quinta-feira, 19 de agosto de 2010

CONFIAR




«Não sei se estarás de acordo mas, segundo tudo leva a crer, a desconfiança está a aumentar na sociedade contemporânea. São os inquéritos e as sondagens de opinião que o dizem. A gente desconfia cada vez mais dos colegas de trabalho e dos vizinhos. Desconfia da Administração, já não embarca nas promessas dos políticos. Vai retirando a sua confiança da Igreja. Já não se espera grande coisa de ninguém.


Os especialistas dizem que as causas são diversas.
A competitividade, a falta de comunicação, a insegurança perante o futuro estão a gerar um tipo de pessoa que se coloca na defensiva e toma sempre as suas “precauções”.
Não sei se é assim. O certo é que viver a partir de uma atitude desconfiada não ajuda ninguém a viver de maneira plena. Tu o sabes:
para enfrentar a vida de cada dia de maneira positiva e criativa há que viver com confiança.


Há uns anos li as cartas que Dietrich Bonhoeffer escreveu na prisão onde tinha sido colocado pelos nazis. Numa delas, escrita poucos dias antes da sua execução, o grande teólogo e mártir escrevia assim: “Não há nada pior que semear e favorecer a desconfiança; pelo contrário, devemos favorecer a confiança em toda a parte, sempre que possível. Ela seguirá sendo para nós um dos maiores dons, dentre os mais raros e belos”


Estou convencido de que é assim. É a confiança que te pode suster nas situações mais difíceis e que te dará sempre um grande potencial de energia para enfrentares os teus problemas. Se te deixas cair nas garras do cepticismo e do ressentimento, se vives desconfiado de tudo e de todos, irás-te empobrecendo. Viverás de um modo triste e estéril.


Quero recordar-te outra coisa. É difícil que a Fé em Deus possa brotar de um coração desconfiado. Já o pude comprovar muitas vezes, em conversas que tive com pessoas que andam à procura de Deus. Há muito que exigem provas e argumentos para crer, mas não se dão conta de que interiormente vivem “fechados” a Deus. E, quando uma pessoa não se abre a Deus, ou não se atreve a confiar totalmente nele, Deus não pode entrar na sua vida.

Também já assisti ao contrário. Pessoas simples, que depois de muitos anos de viver afastadas da fé, procuram a Deus não pelo caminho das provas, dos argumentos e dos livros, mas pela via do coração, numa confiança total nele (…).
Na tradição cristã, o apóstolo Tomé é tido como o protótipo do homem desconfiado que não aceita crer em Cristo ressuscitado enquanto não o vir com os seus próprios olhos e não o tocar com as suas próprias mãos. Não se fia de ninguém. Quer provas. Não sei se tens presente a cena que nos descreve o evangelista João. Quando Jesus se lhes apresenta, diz-lhe estas palavras: “Tomé, não sejas incrédulo, mas fiel”.


Quem sabe se tu não estarás cheio de dúvidas. Cada vez te parece mais difícil crer em certas doutrinas. Percebes que há coisas na Igreja que nunca poderás aceitar. Sentes dentro de ti com certa insipidez e mal-estar. Já sabes que nunca poderás compreender a Deus com a tua mente mas, perguntas-te tu, não haverá alguma prova ou algum argumento definitivo?

Eu só sei dizer-te as palavras de Jesus: “Não sejas incrédulo, mas fiel”. Confia, não feches nenhuma porta. Procura a Deus com confiança. Não desanimes.
A Deus procura-se “às apalpadelas”. Por vezes, a fé mais sincera surge da dúvida mais penosa.

O que importa é que te aproximes do mistério de Deus de coração aberto. Não estejas à espera de resolver pela tua própria cabeça as interrogações e as dúvidas que te fazem sofrer. Mesmo no meio da escuridão, das dúvidas e das incertezas pode despontar em ti a fé, se souberes abrir-te a Deus com humildade e confiança.»


Creer, para quê?
Jose Antonio Pagola

CRER E PERGUNTAR





Olá! Já passou imenso tempo desde que não passo por cá…



Mas por razões pessoais, e sobretudo profissionais, não me foi possível ir actualizando este blog. Contudo, isso não significa que desista das coisas boas que comecei por cá! Por isso, hoje, para “sacudir o pó”, começo por revelar um pouco das leituras que venho fazendo.

