quinta-feira, 26 de março de 2009

"OS TEUS PECADOS ESTÃO PERDOADOS" [2]


Israel há muito tempo que aguardava com grande expectativa a chegada de um Reino Messiânico. O Dia da Consolação haveria de manifestar-se como a vinda definitiva de Deus. E não viria como tantas outras intervenções na história de Israel, porque dessa vez Ele vinha para ficar! Nesses dias cessariam as guerras e todos os inimigos do Seu Povo reconheceriam a vitória de Yahvé. Assim, uma vez entronizado no monte Sião em Jerusalém, Ele haveria de inaugurar um Banquete magnífico. Seria o convite dos últimos tempos dirigido a todas as raças, línguas e nações:


«O Senhor dos exércitos oferece a todos os povos, neste monte, um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos depurados, comidas gordurosas, vinhos generosos. Neste monte arrancará o véu que cobre todos os povos, a cortina que encobre todas as nações: e aniquilará a morte para sempre. O Senhor enxugará as lágrimas de todos os rostos e afastará da terra inteira o opóbrio do seu povo.» (Is 25, 6-8).


Esta belíssima profecia de Isaías anuncia o sonho de uma refeição universal oferecida não só a Israel, mas também ao resto do mundo. É uma profecia que nos fala de uma Boda de Salvação e inauguração de um tempo de Paz e Perdão para todos os povos. Os estrangeiros, outrora cegos, reconheceriam agora o único e verdadeiro Deus. A morte seria destruída, dando lugar a uma vida abundante, alegre e sem dor oferecida a todos os convidados.

O sinal do triunfo de Deus não seria somente a restauração do reinado de Israel, mas antes a reconciliação e a cura de toda a humanidade oferecida num Banquete.

Só mesmo Isaías podia sonhar assim, em grande…era sem dúvida o sonho mais caprichoso e ousado que alguma vez um profeta tinha concebido. De tantos outros sonhos e visões, talvez este estivesse mais próximo do desejo que ardia no coração do Abba…





A vida de Jesus pautou-se sempre por gestos proféticos. E os mais significativos foram certamente a expressão do grande Isaías. Por isso, ao convidar e sendo convidado à mesa de muita gente, Jesus não se limitava a criar ou fortalecer laços de intimidade…


A comunhão de mesa que partilhava com os marginais e pecadores foi sem dúvida o SINAL mais evidente da proclamação do Perdão!

Este acto de convivialidade não era inocente nem neutro. Revestia-se de uma intencionalidade que culminava na realização do Banquete de Isaías. Contudo, se para os rejeitados de Israel estas refeições eram um acontecimento libertador, para outros constituía um escândalo:


«Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e seus discípulos.Os Fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» Jesus ouvi-os e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes.Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.» (Mt 9,10-13)




O choque e a indignação dos fariseus não se justificavam somente pela quebra das normas de pureza ritual. Era algo mais…
No mundo antigo oriental, partilhar a refeição na casa de alguém significava uma das honras maiores e das melhores expressões de amizade que se podiam manifestar! Especialmente entre Judeus, a mesa tinha um carácter sacral. Uma refeição partilhada com convidados implicava a formação de uma comunidade diante de Deus. Mas Jesus atrevia-se a constituir uma “comunidade sagrada” com… pecadores.
A ruptura desta tradição ancestral e patriarcal constituía uma blasfémia grave e subversiva dirigida directamente ao “Deus da Lei”.

Porém, Jesus tem de romper com estas “tradições” exclusivistas e puramente humanas de separação social para dar cumprimento à grande Tradição profética de um Deus Salvador. Um Deus inclusivo que Salva acolhendo e reunindo em primeiro lugar todos os seus “filhos famintos” para uma mesa farta e abundante.


Como sempre, os líderes religiosos, insistindo na autoridade das suas tradições, rejeitam este horizonte profético, e de coração endurecido, acabam por atribuir ao Mestre de Nazaré o título infame de «comilão e beberrão» (Lc 7, 31-35).


Jesus porém está a abrir um convite irresistível a todos, começando precisamente pelos «não-convidados» do seu tempo. Assim torna-se no comensal e anfitrião por excelência de muitas ceias.
Senta-se com eles, à vontade e à mesma mesa saciando-lhes a fome de acolhimento e aceitação. Com alegria e proximidade, fala-lhes de um Pai de Misericórdia e Bondade e toma a iniciativa de abençoar os alimentos, partilhando com eles a convivência favorável, o Perdão, e a amizade incondicional de Deus. Quase que podemos captar neste gesto memorável as palavras do Mestre: “o que faço aqui, em convívio de mesa, a partilhar a minha alegria e a partir-vos o Pão, é o que Deus mesmo está a fazer convosco! Ele está a abençoar-vos, a servir-vos e a tratar-vos como os seus convidados de honra.




