quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Memória do Profeta Martin Luther King [3] – O GRITO DE LIBERDADE EM MONTGOMERY



“Aceitar passivamente um sistema injusto é cooperar com esse sistema […]. A não-cooperação com o mal é tanto uma obrigação moral como o é cooperar com o bem”
Martin Luther King, Montgomery, 1956




Desde o final da Segunda Grande Guerra, os EUA ocupavam um protagonismo mundial, e no intuito de se demarcarem do comunismo da União Soviética, precisavam de ganhar influência e passar a mensagem ao mundo de um país plenamente democrático. Assim, no período pós-guerra foi aberta a possibilidade dos afro-americanos recensearem-se e poderem votar, e em 1954 o Supremo Tribunal americano decretou o fim da segregação racial nas escolas públicas, declarando-a inconstitucional.

Porém, a mentalidade não tinha mudado. O racismo e a segregação continuavam tão presentes como no século passado, e eram sobretudo mais frequentes nos Estados do Sul. Na prática, estava tudo na mesma.

Martin Luther King, ao lado do ministro Ralph Abernathy, ao chegar à congregação da Avenida Dexter incentivou cada membro a recensear-se e filiar-se no NAACP (Associação Nacional para o desenvolvimento de pessoas de côr), associação à qual King recentemente pertencia e prestava serviço.

Naquele tempo, a segregação fazia sentir-se de muitos modos em todos os estados americanos, mas no caso de Montgomery a opressão racista era pior nos transportes públicos. Os afro-americanos muitas vezes, pagando bilhete, eram logo a seguir expulsos dos autocarros quando andavam lotados. Os lugares da frente pintados de branco reservavam-se aos brancos. Nenhum negro podia lá sentar-se, ainda que fossem vazios. Os restantes (em minoria) pintados de negro eram os únicos disponíveis, a não ser que houvesse um branco no autocarro de pé – nesse caso o negro era forçado a ceder-lhe o lugar. Muitos afro-americanos eram insultados, por vezes espancados, durante essas viagens pois havia motoristas e trauseuntes que gostavam de exibir o seu ódio racial. A polícia e a Câmara nada faziam: era “a normalidade”.

Certo dia, uma senhora afro-americana, Rosa Parks, resolveu desafiar o sistema. Porque se recusara a ceder lugar a um branco, permaneceu sentada até ser detida pela polícia local. No dia seguinte a notícia espalhou-se pela comunidade negra e a indignação rebentou. Distribuíam-se milhares de panfletos a encorajar os afro-americanos a caminharem a pé e boicotarem as viagens de autocarro. Entretanto, uma litigação já tinha sido entregue ao tribunal.

Porém, todos temiam a supremacia racista. Foi aí que apelaram a ajuda do ministro Martin. Tinham-no escolhido por ser moderado e culto, mas ao mesmo tempo ousado, e confiavam na sua diplomacia. Ao formarem o MIA (Associação para o Progresso de Montgomery) nomearam Martin Luther King como líder e cabeça de cartaz para levar as reivindicações da comunidade negra à empresa de autocarros e às entidades públicas da cidade.

Aquele caso inflamara Martin até á flor da pele. Então numa noite, a Associação juntara uma multidão para incentivar a comunidade a um boicote generalizado. Contavam com Martin para um discurso, e Rosa sentara-se a seu lado. Nessa noite, Martin Luther King insuflou esperança e um sentido de dignidade à assembleia como nunca antes visto. Fora como uma lufada de ar fresco numa comunidade deprimida por anos e anos de humilhações.
Passo a transcrever o discurso:

“Sabem, meus amigos, chega uma altura, chega uma altura em que as pessoas ficam cansadas – cansadas de serem segregadas e humilhadas, cansadas de serem pisadas pelos pés de ferro da opressão.
Chega uma altura, meus amigos, em que as pessoas ficam cansadas de serem lançadas no abismo da humilhação, onde experimentam a tristeza de um enervante desespero. (…)
Não temos outra alternativa senão protestar. Durante muitos anos temos mostrado uma espantosa paciência. Por vezes demos aos nossos irmãos brancos a sensação de que gostávamos da maneira como éramos tratados. Mas viemos aqui esta noite para nos livrarmos dessa paciência que nos torna pacientes com tudo menos a liberdade e a justiça.
A grande glória da democracia americana é o direito de protestar por aquilo que está certo.”
[Nessa altura a multidão levanta-se, e muitos gritam-lhe: “continua a falar”. Criava-se uma expectativa no ar, e após uma pausa Martin prosseguiu:]

