terça-feira, 16 de dezembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS[9]



- A Boa Notícia de Paulo -




As ekklesias locais que Paulo fundou procuravam viver num verdadeiro espírito fraterno e de comunhão (aquilo a que chamavam na língua grega de koinonia). Ele desejava que todos se encontrassem num ponto de convergência comum em Cristo: como irmãos amados, testemunhas da ressurreição, e na alegria de viverem como salvos. Porém…

Não eram ainda comunidades modelo. Recém-formadas nas grandes cidades, não podiam deixar de sofrer a influência de um mundo cheio de contrastes e ambiguidades. Nelas conviviam pessoas provenientes de culturas, hábitos e visões religiosas distintas. Aquelas assembleias de Cristãos tinham um longo caminho a percorrer: choques ideológicos entre os judeo-cristãos e cristãos vindos do paganismo, invejas, recaída em práticas pagãs idolátricas ou judaizantes, conflitos... não era fácil formar uma família assim.

Contudo, o Euangelion de Paulo constituía uma força de unidade e vitalidade para estas Igrejas. A sua Boa Notícia era mesmo “excessivamente boa” para ser derrotada pelas dificuldades. O seu zelo incrível, a sua formação rabínica, o contacto com os pagãos, o direito de cidadania romana, o domínio da língua grega, a ousadia e irreverência…tudo isso consagrou-o como uma testemunha excepcional da ressurreição de Jesus! Nem os apóstolos, nem nenhum dos discípulos que tiveram uma vivência histórica com o Nazareno, se atreveriam a sonhar ou a proclamar o que Paulo anunciou…




1 Da Lei à Graça

Perante o seu encontro com o Cristo Nazareno, Paulo chegara à conclusão que a Lei do Sinai não era mais mediação da Benção de Deus. Pelo contrário, aquilo que outrora parecia ser um meio para mudar o coração humano revelava-se na expressão absoluta do que não estava mudado!


O cumprimento das 613 prescrições legais - ou aquilo a que ele chamava “as obras da Lei” – eram resultado da perversão mais absoluta da Torah, e tornavam-se num peso insuportável. Tentar cumpri-las conduzia somente à dureza de coração, à impiedade, e divisão entre os homens. Por isso era impossível que a Lei trouxesse a Salvação. Ela exigia obrigações de tal modo cruéis, que mais depressa levavam à desobediência do que propriamente à sua observância, tornando as pessoas mesquinhas e escravas de minúcias rituais vazias.
Por um lado, os mais duros e impiedosos podiam cumpri-la, e somente eles! Porque só quem caísse em tal espiral de desumanidade convertia-se num “campeão da lei”. Por outro lado, os que não a cumprissem estavam condenados por ela! Para Paulo, este era sem dúvida um beco sem saída para os fariseus e os doutores da lei, dizendo: “os que se apoiam em práticas legais estão sob um regime de maldição” (Gl 3,10).


“Eu não conheci o pecado senão pela Lei. Eu não conheceria a cobiça se a lei não dissesse: Não cobiçarás.” (Rm 7,7); Portanto “onde não existe lei, não há transgressão” (Rm 4,15) e toda a força do pecado é a lei (1Cor 15,56)


A grande Boa Nova de Paulo é que tudo isto foi derrotado pela ressurreição de Cristo. Ele viveu toda a sua vida manifestando um amor gratuito e incondicional, amor que vinha de Deus e que agora atingiu a sua plenitude: ninguém tinha de o merecer! Era pura GRAÇA!
A lógica dos méritos pelas “obras da lei” caiu! A Graça manifestada em Jesus de Nazaré é tudo, e mais do que um dogma, era uma experiência viva de Fé das comunidades primitivas. Muitos seguidores do Nazareno, experimentaram a alegria de que já não havia necessidade de esforço humano para receberem uma vida abençoada e salva! Nenhum judeu devia mais empenhar-se por se aproximar de Deus pelo jejum, a meditação, ou as longas orações aprendidas de cor. Nenhum pagão necessitava de fazer mais sacrifícios aos deuses, praticar uma ascese esotérica, ou aprender os “segredos” e “mistérios” duma religião. Ninguém precisava mais de dizer: “eu tenho de fazer…tenho de me esforçar para mudar…eu é que me devo aperfeiçoar…eu...”