Neste gesto de Jesus, em comunhão de mesa com pecadores, também estava implícito um sinal Real. Se, por exemplo, um Rei convidasse um prisioneiro importante a comer à sua mesa significava conceder-lhe uma amnistia. Exprimia um acto público de reabilitação de um cativo!
O segundo livro dos Reis conta-nos como o rei da babilónia concedeu amnistia a Joaquin de Judá (2 Re 25,27-30). Concedeu-lhe privilégios, e até um lugar de destaque relativamente a outros cativos na Babilónia. Mudou-lhe a roupa de prisioneiro, pagou-lhe uma pensão diária e o fez comer à sua mesa. Enquanto viveu, ninguém podia tocá-lo ou maltratá-lo pois estava sob protec
ção real, apadrinhado como amigo pessoal do Rei.
Jesus ao comer com os pecadores anuncia publicamente e com autoridade que já chegou o Rei de Israel! Um Rei com o poder soberano de libertar os cativos dos fardos pesados da Lei, os anawîm. Chegou o tempo da Salvação e da Graça! Deus já preparou um Banquete e convida os pecadores à sua Mesa para lhes conceder uma amnistia incondicional diante de todo o Israel. Oferece-lhes protecção, e está a reabilitá-los, partilhando com eles a sua realeza e intimidade: deixaram de ser escravos, para agora se tornarem Filhos! Deus é um Senhor e um Pai que teima, que “manda” e ordena fazer Festa com poder e autoridade Reais:


«Trazei a melhor túnica e vesti-o; colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei um vitelo gordo e matai-o. Celebremos um banquete. Porque este meu filho estava morto e voltou à vida. Tinha-se perdido e foi encontrado» (Lc 15,22-24);


«O dono da casa, irritado, disse ao servo: Sai depressa até às praças e ruas da cidade, e traz pobres, mutilados, cegos e coxos. O servo lhe disse: Senhor, foi feito o que ordenaste, e ainda sobra lugar. O Senhor disse ao servo: então sai pelos caminhos e veredas e obriga-os a entrar, até que se encha a casa» (Lc 14, 21-23)


«Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de hospedar-me em tua casa» (Lc 19, 5)


É belíssimo como este gesto de Jesus começa a criar fama, atraindo e aproximando os abandonados de Israel a convívios de mesa onde antes jamais seriam aceites. Lucas conta-nos que este “à vontade” de Jesus com
os pecadores públicos era tão célebre que, sendo convidado à mesa do Fariseu Simão, é visitado por uma mulher de “má fama” que não hesita em lá entrar mesmo sabendo que estava expressamente proibida disso. Ela não tem medo de ser apedrejada, nem sente-se perturbada por invadir a casa de um Fariseu porque estava lá Jesus!!
E isso lhe bastava…

«Por isso, eu te digo, seus numerosos pecados lhe são perdoados, porque ela muito amou
E disse a ela:
- Teus pecados estão perdoados.
Os convidados começaram a dizer entre si:
- Quem é este que até perdoa pecados?
Ele disse à mulher:
- Tua Fé te salvou. Vai em paz.»
(Lc 7, 47-50)

Abster-se desta corrente de Perdão e acolhimento é rejeitar o convite comensal de Jesus. Isso é fatal, porque significa entrar no caminho do malogro. Os fariseus e doutores da Lei ao negar entrar na convivialidade gratuita do Senhor da Mesa, recusam a Salvação que julgavam garantida pelos seus méritos. Jesus adverte-os que aqueles que se colocam fora da lógica da Graça e do Amor são adversários do evangelho e morrerão no seu pecado. Não é Deus que os castiga, mas antes a consequência da sua recusa:

«Atai-lhe pés e mãos e lançai-o fora nas trevas. Aí haverá pranto e ranger de dentes. Pois são muitos os convidados e poucos os escolhidos». (Mt 22,14)

É uma linguagem dura, é certo, mas deve ser interpretada como um clamor à urgência e à oportunidade deste convite que deve ser irrecusável. É bom demais para ser rejeitado!! Tem que se entrar nele! O tempo favorável está à porta e quem está atento e vigilante sentar-se-á no Banquete:

«Felizes os servos que o dono, ao chegar, encontrar vigilantes: eu vos asseguro que se cingirá, os fará sentar-se à mesa e os servirá» (Lc 12,37).

A partir de agora está aberto o Banquete Nupcial do fim dos tempos que anuncia uma Nova Aliança, o Casamento definitivo de um Deus-Noivo que desposa bons e maus, pagãos e judeus, pecadores e justos…
A mesa universal da reconciliação está aberta para TODOS.
É a oportunidade imperdível da Festa, em que já não pode haver lugar para sacrifícios, penitências, jejuns ou recusas.
Chegou a hora das Bodas de Canãa e da Alegria do Vinho Novo.
O melhor ficou reservado para o fim!
A plenitude dos tempos foi inaugurada porque um Filho nos foi dado:
«Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo se salve por meio dele» (Jo 3,17)
Não para condenar,
Mas para SALVAR…
Para SALVAR