Trata-se de um livro muito interessante de um teólogo que aprecio: Antonio Pagola. Escreveu estas páginas dedicadas especialmente àqueles que “perderam a fé”, e partilho-o aqui simplesmente porque, com uma linguagem muito simples, Pagola tem um jeito especial de experimentar a fé como se fosse a primeira vez, ainda que muitas das coisas já nos pareçam tão familiares…

Mas a Fé não é coisa de “saber”, senão aquilo que se “saboreia” e dá sabor. É aquele sal da terra, e gosto pela vida, que brota duma relação e de uma história de amizade que um dia Deus mesmo começou connosco…



«Provavelmente tu não rejeitas Deus. (…) O que acontece é que não consegues crer, nem vês para que te pode servir a fé. Então, porque não começarmos por esclarecer algumas coisas?

Poderá alguém ser forçado a crer? Não. Ninguém te pode obrigar a crer a partir de fora. Tens que te sentir absolutamente livre. Tu és o único responsável pela tua vida. És tu que tens que decidir como queres viver e como queres morrer. A única coisa que podemos fazer é dialogar entre nós, partilhar honestamente as nossas experiências e ver se nos podemos ajudar um pouco a acertar na vida.

Temos que fazer algo para crer? Sim, desde já. Não chega falar destas coisas de maneira indiferente ou frívola. Também não é suficiente deixar-te arrastar pela tradição. És tu mesmo que tens de aprender a sentir-te a gosto com Deus. Para começar, estar mais atento ao que vai dentro do teu coração, e atrever-te a escutar as interpelações que brotam do teu interior.


Haverá algum método para crer? Não. Cada pessoa tem que percorrer o seu próprio caminho. Não existem receitas nem fórmulas mágicas. O importante é que sejas sincero, que trates de escutar a vida até ao mais fundo e busques a Deus com confiança. Isso sim, tens que te empenhar seriamente e dedicar algum tempo.


Mas…então a fé não é uma questão de temperamento? Sim, sem dúvida que há pessoas mais sensíveis ao mistério de Deus e outras menos dispostas, mas a fé não é um assunto de pessoas “crédulas” ou “sensíveis”. Não tens que violentar a tua maneira de ser. Tu podes e deves buscar a Deus a partir do teu próprio temperamento. Deus quer encontrar-se contigo tal como tu és.

Pode-se ter fé tendo dúvidas? Claro que sim. Para seres crente não é imprescindível que saibas responder a todas as interrogações e a todas as dúvidas que te vêem à cabeça. O decisivo é que te relaciones com Deus honestamente. Não é mais crente aquele que aborda os “dogmas” ou a doutrina cristã com mais segurança, senão aquele que se esforça com sinceridade por viver em verdade diante de Deus. O que importa é que te não te enganes a ti próprio nem trates de enganar a Deus.

Será preciso sentir alguma coisa para voltar a crer? Não, necessariamente. Alguns costumam sentir paz e alegria interior; têm a sensação de estarem a descobrir o caminho certo. Mas o importante não é procurar “experiências especiais”, senão dar passos concretos de modo que se veja o teu desejo sincero de descobrir o sentido último da tua existência (...)


Será simples ou complicado crer? Olha, crer é tão simples e tão complicado como o viver e o amar. Umas vezes, poderá parecer-te o único meio de viver de uma maneira digna e feliz. Outras vezes, poderá parecer-te difícil e duro. Mas, se te encontrares verdadeiramente com Deus nunca mais o esquecerás; se te encontrares com Jesus de Nazaré no mais íntimo do teu ser, a tua vida mudará e serás outro»


CONTINUA


Creer, para quê? - Preguntas
José Antonio Pagola

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

AS PARÁBOLAS DE JESUS II - Uma Nova profecia




Jesus nunca explicou directamente a sua experiência do Reino de Deus. Não usou a linguagem complicada dos escribas para dialogar com os camponeses da Galileia, nem sabia falar com o costume solene dos sacerdotes de Jerusalém. Ele aproveitou antes um estilo muito comum, usado pelos doutores da lei e rabis do seu tempo: os meshalîm - ensinamentos, sentenças ou histórias exemplares que serviam para ilustrar a aplicação dum dado mandamento da Lei. Porém, enquanto os sábios de Israel aplicavam esse género de linguagem para explicar a Lei, Jesus usava-o duma forma mais simples para falar do Reino de Deus.