Nas comunidades cristãs de Paulo proclamava-se a Boa Notícia de que era o próprio Deus que tomava a iniciativa de transformar o coração humano, de fazer acontecer o Perdão e realizar uma vida nova, mais plena, enriquecida e abundante. Ele mesmo levaria a bom termo o que começou na ressurreição de Jesus. Bastava confiar, abrir-se e acolher com alegria e esperança a força salvadora de Deus que actuava na vida dos crentes pela acção do Espírito Santo, Dom definitivo do Ressuscitado. Os Cristãos agora viviam da Graça: “Tudo nos foi dado, em Cristo Jesus! TUDO!”



E TUDO é muito mais do que poderíamos esperar…



“Quanto à lei, ela interveio para que proliferasse o delito, mas onde abundou o pecado, super-abundou a Graça (Rm 5,20)


“Portanto, se é por Graça, não se deve às obras, porque senão deixaria de ser Graça” (Rm 11,6)


“O pecado não terá domínio sobre vós, pois não viveis sob a lei, mas sob a Graça” (Rm 6,14)



“Mas Deus é rico em misericórdia; por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa dos nossos delitos, deu-nos a vida com Cristo – é por Graça que vós sois salvos –, com ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus em Jesus Cristo. Assim, por sua bondade para connosco em Jesus Cristo, ele quis mostrar nos séculos futuros a incomparável riqueza da sua Graça.
Com efeito, é pela Graça que vós sois salvos por meio da Fé; e isso não depende de vós, é dom de Deus. Isto não vem das obras…”
(Ef 2,4-9)


terça-feira, 9 de dezembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS[8]



- A Igreja dos Cristãos


Graças à acção evangelizadora de Paulo e de outros missionários itinerantes, o movimento dos Cristãos difundia-se desde de toda a Ásia Menor, passando pela Frígia, Panfília, Galácia, e agora propagava-se cada vez mais para ocidente, chegando também à Grécia e Macedónia.

A formação destas novas comunidades no mundo helenizado implicou um distanciamento gradual do judaísmo. Na verdade, a congregação das assembleias dos seguidores do Cristo-Messias iam deixando de ser realizadas nas sinagogas ao sábado. Nas comunidades de pagãos convertidos já não havia necessidade de celebrar a fracção do Pão numa “casa de oração judaica”, formando antes assembleias domésticas.


Cada uma destas assembleias de comunidades fundadas por Paulo era agora designada por um nome já famoso no mundo grego: ekklesia (termo que em português traduz-se como “Igreja”). Paulo não o escolhera ao acaso, uma vez que designava uma realidade anteriormente vivida no mundo pagão, e que agora ganhava um significado pleno no seio do Cristãos.




No mundo antigo a ekklesia nasceu no período do apogeu da civilização grega. No séc. V a.c. a Grécia foi a primeira cultura a instaurar a democracia. Ela constituía uma novidade absoluta na antiguidade, e representava a única alternativa num mundo onde normalmente imperava a lei do mais forte, e onde os poderosos dominavam os mais fracos. A ekklesia era a assembleia principal da cidade de Atenas e representava o pilar democrático da nação. Os seus membros eram provenientes de todas as classes, e em geral formavam um concelho popular para resolver assuntos urgentes de Estado.


Sempre que as cidades gregas viam-se subjugadas por um regime opressivo e corrupto, uniam-se para imediatamente suscitar uma ekklesia de modo a depô-lo. Assim, muitos cidadãos de todas as classes eram congregados a Atenas pelo clamor do povo, por um grito de Liberdade e uma palavra de esperança! Ainda que por razões óbvias, fosse muitas vezes considerada como uma assembleia aparte da autoridade civil, contudo, caso congregasse membros suficientes, a ekklesia reunia o poder necessário para restaurar a justiça e a ordem pública. Por causa de tudo isso era considerada por muitos como a assembleia dos cidadãos livres!


Com efeito, além das decisões de Estado, a ekklesia constituía sobretudo uma reunião democrática de cidadãos que buscavam a justiça relacional, onde houvesse uma supressão radical das suas diferenças. Traduzia por isso o desejo que todos fossem reconhecidos na cidade como iguais e dela participassem com os mesmos direitos, independentemente da raça, género, ou classe social. Foi dessa realidade que Paulo se inspirou para designar as assembleias dos Cristãos…


Para aquele apóstolo dos gentios, por um lado, todos os Cristãos – fossem judeus, pagãos convertidos, ou “prosélitos” – eram congregados por uma Palavra Libertadora do Mestre Nazareno, e Palavra definitiva do Deus que o havia ressuscitado. A Igreja (ekklesia) era assim a comunidade que nascia da Palavra Viva do Deus de Israel, que agora convocava todos os povos à comunhão e convivialidade do Reino!

