sábado, 20 de agosto de 2011

A PARÁBOLA DO SEMEADOR - I



«Escutai: o semeador saiu a semear. Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho e vieram as aves e comeram-na. Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra e logo brotou, por não ter profundidade de terra; mas quando o sol se ergueu, foi queimada e, por não ter raíz, secou. Outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, sufocaram-na, e não deu fruto. Outra, caiu em terra boa e, crescendo e vicejando,deu fruto e produziu a trinta, a sessenta, e a cem por um» E dizia: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça»

Marcos, 4, 1-9.



É curioso como actualmente tantos cristãos dão uma carga moralista a esta parábola. Fartam-se de nos encher os ouvidos que devemos ser a “terra boa”, que devemos limpar espinhos, e afastar as pedras do caminho, que devemos preparar a terra para que a semente germine…este tanto “deve-haver” não muda nada, e nada tem a ver com lógica do Deus de Jesus.


Como em tudo, há sempre uma razão de fundo por detrás das interpretações mais “tradicionais”. Ora isso deve-se ao facto do próprio evangelista pôr Jesus a explicar esta parábola uns versículos mais à frente – coisa que ele nunca fazia. Porém, Marcos opta por acrescentá-la não porque fosse ipsis verbis um ensinamento de Jesus, mas porque era uma necessidade da sua comunidade.


Possivelmente o fez para que todos abrissem o coração à Palavra, associada alegoricamente à expressão “semente”, ou para dar ênfase à urgência de acolher a Boa Notícia do Evangelho perante as dificuldades de integração das primeiras comunidades. Ao seu jeito, Marcos produziu uma interpretação legítima da parábola, que é importante e tem o seu lugar no coração do Evangelho, mas que, a pouco e pouco, fomos descuidando o seu sentido, degenerando hoje num moralismo inconsequente…


Bom, mas mais importante, foi o facto de Marcos deixar-nos intacta a narração da própria parábola, o mais próximo possível da originária. E para quem estiver atento, convém recordar o título: "o semeador". Jesus ao contá-la não pretendia prender a atenção dos seus ouvintes na qualidade dos terrenos, mas num Semeador...


É neste Semeador que Jesus deseja revelar o rosto do Pai e a força do seu Reino. E conta-a a gente habituada às agruras da vida do campo, e sobretudo, “desesperançadas” por tempos tão difíceis que viviam…


domingo, 12 de setembro de 2010

6 BILIÕES COMO TU - " A FELICIDADE" II



«Experimentei uma alegria imensa recentemente quando trabalhava num orfanato. Havia lá uma menina que tinha sido abandonada aos 11 meses, ainda bebé. Fora abandonada na rua, e as irmãs no orfanato adoptaram-na e receberam-na. Então esta pequena bébé estava muito, muito triste, e chorava. E eu estava tão comovida por ver esta criancinha a experimentar tanta tristeza ainda tão nova. Todos os dias ia vê-la, a ver se conseguia pô-la a sorrir, ou a fazê-la dançar…e finalmente, passadas duas semanas, ela fitou-me com um sorriso magnífico. Foi aí que senti pura alegria!»
SUIÇA






«Eu penso que o melhor momento da minha vida aconteceu quando estive recentemente no Iraque, com o exército. E ali havia gente local a trabalhar na base, que não sabia falar inglês. Uma vez, um pai e o seu filho vieram à cave para reparar a electricidade. Todos os dias almoçávamos juntos e falávamos sobre tudo. Eu falava somente em inglês, e eles falavam somente em árabe. Algumas vezes fazíamos desenhos, mas sempre sabíamos do que falávamos, e foi aí que percebi que a linguagem não é uma barreira. Nós podemos comunicar sem falar a mesma língua. E isso mudou toda a minha vida, só por o entender.»
EUA, Los Angeles







«Eu, de facto, gosto de dar. Porque sinto que se faço as pessoas felizes, eu sou feliz. Talvez seja uma espécie de egoísmo. Não sei. Porque queres ser feliz, por isso, ou dás ou ajudas; não sei se é isso, mas eu quero ser feliz, por isso, faço as pessoas felizes.»
SUIÇA