O primeiro interesse do Mestre de Nazaré eram as pessoas e não a religião. Os seus gestos e atitudes apontavam para um Deus que se preocupava mais com as suas vidas e inquietações, do que propriamente com todas as questões religiosas ou prescrições da Lei. As parábolas de Jesus ilustravam isso mesmo, demonstrando quais eram as prioridades de Deus e do seu Reino que vinha para corresponder às aspirações mais profundas e urgentes de um povo oprimido.


As suas palavras não tinham nada de artificial, eram claras, evidentes e simples. Ao que parece, ele nunca sentia necessidade de as explicar, nem antes, nem depois do seu relato; não recapitulava o conteúdo nem esclarecia com outra linguagem. A própria parábola tinha que penetrar com toda a sua força e sem confusões, pois
«quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça» (Mc 4, 9).


Jesus simplesmente partia da realidade que as pessoas viviam e do ambiente que as circundava para dar a conhecer uma Novidade absoluta e feliz. Assim, com liberdade poética evocava toda a vida quotidiana da Galileia: os seus trabalhos e festas, o seu céu e estações, os seus rebanhos, vinhas, campos dourados repletos de espigas, figueiras que despontavam na primavera, ou o lago de Genesaré com a faina da pesca…


Ele já não falava no deserto como João Baptista, mas aproximava o Reino de Deus a cada aldeia, cada família, cada pessoa. E assim, com relatos cativantes ia removendo obstáculos e eliminando resistências para que todos pudessem abrir-se à maravilhosa e Nova experiência de Deus.

Nas suas palavras pressentia-se que algo de inédito estava a acontecer: alguma coisa já se passava secretamente no interior da massa da farinha que se cozia nas casas; na mais pequena e insignificante das sementes; ou nos campos, que aparentemente sem grande fertilidade, não tardariam a produzir uma quantidade inesperada de fruto como ninguém vira.


Deste modo, a sua linguagem sugeria que a força salvadora de Deus estava já a despontar, e ainda que actuando no interior da vida de modo oculto e misterioso, já surgia de forma decidida e poderosa, pronta a manifestar-se com um esplendor incomparável.


Um dos traços mais vincados nas suas parábolas era o anúncio persistente de um Reino que não se apoiava em nenhuma instituição ou tradição humana, mas em Deus mesmo. Aqueles relatos giravam sempre em torno da experiência original dos grandes profetas e mediadores da Aliança, que
precediam todos os legalismos ou cultos vazios que mais tarde prevaleceram em Israel. Por isso, as parábolas iam ao encontro da verdadeira essência da Lei, que não assentava em normas castrantes, mas no próprio Amor de Deus.


As parábolas de Jesus também deixavam bem claro que no Reino de Deus as coisas aconteciam sempre do jeito que não era suposto acontecerem!! Nelas tudo tornava-se intensamente desconcertante: Deus mesmo agia de um modo excêntrico, chocante, e totalmente surpreendente, …fazendo até “o que não era conveniente” à Sua Santidade!
Era uma nova realidade onde só Ele mesmo mandava de verdade, porque a todos - sem excepção - puxava o tapete debaixo do chão…


Naquelas histórias Yahvé “perdera literalmente o juízo”: abandonando as rédeas da boa conduta divina misturava-se sem pudor nenhum com os indesejados de Israel; abraçava os impuros, acolhia os delinquentes e perdoava os não-arrependidos; apontava os inimigos como exemplo a seguir; era implacável com os que não faziam mal a uma mosca; e ainda por cima ou repreendia os justos, ou então simplesmente esquecia-se deles…


Diante deste anúncio muitos exclamavam: «O que é isto? Um novo ensinamento com autoridade» (Mc 1,27);


As parábolas mais desconcertantes, mas também certamente das mais belas, eram reservadas aos “peritos de Deus”. Elas surgiam como resposta de Jesus ao confronto com os doutores da lei e fariseus. Aquele Nazareno da plebe chocava-os com este Rosto de Deus tão Livre e Libertador, fazendo-os perceber que afinal ainda nada entendiam da Misericórdia e da Compaixão de Yahvé.


Afinal de contas, o Amor do Pai jogava-se com outras regras, e noutro terreno que ultrapassava todos os limites conhecidos. E quem o escutava já ia percebendo que a próxima parábola revelaria uma surpresa ainda mais atordoante e inesperada, como um fortíssimo abanão!