“SALVAR”…uma palavra tão densa de significado, expressando mil e uma coisas…
…e todas elas acções de Deus:

ACOLHER, ABRAÇAR, ADOPTAR, SENTAR-SE À MESA, PARTILHAR O PÃO, SARAR, TRAZER ALEGRIA, LIBERTAR, REABILITAR, CUIDAR, FAZER FESTA, ELEGER, CONFIAR, DAR VIDA, ENTRAR EM CASA,
e muito…
muito mais …

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"OS TEUS PECADOS ESTÃO PERDOADOS" [1]


Neste período de quaresma, tempo de preparação para a Páscoa, não me ocorreu melhor ideia que tentar escrever um "hino" ao Perdão manifestado em Jesus, e à novidade libertadora do Reino de Deus. Algo que a mim continua a dizer-me imenso (muito mesmo!), e que hoje faço por partilhar neste espaço...



A proclamação do Perdão sempre fez parte do anúncio fundamental de Jesus. Constituía o primeiro grande sinal da presença do Reino de Deus e do tempo novo da Salvação.


Ele estava decidido a acabar com o maior de todos os pecados de Israel: a separação das pessoas em castas. Na base deste movimento de marginalidade social estava a concepção pervertida da Santidade de Yahvé. Em nome de Deus praticavam-se as maiores injustiças e aberrações humanas:

- Imposição de taxas sagradas a que os camponeses se viam forçados a oferecer para sustentar a rica classe sacerdotal. Muitas vezes a “obrigação sagrada” de pagar o dízimo ao Templo podia ameaçar os poucos recursos das famílias mais pobres.

- A exclusão automática dos enfermos graves (aleijados, leprosos, hemorrágicos…) de todo o contacto humano. Era uma ordem dos sacerdotes cuja desobediência podia incorrer na pena de morte. As doenças e enfermidades eram encaradas como estados de impureza que denunciavam a maldição de Deus e podiam contagiar os demais.

- O desprezo fomentado pelos fariseus em relação às gentes ignorantes das camadas sociais mais remotas. Constituíam famílias e comunidades de pessoas sem formação religiosa da Lei, e por isso também marginalizados como pecadores.

- A desumanidade diante das profissões impuras que instituíam os pecadores públicos: publicanos e prostitutas. Homens e mulheres pressionados para situações limite mais por força das circunstâncias, do que propriamente por escolha própria.




Aos olhos de Jesus, estes abandonados de Israel nunca são “pecadores” - somente usava essa designação para refutar as acusações dos fariseus e doutores da Lei. Segundo Jesus, estes marginais do seu tempo, são carinhosamente apelidados de «pequenos», os desprotegidos e oprimidos pelo impiedoso sistema social e religioso de Jerusalém.


Para os sacerdotes, fariseus, e doutores da Lei, o pecado era uma transgressão que exigia uma pena ou sacrifício. Confundiam o pecado com o pecador, onde por vezes a destruição do primeiro exigia a morte do segundo. Para Jesus não: o pecado é sempre uma doença que necessitava de cura. Por isso mata-se antes o pecado restaurando a saúde do pecador!


Não é que os líderes religiosos não acreditassem no Perdão. Porém, estes “homens santos” proclamavam o perdão dum “Deus de Santidade” separado do mundo e dos homens profanos. Segundo eles, o pecador purificava-se por um processo de penitência, jejuns, contrição e adesão à Lei e ao Culto, com a cessação prévia de quaisquer actividades impuras (cobrança de imposto romano, prostituição,…). Era um Perdão negociado que exigia sempre a iniciativa e aproximação do pecador, implorando a resposta clemente do “Deus Santo”.


Jesus desmonta totalmente esta concepção com uma Boa Notícia: O Perdão nunca é a resposta de Deus, mas antes a sua iniciativa! O Perdão é o Dom do Amor de Deus que destrói o pecado pela Sua proximidade com o pecador – nunca pela Sua separação – e antes de todo o arrependimento. Jesus proclamava com Autoridade: «os teus pecados estão perdoados!» Proclamava-o antes de qualquer disposição ou intenção de quem o escutava. Proclamava-o como uma ACÇÃO oferecida de antemão, gratuita, imerecida, e definitiva que só pedia abertura e o acolhimento na Fé:

«Não temas, somente tem Fé» (Mc 5,36)

«tudo é possível para aquele que crê» (Mc 9,23)

Diante de todo o Israel, Jesus anuncia pelo seu contacto com os excluídos e impuros que o Perdão de Deus é o sinal da Sua soberana Liberdade de amar. A santidade de Deus não depende das exigências de ritos e normas cultuais, mas manifesta-se agora como GRAÇA.


O Deus da Graça elegeu e libertou um bando de escravos do Egipto sem qualquer justificação, nem nenhum mérito precedente. Fez Aliança com eles, congregando-os como um povo simplesmente por causa da Sua Bondade. O Deus da Graça que sempre amparara o órfão e a viúva, é o mesmo que agora ousa “sujar-se”, e “misturar-se” com os impuros, excluídos e estrangeiros de Israel.