«Eu sou infinitamente feliz, porque tenho um grande marido. É como se tivesse uma arca cheia de ouro em casa. É verdade! Perguntem aos meus vizinhos: ele é como uma arca cheia de ouro. Ele respeita-me e eu respeito-o; até mesmo quando comete erros, como por exemplo, quando faz apostas de futebol. Ele não diz nada, limita-se a pagar. Eu aturo isso. Eu amo-o e sigo-o...»
CAMBODJA









«A minha felicidade é estar com a minha namorada. Ela faz-me feliz. Ela mantém-me afastado do álcool, do tabaco, e outras coisas más. Ela diz-me o que fazer da minha vida, dá-me inspiração e confiança.»
ÁFRICA DO SUL










«Eu não sei…tive tantos momentos maravilhosos. E às vezes os melhores momentos nem sempre são conhecidos no tempo em que ocorrem. Por vezes, uma tragédia é o melhor momento, tu não o sabes na hora. Outras vezes, quando te magoam, ou és travado na tua ambição, ou acordas do teu ego, ou da tua cobiça, e estás a sofrer. Às vezes é esse o mais importante e o mais feliz momento da tua vida, porque é aí que te encontras em alerta, de olhos abertos, e sincero, talvez pela primeira vez a respeito de certos aspectos sobre ti mesmo. A vida não é um problema para ser resolvido. Eu penso que a vida é antes um mistério a explorar. E por isso, ainda não sei qual o melhor momento da minha vida. Tenho a certeza absoluta que ainda está para vir, ainda estou à espera.»
EUA, Los Angeles (Actor de Hollywood)








«Felicidade…
A felicidade é…
Felicidade é a verdade.
Felicidade é…dizer a verdade e saber que foi ouvida.
Felicidade é ver a justiça a ser feita.
Felicidade é ver uma criança a comunicar com a sua imaginação, e deixá-la correr livremente. Felicidade é dançar, felicidade é um mango.
Felicidade é…oohh…a felicidade está potencialmente em todos os momentos.
A felicidade está tão perto, tão perto, tão perto de nós o tempo todo.
Nós conseguimos fazer sorrir uma criança tão facilmente. E é aí que a felicidade salta fora daí mesmo.
Oohh, a felicidade está em toda a parte, mas não é algo grande, ou barulhento.
A felicidade não é uma coisa expansiva.
Felicidade é uma pequena e serena relação humana»

EUA, Los Angeles

domingo, 5 de setembro de 2010

6 BILIÕES COMO TU - " A FELICIDADE" I



Hoje partilho neste espaço algo diferente: Veio até mim, inesperadamente, numa tarde de Verão, depois de almoço e do telejornal do canal 2. Esta série documental deixou-me simplesmente encantado e boquiaberto pela tremenda simplicidade, e densidade humana que emana.

Bom! Não vou ceder à tentação de descrevê-lo ou dar demasiadas explicações por postá-lo aqui. O programa falará por si mesmo, assim, sem mais…




O PROJECTO “6 billion others”…


«Um conceito simples: Partir ao encontro de 6 biliões de habitantes do planeta, escutar as suas histórias, e partilhá-las connosco.
Nos últimos 15 anos Yaan Arthus-Bertrand passou milhares de horas a sobrevoar o planeta, maravilhando-se com a sua beleza infinita, profundamente comovido pela sua óbvia fragilidade.


Tudo parece tão simples visto do céu, mas lá baixo somos confrontados pelas fronteiras, antagonismo, separações, mal-entendidos, ignorância entre uns e outros. Por isso era tão importante deixar que mulheres e homens do nosso planeta se expressassem, recolhendo as suas experiências e filosofias de vida, as suas visões do mundo e partilhar com eles. Neste caso, 5000 homens e mulheres descrevem vidas e esperanças, as suas alegrias e angústias, riso e lágrimas e relações com Deus, o diabo, amor, vida, morte, e por aí além…