Ainda hoje, é este o melhor modo do Reino de Deus nos encontrar: desprevenidos, despidos de qualquer pretensão e conhecimento prévio, verdadeiramente abertos a uma Notícia com o peso e a medida maiores do que nós mesmos, prontos para uma Boa Nova densa de mudança…


E hoje as parábolas só são Boas Notícias de Deus quando continuam a dizer-nos que ainda não O conhecemos de todo! É isso que as torna universais e intemporais. Não porque nelas haja a “moral da história” de todos os tempos, …mas porque continuam a dizer-nos que em Deus ainda há Novidade, Beleza escondida, e – porque não dizê-lo? – também choque, e escândalo!
É que ainda não é suposto Ele ser e agir somente desta ou daquela maneira…


O Seu Reino ainda é território desconhecido, continua a expandir-se ao longo da história, a acontecer e a transformar-nos a partir de dentro, sempre onde e do jeito que ainda não esperávamos nem sequer sonhávamos descobrir…



segunda-feira, 14 de setembro de 2009

AS PARÁBOLAS DE JESUS I - A poesia de um Reino



No Coração de Jesus pairava incessantemente um sonho muito antigo.


Um sonho que emergiu no seio de um povo ao longo de inúmeras gerações de Reis, sacerdotes, profetas, e uma multidão de tantos outros homens e mulheres. Um sonho tão longínquo que remontava até…ao Princípio. Aquele mesmo que falava de um Jardim onde Deus e o homem se enamoravam e em torno do qual gravitava toda a Criação. Um sonho universal, um Projecto, onde Deus mesmo era o Começo e o Fim, o Alfa e o Ómega duma História de Salvação.


Desde há muito que alguns, na esperança do Fim de tanta miséria e injustiça, nomeavam-lhe o “Dia do Juízo” ou “Dia da Ira”; outros porém, na expectativa de um outro Começo, chamavam ao Sonho de “Nova Aliança”…mas todos partilhavam duma esperança comum: Deus é Fiel, e haverá de consumar o Seu Projecto, o Seu sonho…

Jesus, aparte destas designações, chamou-lhe simplesmente Reino de Deus

Não era uma expressão estranha às gentes da Galileia e Judeia. Aquele povo oprimido pelo sufoco de séculos de dominação invasora, e agora dos romanos, aguardava da parte de Deus uma Libertação definitiva e prosperidade para Israel. Todos os sábados e dias de festa recitavam na sinagoga a oração do Kaddish:


«Que o Seu Nome seja louvado e santificado no mundo que Ele criou segundo a sua vontade. Que o Seu Reino irrompa na vossa vida e vossos dias, nos dias de toda a casa de Israel, pronto e sem demora…Que uma paz abundante chegada do Céu assim como a vida venham sem demora sobre nós e sobre todo o Israel…Que aquele que fez a Paz nas alturas a estenda sobre nós e sobre todo o Israel»


Um pouco por toda a parte, e há já algum tempo, a nação ia exibindo sinais de tensão impacientando-se pela inauguração desse Sonho de Deus e do seu Reino Messiânico: Uns formavam grupos de guerrilheiros armados provocando focos de resistência violenta; outros refugiavam-se no deserto em comunidades de monges, preparando-se para serem poupados da Vinda implacável e Terrível que se avizinhava; e outros ainda, ou separavam-se do resto do povo no cumprimento fundamentalista da Lei, ou embriagavam-se com o incenso do Templo na expectativa de se tornarem dignos de aderir aos eleitos do Último dia…


Mas Jesus situava-se noutro horizonte muito mais amplo, porque era exactamente à medida do Coração de Deus! Para ele era muito claro que já estava em emergência um Reino feito de Compaixão, Misericórdia, Perdão incondicional, Justiça e Alegria que inaugurariam um novo tempo, uma nova realidade, com outra lógica e outro modo de ser gente.

Eis as primeiras palavras que Marcos coloca na boca de Jesus:


«Completou-se o tempo. O Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai na Boa Notícia» (Mc 1,15)


A expressão não significa a chegada de um Reino “próximo no futuro”, quase iminente; mas denuncia um ACONTECIMENTO ACTUAL: O Reino chegou AGORA! JÁ!! O tempo da espera e da impaciência esgotou-se! É a hora de despertar daquele Sonho antigo…de abrir o olhar e o coração de Israel para o deslumbramento, e conduzi-lo ao Senhorio inesperado de Deus.