O escândalo de Jesus é manifestar um Deus que Jamais se “enoja” ou se ofende diante do nosso pecado. Pelo contrário, o pecado e suas consequências são razões mais fortes para que Deus ame ainda mais o pecador.


Um pecador encontrado, cuidado e reintegrado na sociedade valia muitíssimo mais aos olhos de Deus do que 99 fariseus observantes da Lei, 99 sacerdotes zelosos das oferendas sagradas, ou 99 homens de rectidão impecável: cada excluído valia por todo o Israel (Lc 15,7)! Cada um destes «pequeninos» com quem Jesus se cruzava tornava-se seu(ua) amigo(a), e irmão(ã) inseparável.


Seria então a Graça deste Deus ainda maior do que a sua Santidade?

Jesus revela muito mais: a única Santidade de Deus é a sua Misericórdia! Ele é Santo por causa do seu amor de predilecção, porque tem “entranhas de Mãe” (expressão hebraica que se traduz como rahamim)! É uma misericórdia nítida na imagem de um pai que não se ofende pelo filho exigir-lhe a herança ainda em vida (Lc 15,11); ou pelo mesmo pai que corre como um velho tonto, sem nenhum pudor pela figura austera e patriarcal, escandalosamente abraçando e cobrindo de beijos o seu “filho impuro” (Lc 15,20).


O anúncio extraordinário deste Perdão ia muito para além das palavras, porque sucedia como uma experiência íntima sem paralelo, provocada pelo encontro face a face com Jesus. Os «pequenos» procuravam nele uma acção terapêutica, não para encontrar remédios, mezinhas ou receitas de curandeiro, mas porque reconheciam naquele homem alguém habitado pelo Espírito de Deus, alguém cuja terapia era ele mesmo! E eles sabiam-no tão bem:


Sabiam como Jesus contagiava neles saúde, alegria e vida;
Animados pela ternura e o tremendo afecto dos seus gestos, sentiam a força libertadora do seu toque pelo modo como os tomava pela mão, abençoava, e abraçava;
sabiam agora que eram dignos de ser amados,
como autênticos filhos de Israel;
preciosos aos olhos de Deus;
queridos, especiais,
válidos…

Sim, eles sabiam…

Sabiam que com o Mestre de Nazaré o Perdão ocorria sempre como o irromper de um fascino surpreendente e uma alegria inesperada.

Muitos deles testemunhavam com euforia desconcertante como se sentiam curados, sarados das lepras da exclusão e dos fardos da culpa. Agradeciam e louvavam pelo modo como aquele Galileu despertara-lhes a confiança em si próprios; da forma como activara neles energias internas e forças psíquicas para superarem os seus bloqueios e medos.


Em Jesus experimentavam um Deus inesperado, e tão diferente das tantas máscaras que desfiguravam o Seu Rosto Salvador…

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

“Um homem descia de Jerusalém para Jericó...”




«As parábolas não servem para ilustrar um ponto de vista. São acontecimentos fortes que nos mudam. Mudam as nossas vidas virando-as do avesso.


Um rabi judeu contou a seguinte história passada com o seu avô nos tempos em que este fora aluno do famoso Rabi Baal Shem Tov. E disse:
«O meu avô estava paralítico há muitos anos. Um dia pediram-lhe que contasse uma história do seu professor e ele contou como o santo Baal Shem Tov costumava saltar e dançar durante a oração. Ao contar a história, entusiasmou-se de tal modo que se pôs de pé e começou a saltar e a dançar para mostrar como o mestre fazia. A partir daí, ficou curado. É assim que se devem contar histórias.»


As parábolas de Jesus deviam despertar-nos e arrebatar-nos. Encontramo-nos envolvidos nos seus dramas e elas transformam-nos. Jesus normalmente fazia isto porque conseguia chocar as pessoas. O problema é que conhecemos tão bem as parábolas que já raramente elas nos surpreendem. É como ouvir uma anedota quando já se lhe conhece a piada. Temos de redescobrir o sentido da surpresa.
A parábola do Bom Samaritano escandalizou os que primeiro a ouviram. Precisamos de redescobrir o sentido do choque.

Durante a revolução na Nicarágua, um dominicano americano ajudou um grupo de jovens nicaraguanos a representar a parábola do Bom Samaritano durante a Missa. Representaram um jovem nicaraguano a ser espancado e abandonado meio morto na beira do caminho. Um frade dominicano passou por ali e continuou o seu caminho sem fazer caso dele. A seguir, passou um dos inimigos, um ‘Contra’, trajando o uniforme militar. Parou, pôs-lhe um rosário ao pescoço, deu-lhe água e levou-o até à aldeia mais próxima. Nesta altura, metade da assembleia reagiu começando a gritar e a protestar. Era inaceitável que um Contra pudesse agir desta forma. "São pessoas horríveis e nada temos a ver com eles". A Missa interrompeu-se no meio do caos.