O pescador Mali, o trabalhador brasileiro, a mulher arménia, o guerreiro afegão, o padre alemão, o agricultor americano, o mercador russo, o rebelde japonês, o varredor de rua australiano, o refugiado ruandês…todos eles falam connosco (…)
Vamos ficar à escuta, onde nos sentiremos tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes, tão próximos e tão distantes de todos os habitantes do planeta»


PRESS KIT 6 billion Others
A project by Yann Arthus-Bertrand
produced by Baptiste Rouget-Luchaire and Sibylle d’Orgeval




FELICIDADE...
(alguns testemunhos)








«A felicidade? Gritando, talvez, que sou feliz, porque também não há palavras para dizê-lo…»
BOLÍVIA











«Eu não sei se sou feliz. Os franceses têm uma expressão: ‘sentires-te bem na tua pele’. Eu quero isso»
ROMÉNIA










«O que é a felicidade? A felicidade é encontrar novidade em tudo o que fizeres todos os dias. Repetindo o dia anterior, começando de novo como se fosse a primeira vez»
ITÁLIA










«No outro dia tive esta ideia, - que soa mesmo tola -, tinha esta ideia que qualquer coisa fabulosa ia acontecer-me; todos os dias! E pensei: ‘ e se todos os dias eu pensasse: UAU! Alguma coisa fabulosa vai-me acontecer hoje!’. Isto soa a cliché, mas a verdade é que durante o dia inteiro só me perguntava: ‘Uau, mas que coisa espantosa vai-me acontecer? Será que já aconteceu? Será que a perdi, ou ainda está para acontecer?...’»
ESTADOS UNIDOS, Los Angeles










«A coisa que me faz mais feliz na minha vida é acordar de bom humor pela manhã! Quando isso acontece, tenho o dia ganho! Tudo que acontecer durante o dia será um triunfo…»
ITÁLIA










«Ah, o conceito de felicidade. Por exemplo, depois de um dia de trabalho, regresso a casa e a minha mulher preparou-me um jantar maravilhoso que me delicia. Isso é felicidade, apesar do meu cansaço. Eu adoro passar tempo com a minha querida família, especialmente com a minha filha que me conta como lhe correu o dia na escola: faz-me muito feliz.»
CHINA, Pequim









«A felicidade? A felicidade são pequenos momentos na vida. Pequenos momentos… Se não te deres conta quando passam, passou e nem te apercebeste. É como um jogo de palavras, um pouco filosófico. São pequenos momentos, de muito, muito, muito grande importância; porque não acredito que nenhum ser humano conheça a felicidade completa. Não me parece.»
CUBA








«Para mim, a felicidade, é ver os meus pessegueiros crescer, e ganhar a vida com eles. Isso faz-me feliz. E que os meus filhos já são crescidos, isso faz-me feliz.»
BOLÍVIA













«O que me faz feliz é ter água. É o elemento básico para toda a actividade humana. Eu sou feliz por ter água. As pessoas vêm a minha casa porque tenho água. E fico feliz por isso.»
MADAGÁSCAR













«Claro que há muitos….mas, o momento que mais alegria me deu foi partilhar com a minha avó uma tarde no terraço, onde ela me ensinava a fazer croché com uma agulha, e ela sentia que me ensinava algo muito importante para mim…e…foi um momento bonito.»
BOLÍVIA






Continua...

domingo, 29 de agosto de 2010

COMO JESUS VIVIA DEUS






«Tu estás interessado por Deus. É natural que te interrogues se crês nele ou se a tua fé vai-se apagando a pouco e pouco. Mas o importante e decisivo é perguntarmo-nos em que Deus cremos e como o vivemos; que lugar ocupa na nossa vida e como a transforma no nosso dia-a-dia.


Já sabes o que se passa frequentemente connosco, os crentes. Dizemos que “cremos” em Deus, mas na prática vivemos de um modo ateu: como se Deus não existisse. Na hora da verdade, Deus apenas tem importância na nossa maneira de orientar e organizar a vida.


Certamente tu mesmo conheces alguns cristãos cuja vida pouco ou nada mudaria se algum dia deixassem de “crer” em Deus. Talvez deixassem de ir à missa, mas o seu comportamento, o seu modo de pensar e de actuar não mudaria muito. Deus apenas significa algo na sua vida.