Chegara a hora e a urgência de acordar para permanecer atento à realidade nova que JÁ irrompe no mais íntimo da vida…porque Deus mesmo está a finalizar o seu Sonho, no presente. De alguma forma todos precisavam de ser abalados e despertar da modorra ou desespero em que viviam: tinham de dar o passo, entrar, e tornarem-se cidadãos deste Reino!


Jesus conhecia muito bem o modo de dizer as Boas Notícias ao jeito do seu povo, tão diferente do modo como as dizemos hoje. Nós, ocidentais, falamos das coisas através de conceitos, definições e ideias abstractas. Caímos facilmente na tendência cultural de anunciar o jeito de Deus de um modo dogmático, fechado, conceptual, e filosófico. Por isso, hoje focamo-nos mais no “discurso sobre Deus”, do que no fascínio por Ele…


Ao contrário, o Povo de Israel contava histórias, criava poesia, compunha cânticos, fazia comparações fantásticas e inventava fábulas lindíssimas para permanecer na experiência da Aliança, e abrir o coração à novidade de Deus. Esta fora sempre a única linguagem adequada ao Anúncio da Sua Presença VIVA, Fiel e Salvadora!


E Jesus, como todo o judeu do seu tempo, estava treinado nesta arte de sentir, comunicar e entender o jeito de Deus. Nele estava bem consciente, por exemplo, a forma arrebatada como Oseias narrava o Amor entre Yahvé e Israel, tão ao jeito de um romance ou duma ternura maternal:


«Por isso eis que vou, eu mesmo seduzi-la,
Conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração.
Dali lhe restituirei as suas vinhas, e o vale de Acor será uma porta de esperança.
Ali ela responderá como nos dias da sua juventude
(…) Eu te desposarei a mim para sempre,
Eu te desposarei na Justiça e no direito,
No Amor e na ternura»
(Os 2,16-21)

«Quando Israel era ainda menino, eu o amei,
e do Egipto chamei o meu filho.
(…) Com laços de amor os atraía, com laços de carinho.
Fui para eles como quem levanta uma criancinha até ao rosto;
Eu me inclinava e lhes dava de comer»
(Os 11,1-4)


E quem não teria presente a comparação belíssima de Ezequiel sobre a Aliança?


«Passei junto de ti e vi-te. Era o teu tempo, tempo de amores,
e estendi a aba da minha capa sobre ti e ocultei a tua nudez;
comprometi-me contigo por juramento e fiz aliança contigo e tu te tornaste minha(…)
Tu te enfeitaste de ouro e prata; os teus vestidos eram de linho, seda e bordados (…)
A tua fama se espalhou entre as nações, por causa da tua beleza que era perfeita,
devido ao esplendor com que te cobrias,…»
(Ez 16,8-14)


Assim, do mesmo modo, Jesus herdara também a destreza do seu povo para criar parábolas, como por exemplo, a de Samuel (2Sam 18, 1-8) dirigida a David, a parábola cantada de Isaías sobre a Vinha (Is 5,1-7), ou as de Ezequiel (Ez 15 e Ez 17)… que dizer ainda sobre as visões de esperança de Jeremias (Jer 32-33), Joel (Jl 3), ou Zacarias (Zc 8-9,12-13)?...


Tantas e tantas eram as imagens vívidas e as experiências simples que reflectiam fielmente a grandeza e o alcance da História da Salvação…


Pois foi assim mesmo, desta forma tão simples, e com este encanto que o Poeta da Compaixão começou a anunciar e contagiar a sua experiência do Reino de Deus…




CONTINUA...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Dizer Deus dizendo o homem [3]



« Em quase todas as concepções religiosas de Deus, a divindade é um Deus que inspira temor, espanto. A maior parte dos deuses, incluindo a ideia de divindade, são violentos, a não ser que sejam simples figuras estéticas ou simbólicas, como na Grécia. O homem tem medo dos deuses e a religião possui todo um sistema de sacrifícios, fórmulas de conjuração e rezas de expiação; uma montagem que sirva para conseguir, senão o favor dos deuses, ao menos que o temor e a vingança se afastem deles. A relação entre Deus e o homem é, portanto, aqui uma relação de violência e temor.


