E garanto-te que hoje revelo-te alguém não só muito especial para mim, mas sobretudo alguém que creio ser um Dom para nós…

Hoje. Há muito que não experimentava um dia assim…há muito mesmo
Hoje… apanhaste-me desprevenido e não o imaginava assim, não desta maneira nem depois de tudo o que passaste…
Envolvente, imenso, e desconcertante… assim é a Beleza do Mistério que te habita! O Mistério bom que ainda és para mim.
Comunicaste-me uma Boa Notícia que encerra o âmago da própria Vida. Algo tão excepcionalmente sublime e autêntico…que ainda o mastigo por dentro.
Saboreio com um encanto louco as tuas palavras, mas não me atrevo a revelá-las ainda. Não…não assim cruamente, nem já.
Primeiro estás Tu o teu contexto! Primeiro toda a gente tem de saber quem és para se darem conta da Notícia tremenda que há em ti!! Por isso aqui vai:
Conheço a tua história…
Conheço-a muito bem porque a vivi contigo desde menino, no tempo onde entraste na minha vida como “o tio doente que vem morar connosco”.
Com apenas 6 anitos, recordo-me de chegares lá em casa e ainda te apoiavas num andarilho. A avó conduziu-te ao quarto que passou a ser o teu lar improvisado por 8 anos; teu e dela, porque desde esse dia nunca mais a vi separada de ti. Dormindo numa cama junto à tua, a cuidar-te, lavar-te, vestir-te, alimentar-te…enfim, a amar-te. E que bem ela te amou! Tão bem…
Não demorou muito tempo até eu saber porque estavas assim:
Num dia de viagem um camião chocou contra o teu carro, esmagando ainda mais viaturas pelo caminho. E enquanto os bombeiros acudiam as outras vítimas, ficaste encurralado no lugar do condutor com a coluna vertebral afectada. Felizmente conseguiram-te retirar, mas não era o fim do drama, somente o começo…
Uns dias mais tarde, os médicos diagnosticaram-te tetraplegia irreversível e não mais do que alguns anos de vida…
Assim, pouco a pouco, e num curto espaço de tempo, os teus membros foram-se desligando um por um: primeiro as pernas, depois os braços, as mãos, até que quando eu completei 7 anos…só conseguias mexer a cabeça. Como se isso não bastasse, durante esse tempo, enquanto a paralisia progredia, a tia pediu-te o divórcio e a minha prima teve de ficar na custódia dos avós maternos…
Eu não ouso sequer imaginar o que sentiste naqueles tempos, e ainda hoje…
Mas a verdade é que apesar de tudo; sim, apesar de tudo isso, desde a infância, não me recordo de te ver desesperado ou frustrado. Nunca. Nem por um instante!
Ainda que desabafasses o quanto te custava aquela situação, em nenhum momento senti em ti revolta ou ressentimento;
A paz iluminava teimosamente o teu rosto, e apesar dos teus momentos difíceis lá em casa, a serenidade e a boa disposição eram a tua imagem de marca, sempre!
Contudo a resignação também não te dominava. De modo nenhum! Foste persistindo e resistindo com o andar do tempo. E sei os mil e um esforços que empenhaste para procurar ainda uma solução de última hora, um milagre da medicina ou outro qualquer que pusesse termo à tua invalidez. E quando finalmente te convenceste que a situação era irreversível, ainda assim… não desististe de ti.
Também me lembro muito bem das horas que passavas vergado na cadeira de rodas, com os olhos cerrados, em silêncio, perdido num mundo ainda desconhecido para mim. É certo que o fazias para esquecer as dores que já te atormentavam. Mas mais tarde confidenciavas-me como passavas momentos muito bons assim, junto de Deus, saboreando o lado de dentro da vida, o lado que hoje confirmo visível, diante de mim.
Com efeito, eu já experimentava em ti alguém muito especial:
Com um sorriso, contavas sempre anedotas e histórias engraçadas. Eu pequenito, às vezes, sentava-me ao pé de ti enquanto a avó te dava de comer, e ria-me à fartazana a ouvir as tuas traquinices. Recordo-te com carinho como uma pessoa muito fraterna, excepcionalmente alegre e eloquente. Por isso não me admirava que tantos amigos te visitassem! As longas horas a fio que passavam contigo, cativando-se com a tua presença. Tal como hoje…
Por vezes, a avó pedia que se despedissem, porque já não aguentavas sentado por tanto tempo. Tem graça, era preciso ela tomar sempre a iniciativa porque de ti ninguém ouvia sequer uma lamúria ou uma queixa. E poderia ser de outra maneira? Precisavas de conviver, comunicar, sentir-te querido e desejado. A companhia dos que amavas e estimavas fazia-te sempre esquecer a dor…
E que vontade! Ai que vontade manifestavas… uma vontade imensa de abertura, bem-querer e comunhão! Por isso nunca notei em ti um pingo de egoísmo ou auto-enroscamento. Às vezes via-te mais preocupado e atribulado com os outros do que contigo. Mas certamente também foi o que te manteve Vivo por tanto tempo…
Entretanto os anos foram passando, tu e a avó já tinham casa própria e uma senhora suficientemente generosa para dispor-se a morar convosco e cuidar dos dois. Contudo, algum tempo depois aconteceu o que todos esperavam, mas para o qual não estavas preparado: a avó morreu…
A tua Mãe, enfermeira, e confidente deixava-te após 15 anos de cuidados e ternura intensivos. Como foi duríssimo e doloroso para ti…
De repente, os teus irmãos e cunhados já murmuravam: “preparem-se! Ele não há-de durar muito mais. Isto acabou com ele!”. Mas, apesar do choque e da solidão que sentiste; e contra todas as expectativas e previsões… já se passaram 10 anos e ainda estás connosco!