Já te perguntaste alguma vez como Jesus vivia Deus? Pode-te fazer bem conhecer melhor a sua experiência. Para ele, Deus é um estímulo que o impele a construir um mundo mais humano. Deus não é uma força conservadora, mas um apelo a mudar e melhorar as coisas. Se um dia te deixares apanhar por Deus, sentir-te-ás chamado a trabalhar por uma sociedade mais justa e mais digna para todos. Serás incapaz de ficar passivo. Deus tem um grande projecto. Há que construir uma nova terra, tal como ele a deseja.


Segundo Jesus, Deus quer a vida, está sempre do lado das pessoas e contra o mal e o sofrimento. Vive Deus como uma força que o impele a libertar as pessoas do mal e leva-o a lutar contra tudo o que magoa alguém. Por isso, Jesus dedica-se tanto a lutar contra as injustiças, abusos, mentiras, poderes e sistemas que desumanizam a vida e geram sofrimento. Quanto mais creres no Deus encarnado em Jesus, com mais força e coragem trabalharás contra tudo o que estropia a vida e a torna mais indigna e infeliz para muitos.


Jesus vive Deus como uma força curadora. A Deus interessa-lhe a saúde dos seus filhos e filhas. Por isso Jesus se dedica a curar, a aliviar o sofrimento e a sanar a vida do seu povo. Deus deseja uma vida mais sã, mais feliz e mais amável para todos. Se tu crês no Deus de Jesus, hás-de aproximar-te das pessoas que sofrem. Farás o possível por trazer a paz e a alegria àqueles que vivem tristes. Semearás força e esperança nos que se encontrem deprimidos. Saberás consolar e acompanhar.


Deus é, antes de mais, para os pobres, os indefesos, os que não têm ninguém. Era assim que Jesus viva Deus. Por isso defende os pobres dos poderosos que os exploram, acolhe as crianças apertando-os contra o seu peito, abençoa os que sofrem. Jesus dedica-se a todos, mas começando sempre pelos últimos. Se te sentires um dia mais cheio de Deus, irás preocupar-te mais pelos últimos, os mais débeis, os mais desvalidos, os mais solitários. Talvez não possas fazer grandes coisas, mas o teu coração estará com eles.



Deus conduz Jesus a acolher os excluídos. É impossível que seja de outra maneira. Deus é de todos e para todos. Não descrimina, não exclui, não excomunga ninguém. Pelo contrário, Deus abraça, acolhe, perdoa. Por isso Jesus aproxima-se dos impuros, acolhe as mulheres, toca os leprosos, come com os pecadores e indesejáveis. Se te deixares agarrar pelo Deus de Jesus, verás a vida de outra maneira. Aproximar-te-ás de forma mais acolhedora dos imigrantes e excluídos. Serás mais compreensivo com os delinquentes e toxicodependentes. Pensarás naqueles que estão condenados a viver praticamente o resto da sua vida na prisão.


Se a tua fé em Deus crescer, a tua vida irá mudando. Quase sem dares-te conta, tornar-te-ás mais humano, mais generoso e mais justo. Entrarás em ruptura com o teu egoísmo. Pensarás nos outros. Vais-te interessar pelos que sofrem. Tratarás de os ajudar. Apoiarás campanhas contra a fome e as injustiças. Aprenderás a fazer pequenos gestos pelos demais. Deus irá transformando-te.»


Creer, para quê? - Como Jesús vivía Dios
José Antonio Pagola






José Antonio Pagola, foi vigário episcopal da diocese de San Sebastian durante mais de vinte anos, e professor na Faculdade de Teologia no Norte de Espanha. Actualmente é director do Instituto de Teologia e Pastoral de San Sabastian, partilhando a sua fé e a sua experiência com grupos de crentes e muitos outros que perderam a fé.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

COMO JESUS SENTIA DEUS?