“Se estamos errados então o Supremo Tribunal desta nação está errado!
Se estamos errados então Deus Todo-Poderoso está errado!
Se estamos errados, então Jesus de Nazaré não passava de um sonhador utópico e nunca desceu à terra!
Se estamos errados então a justiça é uma mentira!
E nós estamos determinados, aqui em Montgomery, a trabalhar e a lutar até que a justiça escorra como uma torrente de água e a retidão como um ribeiro poderoso!”

[Palmas, as vigas do teto abanam. Levantando os dois braços Martin continua:]

“Se protestarem com coragem e todavia com dignidade e amor cristão, quando os livros de História forem escritos em futuras gerações, os historiadores terão de parar e dizer: ‘Existiu uma raça de gente, gente negra, de cabelo anelado como lã e tez negra, de gente que teve a coragem moral de defender os seus direitos. E desse modo injetaram um novo significado e uma nova dignidade nas veias da civilização”

A partir daquela noite a comunidade negra ganhou um ânimo e uma união como raramente se tinha visto. Em Dezembro de 1956 é marcado um encontro entre o MIA chefiado por King e os membros da comissão da cidade. King delineou três exigências à cidade e empresa de autocarros: a contratação de motoristas afro-americanos, lugares para os afro-americanos desde da parte de trás até à frente do autocarro, sem reservas a raças; nenhum negro seria obrigado a ceder lugar.
A empresa de autocarros rejeitou a proposta, exigindo à MIA que recuasse. King, determinado e inflexível disse que não abdicariam dessas exigências pois eram conformes à dignidade dos afro-americanos.

Então, durante um penoso e longo ano, o braço de ferro manteve-se firme entre a Câmara de Montgomery, a empresa de autocarros e a comunidade negra, representada por King. Martin não parava de organizar marchas de protesto, assembleias onde constantemente apelava à resistência e perseverança. Não era nada fácil. Os afro-americanos durante quase um ano, tinham de se deslocar kilómetros a pé, organizavam um sistema de partilha voluntária de carros e táxis, e ninguém apanhava autocarros. Em retaliação, os polícias da Câmara faziam operações stop aos carros de boleia e multavam-nos por coisas insignificantes. Os patrões castigavam e até despediam os seus funcionários de cor quando chegavam atrasados ao trabalho. Mas King mantinha os afro-americanos unidos, alimentava-lhes esperança e determinação.

King incentivou que nas Igrejas voluntários demonstrassem técnicas de não-violência baseadas nas técnicas de Ghandi. Martin dizia: “trata aqueles que te desprezam como entidades sagradas” e lembrava que havia um objetivo maior por detrás deste boicote, pois acrescentava: o objetivo é a reconciliação; o objetivo é a redenção; o objetivo é a criação da comunidade dos bem-amados”; “continuaremos a protestar com o mesmo espírito de não-violência e de resistência passiva, usando a arma do amor”.

A uma dada altura a polícia dispersava os manifestantes e mandava prender aqueles que participavam nas marchas. Martin Luther King que as comandava na linha da frente era preso juntamente com os seus “irmãos”. Recebia telefonemas anónimos e ameaças de morte, mas nada o fazia parar. Sentia no seu íntimo o apelo de Cristo, que estaria sempre com ele, que lutasse sempre pela justiça e a verdade.