Por outro lado, Paulo também apresentava-a como uma família, onde todos eram apreciados como iguais, e por isso mesmo valorizados nas suas diferenças! Ela devia ser a utopia de todas democracias: “Já não se distinguem judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, pois agora vocês todos são um só com Cristo [Messias] Jesus.” (Gal 3, 28). Por isso mesmo, a ekklesia implicava a anulação de todos os pólos que dividissem a humanidade: raça, religião, posição social, sexo… Ela constituía uma família de irmãos unidos segundo os laços do Espírito e que vivia na consciência de dar continuidade à missão salvadora de Jesus. Assim nasciam as ekklesias de Éfeso, Corinto, Tessalónica, Filipos, Colosso, entre tantas outras…



As redes de fraternidade que Jesus sonhara formar, manifestavam-se numa unidade que designava a ekklesia de Deus, o foco difusor do Reino a acontecer e a emergir onde menos se esperara. Porém, não era uma realidade alheia ao Império, e nos mais altos círculos já se começava a falar dos Cristãos. Mais tarde ou mais cedo, esta Igreja estava prestes a enfrentar o maior dos desafios…

sábado, 6 de dezembro de 2008

O "VENENO" DO EVANGELHO





«A Cruz não é a morte de um condenado qualquer, senão a morte dos "outsiders", dos escravos e dos delinquentes políticos. E além do mais é uma morte conflituosa em último grau : Sócrates necessitou de quase setenta anos para que o conflito com a sociedade se agudizasse até ao extremo de custar-lhe a vida. No caso de Jesus, uma das coisas mais surpreendentes é a celeridade [rapidez] com que se produz o conflito (quem sabe não chegue a durar mais de um ano; no melhor dos casos, três). E essa é a melhor prova da sua tremenda virulência


José Gonzalez Faus, "La Humanidad Nueva"

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[3]


- Deus como Abba e a filiação divina



No coração e no âmago do Amor anunciado por Jesus encontramos o núcleo definitivo do Reino: O Deus-Rei é um Abba! Com efeito, os discípulos foram reconhecendo progressivamente em Jesus a novidade de Deus ser um Papá, quer na sua intimidade de oração, quer também na entrega incondicional à Sua Vontade. Viam-no como uma “criança de peito” que se abandonava no colo de um Paizinho, cheio de segurança e ternura. E era assim, movidos por um fascínio irresistível, que aproximavam-se dele formulando este desejo: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11, 1)

O profeta de Nazaré nunca se entende a si mesmo como o “filho unigénito” porque não guardava nada para si, e muito menos a experiência do seu Abba. Por isso, para ele o Abba não é “meu”! É “nosso”, e de todos! E isso faz dele o primogénito, o Irmão maior e primeiro a dar-se aos irmãos; primeiro a conduzi-los ao Coração e à casa do Abba; primeiro que convida os discípulos e as multidões à confiança filial no “Pai Nosso”.
Finalmente estamos diante de um Deus que é radical novidade, porque não é dito a partir de um discurso religioso ou um ideal sagrado, mas que se diz e comunica na vida de um homem que age como Filho e como Irmão! Um Deus do Reino que, em Jesus, rasgou o véu de todas as aparências de divina autoridade ou de uma majestade infinita, ávida pela adoração dos seus súbditos. Deus é Abba: um Pai que é Dom total, que comunica o seu Amor a todos, e a todos concede a mesma filiação divina pela qual Jesus vive.

É então a partir do encanto por este Nazareno, que muitos entram na sua intimidade e começam a experimentar o Abba como ele: um “papá babado” e amoroso que desce ao mais íntimo de cada um para o fazer subir a Si. Ao seu colo que é seio maternal e ventre criador para gerar um coração novo e agradecido. Um coração de filho, alegre e generoso; capaz de mover-se e co-mover-se a procurar todos os irmãos a quem Ele ama e deseja também reunir.


Este dom da filiação divina comunicado em Jesus passa assim a ser condição para uma vida nova e transfigurada. O dom que é condição para agirmos concreta e humanamente como Irmãos, e ao mesmo tempo, dom da eleição daqueles de quem me faço próximo: começando pelos mais débeis e marginalizados, curando as feridas dos magoados, consolando os aflitos, e perdoando os inimigos.


É deste Rei, deste Abba donde irrompe o Reino...