Depois, as pessoas começaram a discutir o significado da parábola. Porque tinham ficado chocadas, conseguiram compreendê-la mais profundamente. Concordaram que no futuro não se refeririam mais aos outros como ‘os Contras’ mas como ‘os nossos primos das Honduras’ ou ‘os nossos primos que estão no erro’... Voltaram a fazer o rito inicial da confissão dos pecados, deram uns aos outros o abraço da paz, e continuaram a celebração da Eucaristia. É assim que nos deveríamos sentir chocados.


O caminho

A história conta-nos uma viagem de Jerusalém até Jericó. Eu fiz essa viagem a pé, descendo a Wadi Quelt. São cerca de 24 Km, através de uma região de deserto rochoso. Fazia tanto calor que um dos meus companheiros ficou um pouco transtornado da cabeça. Mas a história em causa trata de uma viagem mais profunda. A palavra que Lucas emprega para “viagem” é a mesma (hodos) que emprega para fé cristã, “o Caminho”. A parábola é um caminho que transforma a nossa compreensão de Deus e do ser humano.



Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões ?

O doutor da lei pergunta: “Quem é o meu próximo?” E no fim, Jesus coloca uma questão diferente: “Qual dos três mostrou ser o próximo do homem que caiu nas mãos dos ladrões?” A pergunta do doutor põe-no a ele no centro. Quem é o seu próximo? Mas a parábola transforma a pergunta: é o homem maltratado que é, agora, o centro. Quem foi o próximo dele?


Viagem radical

A viagem mais radical que cada ser humano tem de fazer é a da libertação do egoísmo. Começamos esta viagem quando ainda bebés. O bebé recém-nascido é o centro do seu próprio mundo. Crescer é a lenta descoberta de que outros existem e que não existem só para fazer a vontade dele. Por trás do seio há uma mãe. Tornamo-nos plenamente humanos na medida em que aprendemos a ceder o centro a outros.

Para cada um de nós, pois, o maior desafio da vida é deixar de ser o centro do mundo. É uma verdade que se conhece intelectualmente, mas que é muito difícil de praticar. E penso que é particularmente difícil na sociedade contemporânea. A modernidade consagrou a imagem do ser humano como essencialmente solitário, desapegado dos outros, livre de obrigações, descomprometido.



Um Samaritano, ao passar, viu o homem ferido e ao vê-lo teve compaixão

A palavra que traduzimos por “ter compaixão” é uma das mais importantes do Novo Testamento. Significa ser tocado no âmago do próprio ser, nas próprias entranhas. É o choque que nos dá a consciência da presença de um outro.

Em Nova Iorque, foi feita uma experiência com um grupo de seminaristas. No programa de formação para a pregação, pediu-se-lhes que preparassem uma homilia sobre a parábola do Bom Samaritano. Deviam preparar os seus textos e em seguida dirigir-se a pé para o estúdio onde o sermão seria gravado em vídeo. Em certo ponto desse percurso, um actor, representando um homem ferido e maltratado, jazia por terra, coberto de sangue, pedindo ajuda. Oitenta por cento dos seminaristas passaram por ele e nem sequer o viram. Tinham estudado a parábola e feito sobre ela belas composições literárias e, no entanto, passaram ignorando-o. Que teremos de fazer para nos abrirmos aos outros ?



Correr o risco...

A compaixão do Samaritano transtorna os seus planos. Preparara-se para a viagem com comida, bebida e dinheiro. No entanto, usa tudo isso para um fim que não tinha imaginado. Dois denários era muito dinheiro, o suficiente para pagar mais de três semanas de estadia com pensão completa. Dá mesmo o que não tem, o que contava vir a ganhar em Jericó. Arrisca fazer uma promessa em aberto que não sabe onde o levará.


Quando o doutor da lei pergunta: “Quem é o meu próximo?” o que ele pretende é definir as suas obrigações. Quer saber com antecedência o que precisa ou não fazer. Mas a resposta do Samaritano leva-o para um terreno desconhecido. Não pode saber quanto o estalajadeiro vai pedir.


Há um velho ditado que diz: “Se queres fazer rir Deus, conta-lhe os teus planos.”





A verdadeira compaixão transtorna os nosso planos, e lança-nos no imprevisto.»



Timothy Radcliffe, op "A CAMINHO DE JERICÓ"




sábado, 14 de fevereiro de 2009

Liturgia - 6º Domingo, Tempo Comum


Depois de algum tempo de ausência neste blog, hoje gostava de partilhar aqui a introdução e a oração dos fieis da nossa eucaristia de Gaia. Umas vezes é o meu irmão Rui Pedro que prepara, hoje a tarefa tocou-me a mim. Posto-a aqui para juntos celebramos a alegria e a vivência comum da Fé. Até breve...