Montgomery já andava na boca de toda a América. Tinha-se convertido num enorme movimento cívico organizado e não-violento que nenhuma opressão do mundo podia parar. Na altura, um livreiro branco da cidade dedicou um artigo publicado no jornal local:

“É difícil imaginar uma alma tão morta, uma visão tão cega e mesquinha a ponto de não ser tocada pela admiração da tranquila dignidade, disciplina e dedicação com as quais os negros têm dirigido o seu boicote. A causa deles e a sua conduta têm-me enchido de grande simpatia, orgulho, humildade e inveja. Invejo a sua unidade, o seu bom humor, a sua força moral e a sua disponibilidade para sofrerem por grandes princípios cristãos e democráticos”

Passados meses de provação heroica, a cidade começava a rebentar pelas costuras por causa do boicote: cada vez mais donas de casa apresentavam queixas à Câmara porque as suas criadas negras não apareciam para fazer limpezas ou cozinhar, vendo-se obrigadas a dar-lhes boleia; as lojas da baixa da cidade acumulavam perdas, e a empresa de autocarros já não suportava uma perda de mais de 2500 dólares por dia; os membros do Ku Klux Klan já não assustavam negros e quando apareciam para aterrorizar caiam no ridículo de serem completamente desprezados por um grupo organizado de gente de cabeça erguida e pacífica.


Finalmente, apesar de um atentado à bomba à residência da família King, e tantas outras perseguições generalizadas, a Câmara e a empresa de autocarros não tiveram mais nenhuma saída senão ceder às condições do MIA. Tinha sido estabelecido um marco histórico, comparável à pacífica revolta do sal de Gandhi na índia. Montgomery já não era a mesma, e brevemente a América também não…

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Memória do Profeta Martin Luther King [2] - O Evangelho Social de Martin





Em 1944, Mike ingressa na Faculdade de Morehouse com 15 anos. No princípio não se distinguia nos estudos. Preferia as festas e as farras com os amigos. Vaidoso, gostava de exibir bons fatos, e até lhe chamavam “Tweed” por causa disso. Contudo, mais tarde, após terminar um ciclo de estudos com média fraca, o jovem Mike ingressa num curso de Teologia sob a tutela de um professor que defendia o compromisso social. Aquilo fascinara-o, e acabou por obter a nota máxima.




Apesar de tudo, e irritando o conservadorismo do pai, Mike não abdicava das suas festas universitárias, dançarino nato de jitterbug, galã, fumador e jogador de cartas. Queria libertar-se do autoritarismo do pai King, e criticava a sua conceção rígida do lar e da religião. Por um lado admirava a sua frontalidade nas questões raciais, mas por outro lado, como adolescente repudiava cada vez mais a autocracia paterna.



A pouco e pouco, e à medida que ia aprofundando os estudos, Mike apercebe-se que a fé era muito mais do que “emotividade” e “gritos de “Aleluia” que ouvira na comunidade negra de Ebenezer. Encantava-se cada vez mais pelo professor Benjamim Mays que criticava abertamente as leis injustas do sistema Jim Crow (leis raciais) e pregava o advento do Evangelho social – um movimento que surgira no séc. XIX e defendia uma ética prática do evangelho na luta contra a desigualdade, a pobreza, o crime, o trabalho infantil, e na formação de associações sindicais.


Entretanto prossegue os estudos em Direito com especial interesse por Sociologia. Nessa altura, e em confronto com a fé batista e rigorosa do pai, chocou a todos na aula de catecismo negando a ressurreição física de Jesus. Lamentava “ir à Igreja”, pois irritava-lhe que as pessoas não pensassem e seguissem os seus pastores cegamente sem espírito crítico. Pior ainda, e para desepero do pai King, fizera troça da doutrina do pecado original e afirmava que a virgindade de Maria era apenas metafórica.



Por outro lado, os seus estudos de teologia, direito e sociologia suscitavam-lhe um interesse e sensibilidade cada vez maiores pelas questões sociais. Vai ainda mais longe e frequenta pequenos cursos de Filosofia em Harvard e fascina-se pelo personalismo.



Entretanto, a partir dos 18 anos decidira seguir as pisadas do pai e do avô, mas com uma diferença fundamental. Não seria um pastor “milagreiro” ou “sobrenatural”. Aspirava a tornar-se num ministro “racional” com – dizia ele – “o impulso interior para servir a humanidade”. Não desejava uma Igreja que fugisse da realidade, mas que a fé fosse a força para enfrentar os seus reais problemas. Por isso dedicava imensas horas ao estudo bíblico dos profetas, eram os seus autores favoritos. O Cristianismo tinha de dar mais prioridade a erradicar os bairros degradados do que a “salvar almas”.