- A maravilha de um Reino invencível


É evidente que um Projecto desta envergadura chamado Reino de Deus era tudo menos teórico. Tinha de abalar as fundações de um mundo ainda dominado pelo mal e a injustiça. Tinha de mexer nas consciências e provocar resistências, especialmente quando Jesus o viveu afirmando que era vontade de Deus.

A cruz revela bem que Jesus não foi nem um romântico, nem um herói de ficção que conhece um “final feliz”. O Reino que anunciou e inaugurou como projecto de fundação de uma nova humanidade foi de tal modo concreto e palpável que chocou com as instâncias mais poderosas de seu tempo: o Templo, a Lei farisaica e o poder imperial. Para estas instituições era urgente deter o Reino daquele Nazareno. Um Reino já inaugurado e em marcha que derrubava o seu mundo ao contrário e ameaçava os seus privilégios de domínio.

Porém, ainda que entregue ao poder destes inimigos do Reino, e mesmo crucificado, Jesus confiava que o Abba seria Fiel. E nessa confiança entrega a vida ao Pai. Na morte entrega-a como coroa do Reino que inaugurou e edificou, como que dizendo: “Toma-a, é tua. Contigo ela não há-de se corromper. Ainda que eu morra, o teu Reino prevalecerá!”

Jesus morre, contudo não era o Fim…chegara a hora do Abba intervir! Se Ele não tinha o poder de tirar Jesus das mãos dos seus malfeitores, tinha certamente o poder do Amor, poder de o assumir plenamente em Si! Isso significa que o Abba aceita a coroa! Recebe-a porque apaixonou-se pela vida nela contida, ao ponto de identificá-la com o Reino que desejou desde a Criação do mundo. O Abba ao ressuscitar Jesus aceitou a coroa da sua vida, coroando-o com a própria Vida Divina, e entregou-lhe toda a soberania para o consagrar como Senhor da história.

Deus já não necessita de identificar o Reino com um sonho, ou uma esperança. Ele Identifica-o agora com um Vivente: Jesus ressuscitado! Para o Abba, Jesus é o Reino. A partir de agora, nem o ladrão pode furtar a Coroa, nem a traça já pode corromper o que é incorruptível! O Reino é invencível, imortal, vital, dinâmico, está presente, a acontecer na nossa humanização, aqui e agora, e continua imparável…


O Reino de Deus é hoje Dom da ressurreição de Jesus a acontecer na nossa história. É uma realidade já inaugurada e aberta a uma consumação futura: a sua promessa cumpriu-se, é permanente, ainda não terminou, está na fase dos acabamentos, e continua a necessitar de colaborares, discípulos, Filhos, e Irmãos. É Universal, e por isso além de qualquer religião ou crença, além de qualquer raça ou condição, além de qualquer tempo, a construir-se na liberdade humana, e a brotar de homens e mulheres de Boa Vontade que se unem ao coração e à causa do Ressucitado!



Ei-lo Aí! Para quem o quiser ver e o quiser agarrar! Á mão de semear e à mão de colher...Aí está o REINO a acontecer!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[2]



O Baptismo de João despertara em Jesus a consciência de ser o profeta do Reino de Deus. Este Reino Messiânico passa a ser a fonte dos seus critérios, das suas expectativas e escolhas, a ponto de identificar-se com toda a sua vida. Por isso, um Reino que não teve nada de abstracto, de dogmático ou esotérico. É inaugurado nele, incarna nele, e nele manifesta-se em plenitude, na lógica e nas acções que o constituíram como Messias e Salvador:


- Chamou discípulos e nomeou doze

A primeira coisa que Jesus se deu conta, ainda antes de iniciar a sua missão, era que o Reino de Deus não se construía sozinho mas em dinâmica fraternal. Ele sonhava constituir uma rede humana com a força suficiente para derrotar as “forças diabólicas” do mundo, incarnadas nos ritmos e dinâmicas que impediam a marcha da humanização. Para Jesus não era tanto a máxima da “união faz a força” que valia, mas confiava que era a própria força salvadora de Deus que agia com eficácia na Comunhão humana.


Um facto inédito no seu tempo era que alguém escolhesse discípulos, uma vez que os mestres e rabis é que eram escolhidos pelos discípulos que decidiam segui-los. Contudo, ele não hesita em convocar colaboradores e seguidores para o acompanhar. Um sinal muito próprio dessa escolha é a eleição dos Doze de entre os discípulos, dado que são eles a formar um novo Israel. Assim a comunidade dos Doze reúne a força simbólica das doze tribos de Israel que são refundadas para constituir um Povo construtor do Reino. Jesus reúne-os para proclamar a Boa Notícia do Reino de Deus.