(…) O medo gera medo, a violência gera violência.
Um Deus de violência e de temor, que provoca o medo, coloca o homem no medo e na violência, não somente em relação a ele, a Deus, mas em relação a si próprio, o homem, e em relação ao próximo.


Dando a volta à frase de Lucrécio:
o medo criou os deuses” poderíamos reformulá-la deste modo: “Os deuses criaram homens temerosos”.


Os deuses, e uma determinada imagem de Deus, instalaram o medo e a violência no homem convertendo-o num ser aterrorizado. Toda a religião contém nas suas entranhas – e o cristianismo ainda não se livrou de todo este trauma - o risco da violência e da sua escalada.


(…) É “normal” que os deuses sejam violentos, omnipotentes, arbitrários, provocadores do medo e do espanto, recorrendo a formas ingénuas (terramotos, tormentas, etc.), ou ainda sob formas subtis de culpabilização da consciência e de terror.


Sem dúvida, uma vez mais, temos de nos perguntar senão é o Deus da loucura, o revolucionar tudo o que parece normal, e que vem mudar as coisas e assegurar (coisa incrível) que a relação entre Deus e o homem não é de temor e de violência, e que o homem não foi criado para o medo, (…)


“Vós não haveis recebido um Espírito que faça de vós escravos, novamente no temor, senão que haveis recebido um Espírito que faz de vós filhos adoptivos” (Rom 8, 15). (…) “Não temas, porque estou contigo” (Gen 26,24).


O texto fundador é este: “ Já não vos chamo servos mas amigos”. [A partir daqui] A relação entre Deus e o homem ficou completamente subvertida, mas
quem sabe não nos tenhamos adaptado verdadeiramente a esta novidade inquietante e não saibamos ainda medir todas as consequências.


(…) Jesus veio anular o antigo vínculo religioso entre o sagrado e a violência. Um Deus de Encarnação não é já um Deus de incandescência. Como diz extraordinariamente Rilke: “Os que com frequência nos ameaçam são deuses desocupados”. Pelo contrário, o Deus ocupado do homem,
o Deus que se encarna, vem acabar com toda a violência do deus entrincheirado em si mesmo, que fundamenta o seu poder numa sacralidade e num anonimato de ameaça.


A ideia de encarnação é, (…), a ideia da dissolução do sagrado como violência. Porque, adiante, o sagrado se entende como o sagrado da kenosis [entrega total de si], do despojo, da doação. Isto é, do Deus amigo dos homens (liturgia oriental); que vem a nós à margem da barbárie e da violência de uma glória divina custodiada por ele zelosamente (Flp 2, 6); que estabeleceu o seu posto, a sua tenda e sua casa no meio de nós (Jo 1,14); anunciando-nos que, do mesmo modo que o seu Cristo, nós podemos tratá-lo como um Pai.


Seria desejável que, depois, do “livra-nos do mal”, se acrescentasse no final do Pai Nosso um “livra-nos do medo”. O mesmo que ocorre com a fatalidade, o cristianismo adverte-nos que não devemos viver nem nos deixarmos conduzir pelo temor.


Dessa relação com Deus, completamente nova e de todo surpreendente, nasce um homem novo e liberto, de que ainda não foi assumida, nem nos atrevemos ainda a assumir em toda a medida. Porque esta é efectivamente…incompreensível! E é – devemos repeti-lo – na revolução cristã donde nos fazemos compreensíveis a nós mesmos (definitivamente, não violentos) graças à incompreensibilidade de um Deus que é amor. Porque esse reino da não-violência, do não-medo, é o reino do amor. “No amor não há lugar para o temor” (1 Jo 4, 18).


Quando S. João define Deus como amor (veja-se 1 Jo 4,8.16), do que se trata é – e nós não nos damos conta disso – de uma verdadeira transgressão a todas as ideias comuns sobre Deus. Deus, com efeito, deixa de ser um Deus ameaçador.


Então, o homem já não é um ser ameaçado. “Livre do temor” ( Lc 1,74), livre “de nossos inimigos” (ibid.), é dizer, desses demónios obscuros que tem dentro e o aterrorizam, o homem pode finalmente “servir a Deus” (ibid.), sem sentir-se já ameaçado e sem converter-se já numa ameaça para si mesmo.


“Deus não sabe desapreciar nem desdenhar. Pelo contrário, Ele desdenha a ameaça” (Sto Agostinho, Sermão 23,6).


