pior fase da tua vida? O quê?

…E quanto tempo há-de durar esta nova fase? Será “fase”? Ou um salto qualitativo que deste?

Vamos continuar a aguardar, vamos esperar...
A história ainda não terminou. Continuas a ser o autor e insistes em seres tu, e somente tu a dar-lhe uma conclusão, não as tuas circunstâncias…

Como aconteceu isso dentro de ti? A verdade é que não sei explicá-lo…

Mas quero...
e preciso...
de Agradecer, e partilhá-lo assim:




Hoje confirmo que o sofrimento ainda não tomou a última palavra para te silenciar.

Hoje saboreio que sempre viveste mais reconciliado do que conformado com a tua situação. Por isso és mesmo alguém que continua a amar a vida de verdade!

Hoje exulto por compreender que acontece em ti um Mistério inesgotável. Algo que só tu o vives e compreendes como ninguém…

Hoje fazes-me tão bem porque me mostras que os impossíveis de Deus afinal estão ao alcance de um olhar, de um toque, de uma intimidade e duma história como a tua…

Há quem diga que em ti há uma força sobre-humana. Eu prefiro dizer que revelas o que em todos nós há de mais humano.

Por isso, Hoje estou seguro, e sou testemunha que és dos rostos mais belos da Homem Novo. E tenho tanto, mas tanto orgulho de ser amado por ti!

Hoje sinto-me tão grato por te conhecer desde há tanto tempo; por ser tão marcado pela tua presença; por ainda me surpreenderes assim. És sem dúvida a pessoa que mais admiro…

Hoje não podia deixar de dizer-te, e partilhar-te, porque és bom demais para seres somente o meu tio.

Hoje partilho-te porque estou seguro que muita gente precisa de saber que há mesmo seres humanos assim! Só por conhecerem a Boa Notícia que existes, que és real, que és alguém…


Sei que não foi a tetraplegia que te fez assim, e não és especial por sofreres de invalidez!
Foste tu, apesar da tetraplegia, que te fizeste assim, especial.

Ahh e se foste assim, e se Hoje és, … Quem serás Amanhã?



Tu estás Vivo! És nosso! És tão nosso!
Não abdicamos de ti, nós todos que procuramos uma vida com sentido,
nós que ansiamos acolhê-la em plenitude! És e serás nosso para sempre.
Sim, porque tenho a certeza que a tua Vida está marcada com o selo do que é eterno e não morre. Tenho a certeza absoluta que no dia do teu último parto a Comunhão Universal será ainda mais dilatada pela plenitude do que construíste. Aí serás Um com todos os Viventes, e neles com Aquele que suscita já em ti, e suscitou desde sempre, o melhor.

Aí tenho a certeza, nesse Céu, e contigo, Deus será ainda mais Deus…


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[3]


- Deus como Abba e a filiação divina



No coração e no âmago do Amor anunciado por Jesus encontramos o núcleo definitivo do Reino: O Deus-Rei é um Abba! Com efeito, os discípulos foram reconhecendo progressivamente em Jesus a novidade de Deus ser um Papá, quer na sua intimidade de oração, quer também na entrega incondicional à Sua Vontade. Viam-no como uma “criança de peito” que se abandonava no colo de um Paizinho, cheio de segurança e ternura. E era assim, movidos por um fascínio irresistível, que aproximavam-se dele formulando este desejo: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11, 1)

O profeta de Nazaré nunca se entende a si mesmo como o “filho unigénito” porque não guardava nada para si, e muito menos a experiência do seu Abba. Por isso, para ele o Abba não é “meu”! É “nosso”, e de todos! E isso faz dele o primogénito, o Irmão maior e primeiro a dar-se aos irmãos; primeiro a conduzi-los ao Coração e à casa do Abba; primeiro que convida os discípulos e as multidões à confiança filial no “Pai Nosso”.
Finalmente estamos diante de um Deus que é radical novidade, porque não é dito a partir de um discurso religioso ou um ideal sagrado, mas que se diz e comunica na vida de um homem que age como Filho e como Irmão! Um Deus do Reino que, em Jesus, rasgou o véu de todas as aparências de divina autoridade ou de uma majestade infinita, ávida pela adoração dos seus súbditos. Deus é Abba: um Pai que é Dom total, que comunica o seu Amor a todos, e a todos concede a mesma filiação divina pela qual Jesus vive.

É então a partir do encanto por este Nazareno, que muitos entram na sua intimidade e começam a experimentar o Abba como ele: um “papá babado” e amoroso que desce ao mais íntimo de cada um para o fazer subir a Si. Ao seu colo que é seio maternal e ventre criador para gerar um coração novo e agradecido. Um coração de filho, alegre e generoso; capaz de mover-se e co-mover-se a procurar todos os irmãos a quem Ele ama e deseja também reunir.