«Tu tens a tua ideia de Deus. Vives e a sentes de uma determinada maneira. Só tu sabes as reacções que despertam dentro de ti. Atrai-te? Assusta-te? Deixa-te frio ou indiferente? Sentes-te bem com ele? Ou fazes o possível para esquecê-lo?


Não sei se alguma vez pensaste como Jesus sentiria Deus. Para os cristãos é algo muito importante, pois a nossa fé brota da própria experiência de Deus que vive Jesus. E Jesus vive seduzido pela bondade de Deus. Para ele, DEUS É BOM.


Isto é o primeiro e mais importante. Jesus capta o mistério de Deus como um mistério de bondade. Não necessita de apoiar-se em nenhum texto das Sagradas Escrituras. Para ele é uma experiência indiscutível. Deus é uma presença boa que bendiz a vida.


O que caracteriza Deus não é o seu poder. Não é como Júpiter, Apolo, ou Saturno. Não é como as divindades pagãs do império romano, que aterrorizavam os seus fiéis. O que caracterizava Deus não é tampouco a sabedoria, como se pensava em alguns sectores da Grécia. Jesus sente Deus de outra maneira. O mistério último de Deus, o que nos escapa, Jesus capta-o como um mistério de bondade. Deus é bom, deseja-nos muito e somente procura o nosso bem. Tu o sentes assim?


Este Deus bom é um Deus próximo. Jesus vive esta proximidade de Deus com uma simplicidade e espontaneidade assombrosas. O Pai cuida até das criaturas mais frágeis, revela-se aos pequeninos, busca os perdidos. Este Deus encontra-se no núcleo da vida.

Para Jesus, tudo isso não é teoria. Deus está próximo e acessível a todos. Qualquer um pode comunicar-se com ele de maneira directa e imediata desde o mais íntimo do seu coração. Deus fala a cada um sem verbalizar palavras humanas. Até os mais pequenos podem descobrir a sua bondade.



Para o encontro com Deus não é preciso socorreres-te de ritos complicados, nem pronunciares orações solenes. Jesus convida todos a viver confiando num Deus bom e próximo: “Quando orais, dizei: Pai!” Tu sentes Deus assim? Como um Paizinho tão próximo?



Este Deus é bom com todos, não só com os bons. Muitos eram os dias em que Jesus vislumbrava o amanhecer enquanto se encontrava em oração, falando com o seu Pai. Não sabemos como viveria esse momento, mas gostava tanto de dizer: “Deus faz brilhar o sol sobre os bons e os maus. Envia a chuva sobre os justos e injustos”. O sol e a chuva são de todos. Não têm dono. Deus oferece-os a todos como um presente. A ideia de Jesus é clara. Deus não é como nós. Não segue a nossa tendência de descriminar os maus. Deus não é propriedade dos bons. Não pertence somente aos praticantes. O seu amor está aberto a todos, também aos maus.



Esta fé de Jesus na bondade universal de Deus para com todos surpreendia e escandalizava muitos. Durante séculos, tinham escutado em Israel algo completamente diferente. No povo judeu fala-se com frequência do amor de Deus, mas esse amor, havia que merecê-lo. Assim diz, por exemplo, um salmo muito famoso: “Como um pai sente ternura para com os seus filhos, assim sente o Senhor ternura”, mas, por quem? O salmo continuava assim: “…sente ternura para com aqueles que o temem”. Mas, Jesus teria dito: “… sente ternura para com todos os seus filhos”.


Seguramente ouviste muitas coisas acerca de Deus e vais continuar a ouvi-las. Algumas te farão bem, outras nem por isso. Mas tu escuta Jesus! Fixa-te no modo como fala de Deus. Repara como acolhe os pecadores e indesejados. Vai gravando isto no teu coração: Deus é bom e quer-me muito; Está próximo de mim e acompanha-me; Deus ama a todos, ama-me a mim, mesmo antes de eu mudar. E assim, cada vez te sentirás mais atraído por ele.