- Perdão dos pecados e proximidade com os pecadores e marginalizados

Se para Jesus o Reino de Deus é uma Boa Notícia, então tinha de chegar primeiramente àqueles cuja vida não era “boa notícia”; e que estava sobretudo marcada pelo sofrimento e o abandono. Dirige-se a prostitutas, publicanos, pobres e marginais: gente de coração partido, encadeados e tristes, esmagados pelo fardo da culpa que a sociedade lhes impunha. A compaixão de Jesus move-o a procurar amizade junto destes a quem chama de Irmãos, anunciando pela sua proximidade um Deus que proclama o Perdão dos pecados. Perdão que traz a libertação das amarras da culpa, e manifestado nas atitudes de misericórdia e amor que derrotam todas as forças do mal, todos os “demónios” da violência, do egoísmo, indiferença e solidão. Um Perdão que faz acontecer uma acção terapêutica, e que nos evangelhos encontra expressão nas curas e milagres: "os cegos vêm, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é anunciada aos pobres" (Lc 7,22)


Esta Gente de má fama não era convidada a participar nas festas religiosas do seu povo, estavam impedidos de entrar nas sinagogas, e proibidos de prestar culto no Templo. Pura e simplesmente era-lhes negado o acesso a todos os rituais de purificação e de bênção. Jesus contudo escandaliza tudo e todos sentando-se à mesa com eles. E é nessas refeições de convívio com os “não-convidados” do seu tempo que ele manifesta as celebrações antecipadas do Banquete do Reino a acontecer. Jesus compara o Reino de Deus a um grande Banquete onde todos estes últimos seriam os primeiros a sentar-se na mesa, e o próprio Senhor os haveria de servir! Chegara o tempo da boda, porém, para surpresa e indignação de muitos, estava aberto primeiramente para os “ímpios”.


- As Bem-Aventuranças: poder transformador de Deus na história


A predilecção de Jesus para com os aflitos e rejeitados está especialmente patente na sua proclamação das Bem-Aventuranças, aquilo a que podemos designar como a declaração fundamental ou a “Carta Magna” do Reino de Deus. Ela constitui uma novidade absoluta em toda a tradição bíblica, e constituí o princípio do fim das velhas lógicas da realidade.

Para a grande maioria dos judeus do seu tempo há muito que a injustiça dominava o mundo. Constatam que eram sempre os fracos e justos que sofriam nas mãos dos poderosos e ditadores cuja vida era próspera. E ainda que muitos aspirassem a ideais como a paz, a justiça, e a liberdade, reconheciam que não passavam disso mesmo: ideais de uma utopia. Porém, Jesus perante esse mundo vencido por forças opressoras anuncia um acontecimento salvador, convertendo a utopia em realidade:"Felizes os pobres porque deles é o Reino! Felizes os famintos porque serão saciados. Felizes os que choram porque serão consolados. Felizes os que sofrem por amor da justiça..."

Eis uma mensagem nova que supera a antiga tradição sapiencial onde se proclamavam os ditosos como “os bonzinhos”, ou os eticamente respeitados. Os bem-aventurados já não são aqueles que “comem do trabalho das suas mãos”, “os que se guardam dos vícios”, ou os “virtuosos que têm uma vida honrada”aqui estamos claramente diante de um salto tremendo, e uma lógica que vai além de um mero código moral! Com a proclamação das Bem-Aventuranças Jesus declara que chegou um tempo novo. Um tempo de libertação de toda a tirania e angústia, onde a soberania de Deus se sobrepõe a todos os sistemas injustos do mundo: a partir de agora o tempo dos opressores tem os dias contados, por isso “ai de vós” (Lc 6,25-27)

Assim vemos que a justiça das Bem-Aventuranças de Jesus não é imparcial, mas preferencial: aquela que toma partido em primeiro lugar pelos débeis, os desvalidos, e os pobres, e portanto a mesma que marca o fim de todos os privilégios dos que se elevavam à sua custa. Uma justiça eficaz que não é limitada nem retardada pelas nossas imperfeições humanas, mas antes instaurada e restaurada pelo poder salvador de Deus: "O que é impossível aos homens, é possível a Deus" (Lc 18,27). Sim, são as Bem-Aventuranças que anunciam um poder que transforma a história humana para “virar do avesso” todas as desigualdades e injustiças; por isso Jesus nunca as proclamou como um prémio de consolação para uma “vida no Além”. Pelo contrário, anuncia nelas a Boa Notícia de um poder real e concreto que já chegou, que está aí a libertar e salvar, que está aí a actuar, aqui e agora, nos seus gestos e atitudes.