Este dom da filiação divina comunicado em Jesus passa assim a ser condição para uma vida nova e transfigurada. O dom que é condição para agirmos concreta e humanamente como Irmãos, e ao mesmo tempo, dom da eleição daqueles de quem me faço próximo: começando pelos mais débeis e marginalizados, curando as feridas dos magoados, consolando os aflitos, e perdoando os inimigos.


É deste Rei, deste Abba donde irrompe o Reino...






- A maravilha de um Reino invencível


É evidente que um Projecto desta envergadura chamado Reino de Deus era tudo menos teórico. Tinha de abalar as fundações de um mundo ainda dominado pelo mal e a injustiça. Tinha de mexer nas consciências e provocar resistências, especialmente quando Jesus o viveu afirmando que era vontade de Deus.

A cruz revela bem que Jesus não foi nem um romântico, nem um herói de ficção que conhece um “final feliz”. O Reino que anunciou e inaugurou como projecto de fundação de uma nova humanidade foi de tal modo concreto e palpável que chocou com as instâncias mais poderosas de seu tempo: o Templo, a Lei farisaica e o poder imperial. Para estas instituições era urgente deter o Reino daquele Nazareno. Um Reino já inaugurado e em marcha que derrubava o seu mundo ao contrário e ameaçava os seus privilégios de domínio.

Porém, ainda que entregue ao poder destes inimigos do Reino, e mesmo crucificado, Jesus confiava que o Abba seria Fiel. E nessa confiança entrega a vida ao Pai. Na morte entrega-a como coroa do Reino que inaugurou e edificou, como que dizendo: “Toma-a, é tua. Contigo ela não há-de se corromper. Ainda que eu morra, o teu Reino prevalecerá!”

Jesus morre, contudo não era o Fim…chegara a hora do Abba intervir! Se Ele não tinha o poder de tirar Jesus das mãos dos seus malfeitores, tinha certamente o poder do Amor, poder de o assumir plenamente em Si! Isso significa que o Abba aceita a coroa! Recebe-a porque apaixonou-se pela vida nela contida, ao ponto de identificá-la com o Reino que desejou desde a Criação do mundo. O Abba ao ressuscitar Jesus aceitou a coroa da sua vida, coroando-o com a própria Vida Divina, e entregou-lhe toda a soberania para o consagrar como Senhor da história.

Deus já não necessita de identificar o Reino com um sonho, ou uma esperança. Ele Identifica-o agora com um Vivente: Jesus ressuscitado! Para o Abba, Jesus é o Reino. A partir de agora, nem o ladrão pode furtar a Coroa, nem a traça já pode corromper o que é incorruptível! O Reino é invencível, imortal, vital, dinâmico, está presente, a acontecer na nossa humanização, aqui e agora, e continua imparável…


O Reino de Deus é hoje Dom da ressurreição de Jesus a acontecer na nossa história. É uma realidade já inaugurada e aberta a uma consumação futura: a sua promessa cumpriu-se, é permanente, ainda não terminou, está na fase dos acabamentos, e continua a necessitar de colaborares, discípulos, Filhos, e Irmãos. É Universal, e por isso além de qualquer religião ou crença, além de qualquer raça ou condição, além de qualquer tempo, a construir-se na liberdade humana, e a brotar de homens e mulheres de Boa Vontade que se unem ao coração e à causa do Ressucitado!



Ei-lo Aí! Para quem o quiser ver e o quiser agarrar! Á mão de semear e à mão de colher...Aí está o REINO a acontecer!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[2]



O Baptismo de João despertara em Jesus a consciência de ser o profeta do Reino de Deus. Este Reino Messiânico passa a ser a fonte dos seus critérios, das suas expectativas e escolhas, a ponto de identificar-se com toda a sua vida. Por isso, um Reino que não teve nada de abstracto, de dogmático ou esotérico. É inaugurado nele, incarna nele, e nele manifesta-se em plenitude, na lógica e nas acções que o constituíram como Messias e Salvador:


- Chamou discípulos e nomeou doze

A primeira coisa que Jesus se deu conta, ainda antes de iniciar a sua missão, era que o Reino de Deus não se construía sozinho mas em dinâmica fraternal. Ele sonhava constituir uma rede humana com a força suficiente para derrotar as “forças diabólicas” do mundo, incarnadas nos ritmos e dinâmicas que impediam a marcha da humanização. Para Jesus não era tanto a máxima da “união faz a força” que valia, mas confiava que era a própria força salvadora de Deus que agia com eficácia na Comunhão humana.