King absorveu o melhor da teoria social marxista e do pensamento do economista Keynes – que resolvera o dilema da terrível Depressão económica dos anos 30. Finalmente julgou ter encontrado uma terceira via entre o comunismo e o capitalismo: era o “seu” Evangelho Social. E pretendia dar-lhe vida através das suas capacidades oratórias oriundas dos sermões de tradição negra que tocavam até ao mais íntimo do coração e da imaginação.



Queria tornar-se no catalisador dos anseios mais profundos do povo negro da América, rumo a um novo horizonte de sociedade.


Mais tarde, conclui o doutoramento em Filosofia, e contra a vontade do pai, Michael King rejeita ser ministro da Igreja de Ebenezer de Atlanta, aceitando antes o convite da comunidade da avenida Dexter em Montgomery. Recém-casado com uma cantora estudante Coretta, o Doutor Michael é investido como o mais jovem pastor do estado do Alabama: o reverendo Martin Luther King, que cedo iria dar que falar…

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Memória do Profeta Martin Luther King [1] – as origens.



Neste Verão tive o privilégio de ler a biografia de Martin Luther King. Faz precisamente 50 anos desde Agosto, que Martin proclamou o seu famoso discurso "I have a dream" (eu tenho um sonho). Ao ler sobre a sua vida e os seus discursos, descobri que o tempo dele não é assim tão diferente do nosso: um tempo de "crise", conturbado, difícil, dramático. E sobretudo o que me admira neste homem foi, em primeiro lugar, a forma como defendeu os direitos cívicos de uma forma não-violenta.

Por outro lado, a maneira não desistente com que enfrentou todas as contrariedades, fracassos e poderes instituídos na época, e que eram poderosíssimos. Outra coisa que me suscitou profunda admiração por este homem, foi descobrir que afinal ele não defendeu apenas os interesses de uma etnia ou raça. Ele também se dedicou à causa universal da paz, um forte opositor à guerra do vietname , e sobretudo nos últimos anos da sua vida, empenhou-se numa luta contra a pobreza e exclusão social.

Para mim, sem dúvida este homem foi Profeta. Profeta incómodo, defensor da Justiça, do direito e dos mais frágeis. Um homem profundamente inspirado pelo Espírito que se tornou "Evangelho" encarnado em pleno século XX.


Para mim, Martin Luther King nunca foi tão atual como hoje. Tinha que o partilhar convosco. Seguem-se uma série de posts. Espero resumir o melhor que sei e aprendi dele.





Nasce a 29 de Janeiro de 1929, em casa, filho da professora Alberta King e do pregador Michael King da Igreja Batista de Ebenezer na cidade de Atlanta. Batizado como Michael King Jr (Júnior), com pouco mais de dez meses, o pequeno Mike cresce numa América repentinamente destroçada pelo crash da Bolsa de Wall Street a 24 de Outubro de 1929, provocada pela especulação financeira desregulada. Seguem-se de imediato as consequências: centenas e centenas de milhares no desemprego, fábricas e empresas a fechar, fome, incompetência e corrupção política… E como é apanágio de todas as “crises”, os mais frágeis são convertidos nas primeiras vítimas.


Dentre elas destacavam-se também os afro-americanos, desde sempre perseguidos e maltratados pela sua cor de pele. Desde 1830 a segregação racial americana expressava-se nas leis Jim Crow, que obrigavam à separação de raças em lugares públicos e privados: bairros, habitações, escolas, hotéis e pensões, jardins, fontanários, casa de banho públicas, restaurantes, cafés, universidades, tribunais, etc. Nesse tempo era comum encontrar à entrada de muitos desses lugares as inscrições: “reservado a brancos”, “proibido a entrada de negros” ou “pessoas de cor”.


Mas não era o pior. No Sul dos EUA, a maioria dos americanos brancos alimentava uma cultura de segregação, por vezes até militante, contra os afro-americanos e outras pessoas de côr. Nalguns casos – e não raros  chegavam-lhes a ser inflingidos crimes e barbaridades horríveis por grupos de linchamento: torturas, mutilações, enforcamento, ou imolação onde as vítimas eram regadas em gasolina para logo a seguir serem queimadas vivas em público.