- O mandamento do Amor

Na base das Bem-Aventuranças e na proximidade de Jesus para com os oprimidos está o mandamento do Amor. Já não são os incensos, os sacrifícios, o culto, as normas da Lei, ou as penitências que valem por si mesmas. Jesus reúne toda a Lei e profecia no Amor a Deus e ao Próximo como caminho de vida, e critério último de construção do Reino. Neste Amor há também um elemento novo: a noção de Próximo. A noção judaica de próximo era o “meu vizinho”, o “meu compatriota judeu”, o “da minha raça”, o “da minha tribo” ou “estirpe”. Porém, Jesus abre agora as portas às exigências desse Amor novo, amor manifestado na universalidade e na super-abundância da Graça: convida ao amor pelos inimigos (Mt5,44) e estrangeiros, à superação da Lei de Talião: "ollho por ollho, dente por dente" (Mt5,39), e à iniciativa no perdão fraterno (Mt 5,24).


Acabaram as fronteiras do sagrado e do profano, terminaram os limites da razoabilidade e do “bom senso”, e esgotaram-se os critérios moralistas para distinguir “os próximos” dos “não próximos”. A partir de agora o próximo é aquele de quem me aproximo por iniciativa e bem-querer, disposto ao risco e ao imprevisível, sem reservas! Tudo isso é a proposta de uma nova Ordem de relações marcadas pela Graça de Deus que inaugura um jeito novo de amar: “amai-vos como eu vos amei”.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A BOA NOTÍCIA DE UM REINO[1]

Esta semana decidi mudar um pouco o programa do costume. Interrompo as minhas reflexões habituais para deixar aqui um tema que muito gosto me deu trabalhar e meditar no último fim de semana de encontro JR: o Reino de Deus. Algo que não nasceu apenas do meu trabalho individual, mas fruto do poço comum da minha comunidade redentorista. Apresento-o assim, na expectativa de saborearem o mesmo gozo que me deu prepará-lo...



Nos tempos do reinado de Herodes, tetrarca da Galileia, apareceu um homem que anunciava a proximidade da última hora, a hora da intervenção definitiva de Deus em Israel. Seu nome era João e pregava um baptismo de purificação que prepararia o povo para a chegada iminente de Deus. Segundo ele, o mundo estava prestes a ser julgado e não bastava ser filho de Abraão (judeu) para escapar a esse juízo. Yahvé viria para destruir os pecadores e somente os que recebessem o baptismo de penitência se salvariam, o dia terrível da Ira de Deus estava próximo:

“O machado já está posto à raiz da árvore: a árvore que não produzir bons frutos será cortada e jogada no fogo.” (Lc 3,9); “Já empunha a pá com para limpar a sua eira: o trigo o recolherá no celeiro, e queimará a palha num fogo inextinguível” (Mt 3,12).

Entre muitos ouvintes de João, encontrava-se um jovem Nazareno que o seguia de perto sentindo-se interpelado pela sua mensagem, e ao escutá-lo, desperta para algo novo que o vai acompanhar até ao fim da sua vida. Jesus não só experimentava no seu íntimo a novidade que terminara o tempo da espera de Israel, como também confiava com uma certeza infalível que o Dia de Yahvé não chegaria como dia
de condenação, mas como dia de misericórdia: Deus está a chegar com um Reino de paz, justiça e alegria! O seu Abba virá, e sem demora, para enxugar as lágrimas do seu povo.


É firmado nesta esperança que Jesus adere à fila dos penitentes e aproxima-se do rio Jordão para receber o baptismo de João. Deixa-se baptizar, não para escapar de uma maldição iminente, senão para se sentir membro do resto fiel, daqueles que aguardavam ansiosamente a vinda libertadora de Yahvé. A partir daquele dia tudo mudou para aquele carpinteiro da Galileia. Sentia-se enviado a proclamar que Deus finalmente viria governar, guardando no coração a profecia de Isaías: Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que apregoa a boa-nova, e que proclama a salvação! Que diz a Sião: “O rei é o teu Deus! (Is 52,7). Jesus inspirou-se na missão de Consolação de Isaías e ele próprio assume-se como mensageiro da Boa Notícia: Deus está connosco como Rei e vem como Salvador de Israel! Enquanto João esperava na intervenção divina, Jesus vai passar a agir para fazê-la cumprir. Para aquele Nazareno chegara o tempo de uma nova criação: o Reino de Deus estava já a acontecer…

terça-feira, 18 de novembro de 2008

DOS NAZARENOS AOS CRISTÃOS[7]