Um facto inédito no seu tempo era que alguém escolhesse discípulos, uma vez que os mestres e rabis é que eram escolhidos pelos discípulos que decidiam segui-los. Contudo, ele não hesita em convocar colaboradores e seguidores para o acompanhar. Um sinal muito próprio dessa escolha é a eleição dos Doze de entre os discípulos, dado que são eles a formar um novo Israel. Assim a comunidade dos Doze reúne a força simbólica das doze tribos de Israel que são refundadas para constituir um Povo construtor do Reino. Jesus reúne-os para proclamar a Boa Notícia do Reino de Deus.


- Perdão dos pecados e proximidade com os pecadores e marginalizados

Se para Jesus o Reino de Deus é uma Boa Notícia, então tinha de chegar primeiramente àqueles cuja vida não era “boa notícia”; e que estava sobretudo marcada pelo sofrimento e o abandono. Dirige-se a prostitutas, publicanos, pobres e marginais: gente de coração partido, encadeados e tristes, esmagados pelo fardo da culpa que a sociedade lhes impunha. A compaixão de Jesus move-o a procurar amizade junto destes a quem chama de Irmãos, anunciando pela sua proximidade um Deus que proclama o Perdão dos pecados. Perdão que traz a libertação das amarras da culpa, e manifestado nas atitudes de misericórdia e amor que derrotam todas as forças do mal, todos os “demónios” da violência, do egoísmo, indiferença e solidão. Um Perdão que faz acontecer uma acção terapêutica, e que nos evangelhos encontra expressão nas curas e milagres: "os cegos vêm, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é anunciada aos pobres" (Lc 7,22)


Esta Gente de má fama não era convidada a participar nas festas religiosas do seu povo, estavam impedidos de entrar nas sinagogas, e proibidos de prestar culto no Templo. Pura e simplesmente era-lhes negado o acesso a todos os rituais de purificação e de bênção. Jesus contudo escandaliza tudo e todos sentando-se à mesa com eles. E é nessas refeições de convívio com os “não-convidados” do seu tempo que ele manifesta as celebrações antecipadas do Banquete do Reino a acontecer. Jesus compara o Reino de Deus a um grande Banquete onde todos estes últimos seriam os primeiros a sentar-se na mesa, e o próprio Senhor os haveria de servir! Chegara o tempo da boda, porém, para surpresa e indignação de muitos, estava aberto primeiramente para os “ímpios”.


- As Bem-Aventuranças: poder transformador de Deus na história


A predilecção de Jesus para com os aflitos e rejeitados está especialmente patente na sua proclamação das Bem-Aventuranças, aquilo a que podemos designar como a declaração fundamental ou a “Carta Magna” do Reino de Deus. Ela constitui uma novidade absoluta em toda a tradição bíblica, e constituí o princípio do fim das velhas lógicas da realidade.

Para a grande maioria dos judeus do seu tempo há muito que a injustiça dominava o mundo. Constatam que eram sempre os fracos e justos que sofriam nas mãos dos poderosos e ditadores cuja vida era próspera. E ainda que muitos aspirassem a ideais como a paz, a justiça, e a liberdade, reconheciam que não passavam disso mesmo: ideais de uma utopia. Porém, Jesus perante esse mundo vencido por forças opressoras anuncia um acontecimento salvador, convertendo a utopia em realidade:"Felizes os pobres porque deles é o Reino! Felizes os famintos porque serão saciados. Felizes os que choram porque serão consolados. Felizes os que sofrem por amor da justiça..."

Eis uma mensagem nova que supera a antiga tradição sapiencial onde se proclamavam os ditosos como “os bonzinhos”, ou os eticamente respeitados. Os bem-aventurados já não são aqueles que “comem do trabalho das suas mãos”, “os que se guardam dos vícios”, ou os “virtuosos que têm uma vida honrada”aqui estamos claramente diante de um salto tremendo, e uma lógica que vai além de um mero código moral! Com a proclamação das Bem-Aventuranças Jesus declara que chegou um tempo novo. Um tempo de libertação de toda a tirania e angústia, onde a soberania de Deus se sobrepõe a todos os sistemas injustos do mundo: a partir de agora o tempo dos opressores tem os dias contados, por isso “ai de vós” (Lc 6,25-27)

Assim vemos que a justiça das Bem-Aventuranças de Jesus não é imparcial, mas preferencial: aquela que toma partido em primeiro lugar pelos débeis, os desvalidos, e os pobres, e portanto a mesma que marca o fim de todos os privilégios dos que se elevavam à sua custa. Uma justiça eficaz que não é limitada nem retardada pelas nossas imperfeições humanas, mas antes instaurada e restaurada pelo poder salvador de Deus: "O que é impossível aos homens, é possível a Deus" (Lc 18,27). Sim, são as Bem-Aventuranças que anunciam um poder que transforma a história humana para “virar do avesso” todas as desigualdades e injustiças; por isso Jesus nunca as proclamou como um prémio de consolação para uma “vida no Além”. Pelo contrário, anuncia nelas a Boa Notícia de um poder real e concreto que já chegou, que está aí a libertar e salvar, que está aí a actuar, aqui e agora, nos seus gestos e atitudes.