As pessoas de côr, nomeadamente os afro-americanos, não tinham direitos, não podiam votar, e na esmagadora maioria não tinham acesso a condições mínimas de higiene, habitação, cuidados de saúde, ao ensino superior ou a um emprego digno. Por vezes as vozes da “supremacia branca” sulista encorajava a turba a exercer atos de violência para - passo a citar um jornalista da época -: “manter os pretos submissos”.


Afinal a abolição da escravatura americana no séc. XIX, era na prática um embuste, uma ilusão. E foi este o tempo e o ambiente onde cresceu o pequeno Mike. Protegido no ambiente propício duma comunidade negra Batista, com um pai como líder religioso, Mike foi poupado dos horrores da perseguição racista no Sul.


A origem do nome “Martin Luther” veio do pai King. Em 1934 viajou pela Europa e, ao conhecer mais profundamente a vida e obra de Martinho Lutero (Martin Luther),no regresso a Atlanta mudou o seu nome e o do filho para Martin Luther em honra do teólogo protestante. Nessa altura Mike também passou a ser chamado M.L., embora ainda ninguém o tratasse por Martin Luther King Jr. (Júnior).


O pai King ensinava na sua comunidade, e a Mike desde a infância, que todos eram filhos de Deus, e ninguém devia ser privado da sua dignidade. Encorajava os filhos a não frequentar – tanto quanto possível – lugares segregados, pois segundo ele, eram contrários à vontade de Deus e contra a “ordem moral”. Certa ocasião a família King entrou numa sapataria e foram avisados que tinham de sentar-se na secção reservada a negros, lá no fundo da loja. Mas o pai King confrontou o dono da loja dizendo: “Não vejo nenhum problema com estas cadeiras”; ao que o dono retorquiu: “lamento. Mas vão ter de sair daí”. O pai King insistiu: “Ou compramos sapatos aqui sentados, ou não compramos sapatos”. Foram expulsos da loja, mas o pequeno Mike viu o pai com um ar imperturbável e digno dizendo: “Não me interessa quanto tempo terei de viver com este sistema, jamais o aceitarei”.


Entretanto o pequeno Mike foi crescendo neste ambiente, contagiando-se pela paixão da pregação do seu pai. Isso estava-lhe “no sangue”. Provinha duma família de pregadores, e era isso mesmo que tinha sido incutido pela família. Um dia seria o sucessor de seu pai à frente da Igreja de Ebenezer – assim o esperavam o pai e o avô King (também pregador).


Mike gostava de ler, e já na adolescência treinava discursos ao espelho, com os trajeitos e linguagem gestual, entoação, pausas de voz, e outras técnicas passadas de geração em geração, e tão caraterísticas da tradição das Igrejas protestantes e dos espirituais negros.


Inspirado nos conselhos do pai, sempre que podia e de maneira atrevida e subversiva, usava elevadores onde se lia “reservado a brancos” e evitava sempre viajar nos autocarros segregados. Aos 15 anos, participou orgulhoso num concurso público de discursos intitulado “O Negro e a Constituição”. Testemunhos relatam que arrebatou o auditório com a forma como defendeu tão bem a Constituição Americana e o direito dos negros nela consagrada. Isto num tempo, em que não convinha a ninguém defender a Constituição num ponto tão “sensível” ao dito “interesse público” (enfim, coisas  só “desse tempo” não?)



Já muito jovem, Martin Luther King Jr. revelava-se promissor, e com uma personalidade rebelde, por vezes até, irritando o Pai King com a sua irreverência e força de caráter…





segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Emanuel Cartoon regressa com novo visual

Ora aí está uma proposta interessante.

Para quem ainda não sabe, abriu o novo blog da minha lista de amigos, o Emanuel Cartoon:









quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A PARÁBOLA DO SEMEADOR - III


Este Semeador provoca-nos a esperar com a coragem para desperdiçar e apostar no que é estéril, e no que “está perdido”.