Introdução

Irmãos

Hoje estamos reunidos para celebrar o tempo favorável; o tempo da Alegria e da Salvação permanente dado em Jesus Ressuscitado. Já não há barreiras, medos, ou obstáculos. Já não há separação entre puros e impuros, porque TODOS fomos santificados, curados, purificados e revestidos do Homem Novo pelo Baptismo no Espírito.
Somos um Corpo Vivo com Jesus de Nazaré porque ele já nos tocou. Já limpou as lepras que nos separavam e nos oprimiam. Por isso, com ele, formamos um Só Corpo: Santo, Saudável, Vivo e glorioso!
Eis a grande Notícia: somos SANTOS. Não pelos méritos que acumulamos, ou por alguma coisa que fizemos, …mas por pura Graça daquele que continua a estender-nos a mão, a convidar-nos à Mesa do Banquete do Reino, e a realizar a comunhão fraterna dos Salvos.




Oração dos Fieis


Pai Santo:
Ajuda-nos a experimentar a alegria de vivermos como salvos. Ensina-nos, Pai, a permanecermos fiéis à Graça do nosso Baptismo, e respondermos ao Teu Projecto duma Humanidade Nova e curada na comunhão com Jesus
Oremos Irmãos

Pai Santo:
Desejamos ser Felizes na dependência do teu Amor e no Perdão fraterno. Abre-nos à urgência da comunhão com aqueles que estão longe, e ainda não conheceram a proximidade de irmãos. Enche o nosso coração da tua compaixão, Pai Santo, para que sejamos sinal visível e eficaz da tua Misericórdia
Oremos Irmãos

Pai Santo:
Pedimos-te pelos tristes, os amaldiçoados e todos quantos carregam as feridas da incompreensão e da intolerância. Ajuda-nos, Pai Santo, a exercermos o ministério da Reconciliação, e sermos mediação de Jesus Ressuscitado, a Árvore da Vida cujas folhas curam toda a humanidade
Oremos Irmãos


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Mãos à OBRA...






Pára e Escuta


Vive sempre no Presente


Saboreia a beleza da Vida


Conquista os teus medos


Arrisca sempre nas opções


Compromete-te nas decisões


Assume os desafios que a vida te propõe


Abre-te ao outro. Não vivas em espiral


Cria raízes profundas de intimidade no Espírito, para sorveres do leito de Deus


Acredita sempre – sempre! – que apesar dos teus desencontros e fracassos, és amado(a)


Transparente e Fiel a ti mesmo(a)


Audaz


Livre


Morre bem para que possas Renascer Bem






A Vida continua...e a Obra também...


A OBRA...

TUA...

CRESCE...

CONTINUA...



CONTINUAS...HOJE...

AGORA...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Hoje, assim, diante de mim...



O que escrevo aqui hoje é uma tentativa de significar um acontecimento vital que sucedeu comigo há bem pouco tempo. Um acontecimento, uma experiência Grande e Boa demais para guardar. Porque afinal as melhores experiências são pessoas!

E garanto-te que hoje revelo-te alguém não só muito especial para mim, mas sobretudo alguém que creio ser um Dom para nós…





Hoje. Há muito que não experimentava um dia assim…há muito mesmo



Hoje… apanhaste-me desprevenido e não o imaginava assim, não desta maneira nem depois de tudo o que passaste…

Envolvente, imenso, e desconcertante… assim é a Beleza do Mistério que te habita!
O Mistério bom que ainda és para mim.

Comunicaste-me uma Boa Notícia que encerra o âmago da própria Vida. Algo tão excepcionalmente sublime e autêntico…que ainda o mastigo por dentro.
Saboreio com um encanto louco as tuas palavras, mas não me atrevo a revelá-las ainda. Não…não assim cruamente, nem já.

Primeiro estás Tu o teu contexto! Primeiro toda a gente tem de saber quem és para se darem conta da Notícia tremenda que há em ti!! Por isso aqui vai:



Conheço a tua história…

Conheço-a muito bem porque a vivi contigo desde menino, no tempo onde entraste na minha vida como “o tio doente que vem morar connosco”.

Com apenas 6 anitos, recordo-me de chegares lá em casa e ainda te apoiavas num andarilho. A avó conduziu-te ao quarto que passou a ser o teu lar improvisado por 8 anos; teu e dela, porque desde esse dia nunca mais a vi separada de ti. Dormindo numa cama junto à tua, a cuidar-te, lavar-te, vestir-te, alimentar-te…enfim, a amar-te. E que bem ela te amou! Tão bem…

Não demorou muito tempo até eu saber porque estavas assim:

Num dia de viagem um camião chocou contra o teu carro, esmagando ainda mais viaturas pelo caminho. E enquanto os bombeiros acudiam as outras vítimas, ficaste encurralado no lugar do condutor com a coluna vertebral afectada. Felizmente conseguiram-te retirar, mas não era o fim do drama, somente o começo…
Uns dias mais tarde, os médicos diagnosticaram-te tetraplegia irreversível e não mais do que alguns anos de vida…
Assim, pouco a pouco, e num curto espaço de tempo, os teus membros foram-se desligando um por um: primeiro as pernas, depois os braços, as mãos, até que quando eu completei 7 anos…só conseguias mexer a cabeça. Como se isso não bastasse, durante esse tempo, enquanto a paralisia progredia, a tia pediu-te o divórcio e a minha prima teve de ficar na custódia dos avós maternos…