- O mandamento do Amor

Na base das Bem-Aventuranças e na proximidade de Jesus para com os oprimidos está o mandamento do Amor. Já não são os incensos, os sacrifícios, o culto, as normas da Lei, ou as penitências que valem por si mesmas. Jesus reúne toda a Lei e profecia no Amor a Deus e ao Próximo como caminho de vida, e critério último de construção do Reino. Neste Amor há também um elemento novo: a noção de Próximo. A noção judaica de próximo era o “meu vizinho”, o “meu compatriota judeu”, o “da minha raça”, o “da minha tribo” ou “estirpe”. Porém, Jesus abre agora as portas às exigências desse Amor novo, amor manifestado na universalidade e na super-abundância da Graça: convida ao amor pelos inimigos (Mt5,44) e estrangeiros, à superação da Lei de Talião: "ollho por ollho, dente por dente" (Mt5,39), e à iniciativa no perdão fraterno (Mt 5,24).


Acabaram as fronteiras do sagrado e do profano, terminaram os limites da razoabilidade e do “bom senso”, e esgotaram-se os critérios moralistas para distinguir “os próximos” dos “não próximos”. A partir de agora o próximo é aquele de quem me aproximo por iniciativa e bem-querer, disposto ao risco e ao imprevisível, sem reservas! Tudo isso é a proposta de uma nova Ordem de relações marcadas pela Graça de Deus que inaugura um jeito novo de amar: “amai-vos como eu vos amei”.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[1]

Esta semana decidi mudar um pouco o programa do costume. Interrompo as minhas reflexões habituais para deixar aqui um tema que muito gosto me deu trabalhar e meditar no último fim de semana de encontro JR: o Reino de Deus. Algo que não nasceu apenas do meu trabalho individual, mas fruto do poço comum da minha comunidade redentorista. Apresento-o assim, na expectativa de saborearem o mesmo gozo que me deu prepará-lo...



Nos tempos do reinado de Herodes, tetrarca da Galileia, apareceu um homem que anunciava a proximidade da última hora, a hora da intervenção definitiva de Deus em Israel. Seu nome era João e pregava um baptismo de purificação que prepararia o povo para a chegada iminente de Deus. Segundo ele, o mundo estava prestes a ser julgado e não bastava ser filho de Abraão (judeu) para escapar a esse juízo. Yahvé viria para destruir os pecadores e somente os que recebessem o baptismo de penitência se salvariam, o dia terrível da Ira de Deus estava próximo:

“O machado já está posto à raiz da árvore: a árvore que não produzir bons frutos será cortada e jogada no fogo.” (Lc 3,9); “Já empunha a pá com para limpar a sua eira: o trigo o recolherá no celeiro, e queimará a palha num fogo inextinguível” (Mt 3,12).

Entre muitos ouvintes de João, encontrava-se um jovem Nazareno que o seguia de perto sentindo-se interpelado pela sua mensagem, e ao escutá-lo, desperta para algo novo que o vai acompanhar até ao fim da sua vida. Jesus não só experimentava no seu íntimo a novidade que terminara o tempo da espera de Israel, como também confiava com uma certeza infalível que o Dia de Yahvé não chegaria como dia
de condenação, mas como dia de misericórdia: Deus está a chegar com um Reino de paz, justiça e alegria! O seu Abba virá, e sem demora, para enxugar as lágrimas do seu povo.


É firmado nesta esperança que Jesus adere à fila dos penitentes e aproxima-se do rio Jordão para receber o baptismo de João. Deixa-se baptizar, não para escapar de uma maldição iminente, senão para se sentir membro do resto fiel, daqueles que aguardavam ansiosamente a vinda libertadora de Yahvé. A partir daquele dia tudo mudou para aquele carpinteiro da Galileia. Sentia-se enviado a proclamar que Deus finalmente viria governar, guardando no coração a profecia de Isaías: Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que apregoa a boa-nova, e que proclama a salvação! Que diz a Sião: “O rei é o teu Deus! (Is 52,7). Jesus inspirou-se na missão de Consolação de Isaías e ele próprio assume-se como mensageiro da Boa Notícia: Deus está connosco como Rei e vem como Salvador de Israel! Enquanto João esperava na intervenção divina, Jesus vai passar a agir para fazê-la cumprir. Para aquele Nazareno chegara o tempo de uma nova criação: o Reino de Deus estava já a acontecer…