Porém, os últimos tempos não te deram tréguas.
A doença avançou e já te dificulta a respiração. Não aguentas muito tempo a falar. A vista e a audição enfraqueceram muito. Agora nem és capaz de ler um jornal, e não há óculos que te valham. As dores agora espalharam-se por todo corpo e já não suportas mais de meia-hora sentado. Dormes somente duas a três horas por noite, e a medicação para o sono deixou de fazer efeito. Sei perfeitamente o que tens passado…
Há pouco tempo confidenciavas-me com amargura que já era demais. Sim é verdade que era demais!Há limites…e aceitava que mais dia, menos dia, ias atingir os teus. Quanto a mim, não podia fazer mais nada senão ficar contigo, em silêncio… ao pé de ti. Enfim, eu já agradecia por teres suportado e vivido tanto até agora, mas…
Doía-me ver-te assim. Via-te mais abatido do que nunca e a alegria de outrora deixara-te. Às vezes desejava no meu íntimo que a morte te visitasse mais cedo, porque mais do que a tua enfermidade, não suportava ver-te naquela exasperação.
Já me ia convencendo que aquele que conheci, e que tanta vida me inspirou no passado, tinha finalmente sucumbido perante o peso de tanto tormento. E de algumas semanas para cá não deixava de pensar nisto… até hoje…
E hoje revi-te novamente, na mesma posição que te encontro sempre: deitado e molestado por dores incríveis como tantas vezes me confessas. Como de costume, sentei-me ao lado da cama e saudei-te. Conversamos sobre coisas de família, e quando partilhamos o que ia no coração de cada um, aí notei que estavas diferente. E foi então, enquanto palavra puxava palavra, que…de súbito me sussurraste:
“Tu sabes que já estou assim há 28 anos. Mas olha, apesar de todas as contrariedades, hoje dou-me conta que sou Feliz, sou mesmo Feliz. Sinto-me Feliz!”
A primeira reacção já não sei se foi choque ou apatia, mas ainda tentava perceber se estava a sonhar ou acordado! Porém, enquanto te escutava, fitei o teu rosto: o olhar sereno, a firmeza da tua voz, a solenidade com que o disseste…caramba. Era mesmo verdade!!! Será possível?
E que dizer mais? Haverá palavras? Nelas não cabe certamente o que aconteceu contigo…e comigo.
Parece romântico… Mas é verídico! Aconteceu. Hoje. É verdadeiro. Real. Aconteceu. Hoje. Diante de mim.
...
E uma coisa é certa: não foi uma explosão de optimismo que te invadiu! Não foi um “vype” que te deu assim… é impossível porque sei muito bem como a realidade te visita, e não é com “açúcar”. Não! Também não foi uma ilusão porque a tua circunstância nunca te deu margem para isso!
Então o que é? O que te faz dizer isso? O que te faz dizê-lo, senti-lo e vivê-lo assim no meio da pior fase da tua vida? O quê?
…E quanto tempo há-de durar esta nova fase? Será “fase”? Ou um salto qualitativo que deste?
Vamos continuar a aguardar, vamos esperar...
A história ainda não terminou. Continuas a ser o autor e insistes em seres tu, e somente tu a dar-lhe uma conclusão, não as tuas circunstâncias…
Como aconteceu isso dentro de ti? A verdade é que não sei explicá-lo…
Mas quero...
e preciso...
de Agradecer, e partilhá-lo assim:
Hoje confirmo que o sofrimento ainda não tomou a última palavra para te silenciar.
Hoje saboreio que sempre viveste mais reconciliado do que conformado com a tua situação. Por isso és mesmo alguém que continua a amar a vida de verdade!
Hoje exulto por compreender que acontece em ti um Mistério inesgotável. Algo que só tu o vives e compreendes como ninguém…
Hoje fazes-me tão bem porque me mostras que os impossíveis de Deus afinal estão ao alcance de um olhar, de um toque, de uma intimidade e duma história como a tua…
Há quem diga que em ti há uma força sobre-humana. Eu prefiro dizer que revelas o que em todos nós há de mais humano.
Por isso, Hoje estou seguro, e sou testemunha que és dos rostos mais belos da Homem Novo. E tenho tanto, mas tanto orgulho de ser amado por ti!
Hoje sinto-me tão grato por te conhecer desde há tanto tempo; por ser tão marcado pela tua presença; por ainda me surpreenderes assim. És sem dúvida a pessoa que mais admiro…
Hoje não podia deixar de dizer-te, e partilhar-te, porque és bom demais para seres somente o meu tio.
Hoje partilho-te porque estou seguro que muita gente precisa de saber que há mesmo seres humanos assim! Só por conhecerem a Boa Notícia que existes, que és real, que és alguém…
Sei que não foi a tetraplegia que te fez assim, e não és especial por sofreres de invalidez!
Foste tu, apesar da tetraplegia, que te fizeste assim, especial.
Ahh e se foste assim, e se Hoje és, … Quem serás Amanhã?
Tu estás Vivo! És nosso! És tão nosso!
Não abdicamos de ti, nós todos que procuramos uma vida com sentido,
nós que ansiamos acolhê-la em plenitude! És e serás nosso para sempre.
Sim, porque tenho a certeza que a tua Vida está marcada com o selo do que é eterno e não morre. Tenho a certeza absoluta que no dia do teu último parto a Comunhão Universal será ainda mais dilatada pela plenitude do que construíste. Aí serás Um com todos os Viventes, e neles com Aquele que suscita já em ti, e suscitou desde sempre, o melhor.
Aí tenho a certeza, nesse Céu, e contigo, Deus será ainda mais Deus…