Eu não ouso sequer imaginar o que sentiste naqueles tempos, e ainda hoje…

Mas a verdade é que apesar de tudo; sim, apesar de tudo isso, desde a infância, não me recordo de te ver desesperado ou frustrado. Nunca. Nem por um instante!
Ainda que desabafasses o quanto te custava aquela situação, em nenhum momento senti em ti revolta ou ressentimento;

A paz iluminava teimosamente o teu rosto, e apesar dos teus momentos difíceis lá em casa, a serenidade e a boa disposição eram a tua imagem de marca, sempre!
Contudo a resignação também não te dominava. De modo nenhum! Foste persistindo e resistindo com o andar do tempo. E sei os mil e um esforços que empenhaste para procurar ainda uma solução de última hora, um milagre da medicina ou outro qualquer que pusesse termo à tua invalidez. E quando finalmente te convenceste que a situação era irreversível, ainda assim… não desististe de ti.

Também me lembro muito bem das horas que passavas vergado na cadeira de rodas, com os olhos cerrados, em silêncio, perdido num mundo ainda desconhecido para mim. É certo que o fazias para esquecer as dores que já te atormentavam. Mas mais tarde confidenciavas-me como passavas momentos muito bons assim, junto de Deus, saboreando o lado de dentro da vida, o lado que hoje confirmo visível, diante de mim.

Com efeito, eu já experimentava em ti alguém muito especial:

Com um sorriso, contavas sempre anedotas e histórias engraçadas. Eu pequenito, às vezes, sentava-me ao pé de ti enquanto a avó te dava de comer, e ria-me à fartazana a ouvir as tuas traquinices. Recordo-te com carinho como uma pessoa muito fraterna, excepcionalmente alegre e eloquente. Por isso não me admirava que tantos amigos te visitassem! As longas horas a fio que passavam contigo, cativando-se com a tua presença. Tal como hoje…

Por vezes, a avó pedia que se despedissem, porque já não aguentavas sentado por tanto tempo. Tem graça, era preciso ela tomar sempre a iniciativa porque de ti ninguém ouvia sequer uma lamúria ou uma queixa. E poderia ser de outra maneira? Precisavas de conviver, comunicar, sentir-te querido e desejado. A companhia dos que amavas e estimavas fazia-te sempre esquecer a dor…

E que vontade! Ai que vontade manifestavas… uma vontade imensa de abertura, bem-querer e comunhão! Por isso nunca notei em ti um pingo de egoísmo ou auto-enroscamento. Às vezes via-te mais preocupado e atribulado com os outros do que contigo. Mas certamente também foi o que te manteve Vivo por tanto tempo…

Entretanto os anos foram passando, tu e a avó já tinham casa própria e uma senhora suficientemente generosa para dispor-se a morar convosco e cuidar dos dois. Contudo, algum tempo depois aconteceu o que todos esperavam, mas para o qual não estavas preparado: a avó morreu…
A tua Mãe, enfermeira, e confidente deixava-te após 15 anos de cuidados e ternura intensivos. Como foi duríssimo e doloroso para ti…

De repente, os teus irmãos e cunhados já murmuravam: “preparem-se! Ele não há-de durar muito mais. Isto acabou com ele!”. Mas, apesar do choque e da solidão que sentiste; e contra todas as expectativas e previsões… já se passaram 10 anos e ainda estás connosco!

Porém, os últimos tempos não te deram tréguas.

A doença avançou e já te dificulta a respiração. Não aguentas muito tempo a falar. A vista e a audição enfraqueceram muito. Agora nem és capaz de ler um jornal, e não há óculos que te valham. As dores agora espalharam-se por todo corpo e já não suportas mais de meia-hora sentado. Dormes somente duas a três horas por noite, e a medicação para o sono deixou de fazer efeito. Sei perfeitamente o que tens passado…

Há pouco tempo confidenciavas-me com amargura que já era demais. Sim é verdade que era demais!Há limites…e aceitava que mais dia, menos dia, ias atingir os teus. Quanto a mim, não podia fazer mais nada senão ficar contigo, em silêncio… ao pé de ti. Enfim, eu já agradecia por teres suportado e vivido tanto até agora, mas…

Doía-me ver-te assim. Via-te mais abatido do que nunca e a alegria de outrora deixara-te. Às vezes desejava no meu íntimo que a morte te visitasse mais cedo, porque mais do que a tua enfermidade, não suportava ver-te naquela exasperação.