Se fores conhecendo cada vez melhor Jesus e captares bem a sua bondade com todos, o seu acolhimento e o seu perdão para com os pecadores, a sua proximidade com os enfermos, a sua defesa em favor dos pobres, o seu acolhimento aos excluídos, a sua doação de vida até à morte…descobrirás pouco a pouco que o mistério de Deus incarnou em Jesus e nos foi revelado nele de maneira suprema, única e irrepetível.»





Creer, para quê? - Como sentía Jesús a Dios?
José Antonio Pagola

domingo, 22 de agosto de 2010

A DEUS INTERESSA-LHE QUE SEJAS FELIZ











«Estás seguramente convencido de que, se existe, Deus é bom. Mas está tão distante e é tão grande que provavelmente preocupa-se pouco ou nada com a tua vida concreta. Será que lhe interessa mesmo que sejas feliz este fim-de-semana? Poderá Ele estar interessado que te saia bem esse projecto de trabalho que te tem ocupado tantas horas?


Desde criança, da mais tenra idade, foi-se apossando de ti a ideia que em tudo isto da religião há dois mundos de interesses. Por um lado, está aquilo que interessa a Deus, e por outro lado, o que nos interessa de verdade, homens e mulheres que dia-a-dia lutamos por viver o melhor que podemos.


A Deus interessa-lhe a sua “glória”, isto é, que as pessoas creiam nele, que o louvem e que cumpram a sua vontade divina. Isso é o que Deus quer e busca: que a gente o receie, que lhe preste culto e pratique a religião. Assim Deus sente-se “bem” recebendo das suas criaturas honra e glória.

Por outro lado está o que de verdade nos interessa: ter um trabalho, partilhar uma vida feliz com um cônjuge, acertar com os filhos, viver bem, divertirmo-nos, desfrutar de uma sociedade em paz. Essa é a esfera dos nossos interesses, donde nos esforçamos por viver o melhor possível.


É fácil que também tu, como muitos outros, penses assim. A Deus interessa-lhe “o que é seu” e trata de pôr as pessoas ao seu serviço. Impõe os seus dez mandamentos – como podia ter imposto outros, ou até nenhum – e está atento a como os humanos lhe respondem. Se lhe obedecem, premeia-os; caso contrário castiga-os. Como é Deus e Senhor supremo do mundo, também concede favores. Às vezes, gratuitamente, aos que ele bem entende; outras vezes, a troco de qualquer coisa, mas sempre procurando a sua própria glória.

Os homens e as mulheres, por seu turno, buscam os seus próprios interesses e tratam de pôr Deus do seu lado. Não é para isso que serve a religião? As pessoas que são religiosas pedem ajuda a Deus para que tenham sucesso, dão-lhe graças pelos favores que recebem dele; fazem o que podem para o manter satisfeito; inclusive oferecem-lhe sacrifícios e cumprem promessas para fazer com que ele mesmo se interesse pelos seus assuntos.
Assim pensam muitos crentes de boa fé. Mas, sem dúvida alguma, esta maneira de entender e de viver a fé é falsa. Deus é amor e somente amor. A Deus, o único que lhe interessa somos nós.


Esta talvez é a novidade mais importante que introduz Jesus na sociedade do seu tempo. Toma bem nota: segundo Jesus, para Deus o mais importante não é a religião, senão a vida das pessoas. Isto é o que o levou a confrontar-se com os líderes religiosos do seu tempo.


Para os sacerdotes de Jerusalém e os doutores da lei, o mais importante é dar glória a Deus, cumprindo a lei, respeitando o sábado e assegurando o culto do templo. Para Jesus, pelo contrário, o mais importante são as pessoas. Por isso se dedica a curar os enfermos, aliviar o sofrimento, acolher os leprosos e marginalizados, defender as mulheres, devolver a dignidade às prostitutas, bendizer e abraçar as crianças.


Se fores descobrindo, a pouco e pouco, como é Deus, a tua vida mudará. Sentirás que Ele não te ama buscando o seu próprio interesse. Somente pensa na tua felicidade. Até quando te chama a viver uma vida moral digna. Não te enganes. Não julgues que Deus quer estragar a tua vida. Ele quer que vivas o que é bom para ti, não o que te faz mal. Deus é assim.»