- Primeiros e últimos -


As semanas que se seguiram após a partida de Antioquia da Síria foram intensas…

Saulo e Barnabé assumiam a missão de enviados (apóstolos) pelos judeo-cristãos antioquenos para fecundarem a semente da Boa Notícia por todo o Império e até onde os pés os levassem. Confiavam que o Espírito do Vivente acompanhava-os, investindo-os com a dynamis (força) para abrir uma nova página na história do seu povo, e quem sabe, também de outras nações…


Descem primeiro à região da Selêucia na costa mediterrânica, navegando depois para a ilha de Chipre, terra natal de Barnabé. Chegando à cidade de Salamina, ficam lá por algum tempo com a comunidade recentemente formada, e anunciam nas outras sinagogas judaicas a Boa Notícia da chegada do Cristo-Messias e a instauração definitiva do seu Reino, prometido a Israel desde os patriarcas. A sua proclamação naquela região já era tão célebre que eles, chegando a Pafos, despertaram não só a curiosidade de muitos judeus, como também de alguns cidadãos romanos. Entre estes destacava-se o governador Sérgio Paulo que imediatamente os chamou pessoalmente para escutar a Boa Nova acerca de Jesus. Este “acreditou, maravilhado com o ensinamento do Senhor” (Act13,12).
E é ali mesmo, em Pafos, que pela primeira vez o nome de Saulo é traduzido na língua latina por Paulinus (Paulo).


Nas sinagogas que passavam, os dois tinham sempre o cuidado de colaborar mutuamente, deixando um testemunho de unidade e comunhão em cada vez mais comunidades que formavam entre os judeus. Talvez Barnabé fizesse um primeiro anúncio, deixando a Saulo (Paulo), rabino de formação, a tarefa delicada de justificar pelas Escrituras este Messias tão surpreendente e tão diferente de tudo o que os seus compatriotas esperavam. Para alegria de Barnabé, Paulo revelava como era digno da fama que recebera desde Damasco, tomando progressivamente a dianteira na proclamação da ressurreição do Nazareno.

Mais tarde partem de Chipre em direcção a ocidente e desembarcam em Perge, na costa norte do mediterrâneo. Daí percorrem mais de duzentos quilómetros até chegarem finalmente à grande cidade de Antioquia, situada na zona fronteiriça da Pisídia (actual Turquia). Naquela metrópole estava prestes a ocorrer um incidente que traria um novo impulso ao movimento da Boa Notícia de Jesus…


Num dia de sábado, os dois companheiros dirigem-se a uma das mais frequentadas sinagogas da cidade. A seguir às leituras dos textos da Torah e dos profetas, o chefe da sinagoga convoca solenemente um dos irmãos presentes para comentar a Palavra escutada. Paulo entretanto toma a iniciativa e, levantando-se do meio da assembleia, começa a proclamar a ressurreição de Jesus. Como era hábito, instala-se o alvoroço. Entre a assembleia havia judeus que aderiam à Boa Notícia, como os outros, que indignavam-se, rejeitando-a imediatamente por pôr em causa as tradições. Apesar de tudo, a maioria dos que se encontravam na sinagoga aceitaram com agrado aquela Notícia inédita. Tal foi o aparente “sucesso” do kerygma de Paulo, que à saída muitos pediam a ambos que continuassem a ensinar sobre Jesus no sábado seguinte.
Todavia naquele dia, a sinagoga recebia também um outro grupo, mais oculto e restrito, para quem o euangelion constituía certamente uma Novidade ainda maior.


Naquela cidade, como em tantas outras da diáspora, abundavam não poucos pagãos atraídos pelas “virtudes” e os ensinamentos do monoteísmo judaico. A maior parte deles concentrava-se nas entradas das sinagogas aos sábados; muitos homens em particular, apesar de iniciados nalguns rituais judaicos, ainda lhes faltava dar o último passo para entrarem como membros plenos no judaísmo: a circuncisão. Contudo, poucos eram os que na idade adulta aceitavam submeter-se a esse estigma físico. Por isso, ainda que interessados por escutarem a doutrina da Lei e dos profetas, estes “prosélitos” permaneciam lá atrás, recuados na periferia daquelas assembleias numerosas. Lá permaneciam como os últimos ouvintes, quer não só por serem estrangeiros, mas sobretudo porque na sua maioria eram incircuncisos, e por isso não plenamente convertidos ao judaísmo.