Já me ia convencendo que aquele que conheci, e que tanta vida me inspirou no passado, tinha finalmente sucumbido perante o peso de tanto tormento. E de algumas semanas para cá não deixava de pensar nisto… até hoje…

E hoje revi-te novamente, na mesma posição que te encontro sempre: deitado e molestado por dores incríveis como tantas vezes me confessas. Como de costume, sentei-me ao lado da cama e saudei-te. Conversamos sobre coisas de família, e quando partilhamos o que ia no coração de cada um, aí notei que estavas diferente. E foi então, enquanto palavra puxava palavra, que…de súbito me sussurraste:



“Tu sabes que já estou assim há 28 anos. Mas olha, apesar de todas as contrariedades, hoje dou-me conta que sou Feliz, sou mesmo Feliz. Sinto-me Feliz!”



A primeira reacção já não sei se foi choque ou apatia, mas ainda tentava perceber se estava a sonhar ou acordado! Porém, enquanto te escutava, fitei o teu rosto: o olhar sereno, a firmeza da tua voz, a solenidade com que o disseste…caramba. Era mesmo verdade!!! Será possível?

E que dizer mais? Haverá palavras? Nelas não cabe certamente o que aconteceu contigo…e comigo.


Parece romântico… Mas é verídico! Aconteceu. Hoje. É verdadeiro. Real. Aconteceu. Hoje. Diante de mim.

...



E uma coisa é certa: não foi uma explosão de optimismo que te invadiu! Não foi um “vype” que te deu assim… é impossível porque sei muito bem como a realidade te visita, e não é com “açúcar”. Não! Também não foi uma ilusão porque a tua circunstância nunca te deu margem para isso!

Então o que é? O que te faz dizer isso? O que te faz dizê-lo, senti-lo e vivê-lo assim no meio da pior fase da tua vida? O quê?

…E quanto tempo há-de durar esta nova fase? Será “fase”? Ou um salto qualitativo que deste?

Vamos continuar a aguardar, vamos esperar...
A história ainda não terminou. Continuas a ser o autor e insistes em seres tu, e somente tu a dar-lhe uma conclusão, não as tuas circunstâncias…

Como aconteceu isso dentro de ti? A verdade é que não sei explicá-lo…

Mas quero...
e preciso...
de Agradecer, e partilhá-lo assim:




Hoje confirmo que o sofrimento ainda não tomou a última palavra para te silenciar.

Hoje saboreio que sempre viveste mais reconciliado do que conformado com a tua situação. Por isso és mesmo alguém que continua a amar a vida de verdade!

Hoje exulto por compreender que acontece em ti um Mistério inesgotável. Algo que só tu o vives e compreendes como ninguém…

Hoje fazes-me tão bem porque me mostras que os impossíveis de Deus afinal estão ao alcance de um olhar, de um toque, de uma intimidade e duma história como a tua…

Há quem diga que em ti há uma força sobre-humana. Eu prefiro dizer que revelas o que em todos nós há de mais humano.

Por isso, Hoje estou seguro, e sou testemunha que és dos rostos mais belos da Homem Novo. E tenho tanto, mas tanto orgulho de ser amado por ti!

Hoje sinto-me tão grato por te conhecer desde há tanto tempo; por ser tão marcado pela tua presença; por ainda me surpreenderes assim. És sem dúvida a pessoa que mais admiro…

Hoje não podia deixar de dizer-te, e partilhar-te, porque és bom demais para seres somente o meu tio.

Hoje partilho-te porque estou seguro que muita gente precisa de saber que há mesmo seres humanos assim! Só por conhecerem a Boa Notícia que existes, que és real, que és alguém…


Sei que não foi a tetraplegia que te fez assim, e não és especial por sofreres de invalidez!
Foste tu, apesar da tetraplegia, que te fizeste assim, especial.

Ahh e se foste assim, e se Hoje és, … Quem serás Amanhã?



Tu estás Vivo! És nosso! És tão nosso!
Não abdicamos de ti, nós todos que procuramos uma vida com sentido,
nós que ansiamos acolhê-la em plenitude! És e serás nosso para sempre.
Sim, porque tenho a certeza que a tua Vida está marcada com o selo do que é eterno e não morre. Tenho a certeza absoluta que no dia do teu último parto a Comunhão Universal será ainda mais dilatada pela plenitude do que construíste. Aí serás Um com todos os Viventes, e neles com Aquele que suscita já em ti, e suscitou desde sempre, o melhor.

Aí tenho a certeza, nesse Céu, e contigo, Deus será ainda mais Deus…


quinta-feira, 15 de janeiro de 2009




« O mundo está cheio de surpresas que nos põem a caminho.
Como aquela criança que olhava para o pai. Este dizia-lhe: "Vês
aquela coisa grande, ali, alta, é uma árvore. E aqui - enterrava uma
sementinha - vai nascer uma como aquela." A criança abria a boca de
espanto e sorria. Acreditou. Não é que tivesse lógica, mas era o pai que
dizia»

Vasco Pinto Magalhães, s.j.