Creer para quê? - A Dios le interesa que vivas bien
José António Pagola


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

PEQUENEZ








«Ao longo destes anos encontrei-me com pessoas que se foram afastando de Deus porque já não suportavam ouvir constantemente que é “Omnipotente” e “Todo-Poderoso”. Sentiam-se mal diante desse Deus. Não podiam mais viver em paz com ele. Preferiam esquecê-lo.

Talvez também a ti se passe algo semelhante. Não te atreves a dizê-lo de forma absoluta, mas no fundo sentes Deus como um ser “prepotente”, que nos tem a todos sob o seu controle e ameaça. Não podes fugir dele. Estás nas suas mãos, ainda que não queiras. Como viverás a gosto com ele?


Este pode ser um dos nossos maiores erros. O poder de Deus não é como às vezes imaginamos.
Na realidade Deus não é “omnipotente”. Não pode fazer qualquer coisa. Deus não pode abusar de nós, não pode manipular, humilhar, zombar de ninguém. Deus não pode magoar-te nem fazer-te mal. Deus é amor e só pode o que o amor pode.


Repara, para agredir, para destruir, ou magoar não se necessita de um grande poder.Qualquer um pode fazer mal. Mas, para acolher, para perdoar, para respeitar, para amar, para fazer sempre o que é bom, já é necessário ser GRANDE. Deus é assim!

Por isso, ainda que às vezes nos custe crê-lo, Deus manifesta-se no pequeno, no frágil, no humilde. Deus é grande e não necessita defender-se dos seres humanos. É forte e não necessita de andar a exibir a sua força. É amor e não necessita de controlar, dominar nem esmagar ninguém.


É necessário recordar isto porque sempre que entre os cristãos se entendeu muito mal a omnipotência de Deus, e se exaltou falsamente o seu poder, converteram-no num “poderoso” indigno, para fomentar a intolerância, a repressão moral, o medo de Deus e o “terror religioso”.

Se, nalguma medida, sentes Deus como um “tirano”, e que não tens outra alternativa senão revoltar-te, quero dizer-te que esse Deus não existe. Estás a revoltar-te contra um “fantasma”. Andas a sofrer inutilmente.

Tudo mudará no dia em que sintas Deus como um amigo humilde, próximo e respeitador. Não te posso explicar com palavras, mas Deus é uma “presença” afável, próxima, que te faz viver e amar a vida de maneira diferente. Deus não te está a barrar caminhos ou a travar o teu desejo de seres plenamente feliz. Não está no teu coração a pressionar-te ou a violentar-te. É o teu melhor Amigo. Nele podes encontrar a luz mais clara e a força mais vigorosa para enfrentares a dureza da vida e o mistério da morte.


Deus não te vai gritar. Jamais te forçará. Jamais imporá sobre ti a sua força. Vai-te respeitar sempre, faças o que fizeres. Ele deu-te a vida como presente. É tua. És tu que tens de decidir como queres viver e para quê. Ele só quer que acertes a viver bem.

Às vezes, pode-te parecer que Deus é demasiado “invisível”. Não o sentes. Não o podes tocar. Não escutas a sua voz. Crês que não há ninguém ao pé de ti. Mas o que sucede é que Deus é discreto e respeita até ao fim as tuas decisões. A sua presença é tão humilde, próxima e íntima que pode passar despercebida.
Está tão unido a ti que, se não penetras em ti mesmo, pode-te parecer que estás sozinho.


E como posso encontrar-me com esse Deus? Não sei. Creio que há que buscá-lo de um modo simples, sem complicações, com um coração límpido e numa atitude confiada. Todos nós podemos dizer coisas muito acertadas. Mas só tu sabes o que te faz bem e o que te aproxima verdadeiramente desse Mistério a que chamamos Deus.


Não podemos esquecer a alegria de Jesus ao comprovar que a gente mais humilde e sincera era a que melhor captava a experiência de Deus. Numa ocasião deu graças a Deus com estas palavras: ‘Eu te Bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos, e as revelaste aos pequeninos’»


Creer para quê? - Dios es humilde
José António Pagola