Também aqui está patente outra provocação: terminou o tempo das divisões, e julgamentos. Deus mesmo acabou com a lógica do calculismo humano de separar os bons dos maus, os “puros” dos “impuros”, os úteis dos inúteis. Esgotou-se a Paciência para suportar tais juízos. Nada é inútil! Ninguém é inútil!

Inaugurou-se uma Nova Paciência: a Paciência de Esperar «contra toda a esperança». E Semelhante Esperança só se concretiza quando é movida pelo puro dom.

Jesus ensina aos seus ouvintes que dar-se até ao desperdício e sem olhar a quem não é coisa de gente insensata, mas de gente que Ama. E o poder do Amor ao dar de caras com a rejeição e o fracasso, continua simplesmente a avançar em frente. Para Este Semeador a semente desperdiçada não é a devorada, a queimada, ou a sufocada, mas somente aquela que permanece numa mão fechada.

Deus não Reina apenas no melhor de nós mesmos. O seu Amor também pode florescer a partir dos nossos próprios fracassos, ambiguidades, e debilidades porque aprendeu a arte de Esperar. Por enquanto nada é inevitável, nada está perdido, nada é desperdiçado. O Amor é assim! Decide-se sempre no princípio, e provavelmente esse é o segredo para que por fim, triunfe…

Parece mesmo que existe boa terra em toda a parte! Pode ser que a semente a penetre…pode ser que não...mas a persistência amorosa denuncia que aí mesmo no meio dos espinhos, pedras, pássaros e sol ardente há sempre boa terra, onde ninguém a vê…há que esperar, e continuar a semear! E isso tem que bastar…ainda que não haja resultados…tem que bastar.

A vitória Pascal brota sempre do mesmo lugar: do fracasso onde permaneceram a esperança e o dom até ao absurdo. O resto, só Deus mesmo pode fazer. Ai, e Esse não falha…

E aquela gente começava a compreendê-lo no seu coração. Ao escutarem que «a semente caiu em terra boa e, crescendo e vicejando, deu fruto e produziu a trinta, a sessenta, e a cem por um», perceberam-no e recordavam um antigo Salmo que falava dos tempos da Salvação:

«Aqueles que semeiam com lágrimas vão recolher com alegria. À ida vão chorar, carregando e lançando sementes; no regresso cantam de alegria, transportando os feixes de espigas»

(Salmo 126,5-6).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A PARÁBOLA DO SEMEADOR - II

Quão estranho e fascinante é este Semeador


Mas afinal não é preciso arar a terra? Revolvê-la? Há que prepará-la primeiro, arrancar as ervas daninhas, limpar os espinhos, remover as pedras, procurar a “boa terra” onde valha a pena semear. Afinal não se pode desperdiçar semente…ao menos que delimitasse o terreno onde iria começar a semeadura…


Mas não! Este Semeador faz tudo ao contrário: Começa precipitadamente a semear, sem arar, sem escolher, sem calcular, sem nenhuma preparação.


«Mas que raios é isto??», «Quem é este semeador insensato -

comentavam as gentes que escutavam o Nazareno. E lá está ele, “todo feliz da vida”, desperdiçando semente em toda a parte!! Não põe à prova os terrenos, não faz qualquer espécie de selecção. Antes e acima de tudo Já começou a semear…


E lá vão elas! Umas caiem à beira da estrada, outras por entre rochas, outras ainda entre espinhos. E o semeador continua alegremente, abrindo caminho debaixo de um sol escaldante, e sob a ameaça dos pássaros que vão debicando aqui e acolá as tão preciosas sementes.


Nos dias seguintes vê-se o resultado de tanto “desleixo”. Era de esperar! «Pois claro está, já se estava a ver» - comentavam. «Umas comidas, outras queimadas, outras completamente secas. Que desgraça!». Do ponto de vista das evidências isto era tudo o que se podia esperar. É impressionante como Jesus dá de caras com o realismo! Não esconde nada, põe tudo às claras. Ele não está a revelar nenhuma utopia, diz simplesmente as coisas como são.