Para estes últimos, aquele dia fora inesquecível…


Paulo falara-lhes do euangelion de um homem, um Nazareno que acolhia prostitutas, pastores, publicanos, indigentes, e toda a espécie de pecadores públicos. Um judeu Nazareno que questionava muitos dos costumes judaicos, e surpreendentemente se dava com “más companhias”, inclusive os próprios pagãos romanos e outros tantos que habitavam na Galileia dos gentios. Esse judeu atrevera-se a dizer que todos estes “últimos do mundo” eram os “primeiros no Reino”. E porque os amara e defendera até ao fim foi rejeitado em Jerusalém e violentamente morto fora dos seus muros como herege! Por tudo isso, Paulo proclamara-o como o Messias não só do Judeus, mas de todos os que acolhessem de coração aberto esta Boa Notícia.


Sim, aquela Boa Novidade fazia tanto sentido para aquela gente ignorante da Lei e ainda fora da Aliança, que sentiam-se claramente os seus primeiros destinatários naquela assembleia! Sentiam-se amados e acolhidos por esse Yeshu tão vivo nas palavras de Paulo. Aquele Messias judaico trazia um reino de liberdade e Justiça não só para os da sua raça, mas para todos, e sobretudo para eles, os “últimos” entre os Judeus. Sem demora, começam a falar com familiares, sócios, amigos, e outros gentios conhecidos que encontravam para escutarem a Boa Nova anunciada pelos dois visitantes que tinham vindo de tão longe. Os cochichos não paravam de circular e já se espalhavam naquele quarteirão da cidade.


No sábado seguinte, para surpresa dos judeus, rebenta a confusão na sinagoga. Jamais se viram tantos pagãos à porta. Alguns, mais atrevidos, talvez até tentassem irromper ao empurrão pela assembleia adentro, ansiosos por escutar de perto as Novas de que tanto se falara. Porém, como sempre, os pagãos eram expressamente proibidos de entrar. Surpreendentemente parece até que alguns judeus piedosos, sempre acostumados aos habituais “lugares de destaque” já nem conseguiam furar pelo meio daquela multidão de gente para entrar na sinagoga. Estando tudo à pinha naquele lugar, entretanto chegam os dois enviados de Antioquia.


Paulo e Barnabé, surpreendidos, fitam o olhar um no outro, e percebem finalmente o que se passava ali. Paulo então, ali mesmo no meio da praça e em público, toma a palavra e continua a ensinar o Euangelion do Nazareno a todos: judeus, pagãos e “prosélitos”. Entretanto, escutam-se vozes de protesto. Muitos dos judeus estavam furiosos, e aqueles dois visitantes eram os responsáveis pelo estardalhaço…

“Os Judeus, ao ver a multidão, encheram-se de inveja e contradiziam as palavras de Paulo com insultos.” (Act 13,45)

Paulo e Barnabé estavam chocados, especialmente Paulo. Este reconhecia naqueles judeus o mesmo nacionalismo desenfreado que defendera uns
anos antes. Entristecia-se por ver aqueles seus irmãos, depositários da Promessa, a desprezarem o Euangelion da nova era messiânica. Como resposta à rejeição da maioria da assembleia judaica, os dois lançam então uma repreensão àquela gente irada: “Visto que rejeitais a Boa Notícia, a partir de agora nos dirigiremos aos pagãos”


Os dois abandonam a vizinhança da sinagoga com os gentios, “prosélitos” e até alguns judeus tocados por aquele anúncio ousado. Nos dias que se seguiram, reuniram-se nas suas casas e noutros lugares para os prepararem para a formação de uma das primeiras comunidades de pagãos convertidos à Boa Notícia.


E assim o Espírito de Deus encontrava espaço de acção para fazer acontecer a Universalidade do Reino. Vivia-se de facto um tempo como nunca o mundo tinha assistido antes: “felizes os olhos que vêem o que vós vedes, pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram.” (Lc 10,23-24). Iniciava-se uma Nova Aliança, selada pela presença de um Espírito que “sopra onde quer”, e para Paulo e Barnabé tudo tornara-se muito claro: ninguém tinha de ser necessariamente judeu para tornar-se Cristão!