(…) A amizade divina de que falavam os Padres da Igreja: a que existe no seio de Deus (a Trindade) e que deve existir em nossos corações e entre nós (Reino de Deus), nesta terra onde desaparecem os cavalos do Apocalipse. Para que o homem seja livre e já não se sinta ameaçado, deve saber que seu Deus não é um Deus ameaçador, senão um Deus pacífico.

Não é este o Deus que vem armar a sua tenda entre os homens, um Deus que não tem medo em afirmar, que estando entre nós, está nele mesmo? (Jo 1,11)?»



Adolphe Gesché, "Jesucristu", p.51-55

Estava a escrever isto e a recordar-me de quantas vezes Jesus diz aos discípulos, e a todos com quem se encontrava: “não temas”, “não tenhas medo”. Talvez seja mesmo a sua expressão mais frequente. Estou cada vez mais convencido, – e quantas vezes o sinto na pele – que o medo é o pior inimigo do evangelho! O nosso inimigo comum (de Deus e do Homem), o único e definitivo demónio a derrotar… acredito mesmo que o contrário da Fé não é a “descrença” ou o “ateísmo”, mas o medo.

Recordo-me também de algo muito bonito que o Professor António Couto nos transmitiu certa vez. Ele dizia que a palavra “sagrado” ou “Santidade” advêm da mesma raiz que significa “distância, separação”. Dizia que é das palavras mais adulteradas que existe; enquanto nos precipitamos a traduzi-la como “separação” entre Deus e os homens, na experiência de Israel, e sobretudo para os autores da corrente profética, significava precisamente o contrário. Recordo dele dizer mais ou menos assim:

«Afirmar a santidade de Deus é dizer que Ele está absolutamente separado de si próprio, descentrado de si mesmo, para Ser totalmente para o Homem, para dele se dedicar com toda a ternura e cuidado, para nele habitar e fazer morada. Por isso, somente o Deus verdadeiramente Santo é verdadeiramente um Deus Connosco!».

Dada a riqueza do texto, tinha de acrescentar este apêndice delicioso…

SHALOM

sábado, 27 de junho de 2009

Dizer Deus dizendo o homem [2]






« A antiguidade viveu sob o sinal da fatalidade (Factum, moira [destino], …). Ao fim, tomadas as coisas ao pé da letra, não há nada a fazer. O próprio Zeus [o maior e mais poderoso dos deuses gregos] viu-se submetido a uma espécie de Lei que se impõe e contra a qual ele nada podia.



Certamente, a Grécia possuía a noção de liberdade e inclusive, foi a que iniciou o longo e difícil caminho da liberdade (…). Mas depressa esta liberdade é derrubada e vencida. Sem dúvida isto ocorreu assim com os gregos pois, para eles, quase tudo se joga entre o azar e a necessidade. Deste modo a liberdade se vê aprisionada por duas forças maiores. Não há salvação.


Parece claro que foi precisamente pela ideia da salvação e, de modo particular e paradoxalmente, pela ideia de pecado, que o cristianismo criou esta brecha de liberdade e da libertação da fatalidade da história.


E o que significa o pecado? Que o mal, ao menos por uma parte - uma vez que somos também vítimas de adversidades que não implicam a nossa responsabilidade - depende do homem. E isso significa que ele é responsável. Além disso, posto que se trata definitivamente de um acidente histórico e não de um produto da natureza, o homem, em princípio, pode não cometê-lo ou não voltar a cometê-lo, em nenhum caso se trata duma fatalidade.


Portanto, o mal não é algo monumental, fora de série, impossível de deter. O homem não está submetido como se fosse escravo do destino.
O pecado é um mal responsável, atribuível ao domínio pessoal, que poderia não ter sido cometido.


Isto é dizer que o pecado, em certo sentido, não é mais que um pecado e o homem não se define irremediavelmente pelo mal. O cristianismo leva-nos a dizer ao rapaz que roubou: efectivamente, tu roubaste; mas tu não és um ladrão. (…). Sim, tu drogaste-te; mas não és um drogado. O criminoso não tem que ser reduzido ao crime cometido.


Sabemos que Caim, no Génesis, recebe um sinal na sua fronte; mas esse sinal não lhe é posto para desqualificá-lo para sempre; pelo contrário, Deus o imprime para recordá-lo que ele permanece protegido e amado por Deus (…).