Mas precisamente por causa disso, Jesus contrapõe a essa realidade “evidente”, a realidade emergente do Reino: é que este Semeador permanece teimoso e obstinado, a não querer dar ouvidos à nossa sensatez. Continua a semear, e a semear ainda mais, pedras e espinhos adentro, parece que nada o detém. Nada o desanima… não tem medo de aleijar os pés e palmilhar os terrenos difíceis. Parece mesmo que só vai parar quando ficar de mãos vazias


Ora isto não é um optimismo, nem ingenuidade, é outra coisa bem diferente. E os camponeses começavam a entender…

Em primeiro lugar, este profeta de Nazaré tem uma linguagem diferente do Baptista. João falava sempre em Juízo. Vinha aí a Ira de Deus para ceifar e arrancar as ervas daninhas. Mas Jesus fala na HORA da primavera do Reino que desponta. Vem aí uma nova vitalidade, fertilidade, brilho, encanto, e frescura. Precisamente quando a história estava menos preparada, Deus irrompeu no meio dela como um “mãos largas”, um “esbanjador” de dons e bençãos, que até “desperdiça” mimos, graças e do melhor que tem sobre os imerecidos! «Sim! Ele vem para semear e não para ceifar!», Vem inaugurar o tempo duma Alegria que resvala a teimosia atrevida…


Por isso, este Nazareno está-nos a falar de Esperança. Não é o tempo do Juízo que vem aí, mas o tempo da Paciência e da Espera! Mas apercebem-se também que a Esperança trabalha-se, sempre, sem cessarnão se compadece de cálculos, nem resultados, porque é fiel ao que começou…


Como sempre, fazemos tudo ao contrário: esperamos para agir, mas Deus actua para Esperar! Quando esperamos por “condições” para agir, não temos alternativa senão re-agir “ao que acontece”. Mas Deus é verdadeiramente Criador: age primeiro, criando assim as condições por aquilo que vale a pena Esperar…



CONTINUA

sábado, 20 de agosto de 2011

A PARÁBOLA DO SEMEADOR - I



«Escutai: o semeador saiu a semear. Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho e vieram as aves e comeram-na. Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra e logo brotou, por não ter profundidade de terra; mas quando o sol se ergueu, foi queimada e, por não ter raíz, secou. Outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, sufocaram-na, e não deu fruto. Outra, caiu em terra boa e, crescendo e vicejando,deu fruto e produziu a trinta, a sessenta, e a cem por um» E dizia: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça»

Marcos, 4, 1-9.



É curioso como actualmente tantos cristãos dão uma carga moralista a esta parábola. Fartam-se de nos encher os ouvidos que devemos ser a “terra boa”, que devemos limpar espinhos, e afastar as pedras do caminho, que devemos preparar a terra para que a semente germine…este tanto “deve-haver” não muda nada, e nada tem a ver com lógica do Deus de Jesus.


Como em tudo, há sempre uma razão de fundo por detrás das interpretações mais “tradicionais”. Ora isso deve-se ao facto do próprio evangelista pôr Jesus a explicar esta parábola uns versículos mais à frente – coisa que ele nunca fazia. Porém, Marcos opta por acrescentá-la não porque fosse ipsis verbis um ensinamento de Jesus, mas porque era uma necessidade da sua comunidade.


Possivelmente o fez para que todos abrissem o coração à Palavra, associada alegoricamente à expressão “semente”, ou para dar ênfase à urgência de acolher a Boa Notícia do Evangelho perante as dificuldades de integração das primeiras comunidades. Ao seu jeito, Marcos produziu uma interpretação legítima da parábola, que é importante e tem o seu lugar no coração do Evangelho, mas que, a pouco e pouco, fomos descuidando o seu sentido, degenerando hoje num moralismo inconsequente…


Bom, mas mais importante, foi o facto de Marcos deixar-nos intacta a narração da própria parábola, o mais próximo possível da originária. E para quem estiver atento, convém recordar o título: "o semeador". Jesus ao contá-la não pretendia prender a atenção dos seus ouvintes na qualidade dos terrenos, mas num Semeador...


É neste Semeador que Jesus deseja revelar o rosto do Pai e a força do seu Reino. E conta-a a gente habituada às agruras da vida do campo, e sobretudo, “desesperançadas” por tempos tão difíceis que viviam…