Interpretamos a resignação perante o destino como uma sabedoria tolerável. É precisamente a ideia de salvação que chega em contracorrente desta “sábia resignação” ou deste desastroso submetimento ao destino.
Que significa, com efeito, a ideia de salvação senão precisamente que nada é irremediável; que tudo pode ser sempre repetido, reiniciado, voltar a partir do zero; que nada se perde definitivamente, que tudo pode ser salvo?


(…) Ao falar, ao pensar e ao actuar deste modo, o cristianismo desfatalizou positivamente a história do homem. Inclusivé no que diz respeito não só ao pecado, mas também à adversidade (injustiças de nascimento, etc.). Na antiguidade esse mal que cai sobre o homem é atribuído de modo irremediável ao destino, a forças das quais ninguém se podia libertar.


A ideia de salvação implica que as coisas não são necessariamente como aparentam, nem são destinadas a permanecer tal como estão.


“O que o nascimento fez de vocês pode ser apagado”. Com outras palavras, o mal pode ser abatido e derrotado. Pode ser abatido e derrotado nos sentidos da palavra “poder”: tem-se o direito, e não é um sacrilégio, nem um atentado contra os deuses, mas antes um confronto com o mal; e se tem a capacidade: há uma força em nós capaz de confrontar-se com o mal e destruí-lo. Não há nenhuma culpabilidade em querer abater e derrotar o mal, muito pelo contrário;
encontramo-nos incluídos e associados à vontade e ao poder de Deus.


(…) Seguramente Deus não suprimiu o mal, mas antes desfez a sua tirania: o mal não deve exercer sobre nós nenhum fascínio, nenhuma coacção, nenhum medo, nada que nos possa impedir de atacá-lo porque o consideramos um poder intolerável.
»






Adolphe Gesché, "Jesucristu", p.49-51

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Dizer Deus dizendo o homem [1]


Bem-vindos! Já há uns tempos que não aparecia por cá. Os exames também me têm ocupado um pouco. Mas hoje gostava de partilhar alguns fragmentos de um livro que me tem cativado. O autor é Adolphe Gesché, um teólogo belga que escreveu várias sínteses e reflexões sobre temas fundamentais da fé. Assim vale a pena fazer teologia, aqui deixo o primeiro de alguns posts...






« Para falar do homem, a Escritura possui uma problemática muito especial. Consiste em falar não de maneira directa, senão observando-o na sua relação com Deus. Porque a Escritura na sua totalidade, não é um discurso sobre Deus, nem um discurso sobre o homem, mas um discurso sobre a relação entre ambos (criação, aliança, encarnação). Assim é como ela fala do homem. A sua única preocupação é contar esta relação entre Deus e o homem e, desde aí, extrair seu ponto de vista sobre o homem(…).


Tanto Deus como o homem são qualificados não a partir do que são em si mesmos, senão a partir do que são um para o outro. Tu não saberás quem eu sou, diz Deus (“Eu sou aquele que sou”: Ex 3,14); tu saberás somente quem sou para ti (“Eu estou contigo”: Ex 3,12). A partir daí saberás quem eu sou e quem tu és (…).


Encontramo-nos exactamente aqui perante o conteúdo essencial da fé cristã, a encarnação, que representa a realização paradigmática da relação entre Deus e o homem. Em Jesus o crente descobre, lê e decifra precisamente a mais estreita relação que existe, a relação por excelência entre Deus e o homem. Aí decifra também o seu ser (…).


Com efeito, é este Deus louco e incompreensível de Jesus (cf. 1Cor 1,18-31 e 2,1-16), fonte de uma sabedoria completamente nova, que desconcerta os sábios e ilumina os pequenos (cf. Mt 11,25), ele é que nos vai revelar, deste modo, a verdadeira compreensão do homem. Cristo introduz a incompreensibilidade de Deus como chave para a compreensão do homem. Efectivamente Deus é amor, o qual, quer dizer loucura. Um atributo indecifrável, incompreensível, dado que é “irracional” (o amor não é razoável). Mas será esta dimensão do indecifrável do Amor que nos permitirá decifrar o homem.


Foi, sem dúvida, a partir deste Deus louco e incompreensível de Jesus Cristo como o cristianismo foi capaz de descobrir e proclamar a grandeza dos pobres e abandonados. A este propósito o Evangelho descobriu o pobre, e descobriu-o como homem. (…) A Grécia e o humanismo não falaram, nem foram capazes de falar, do pobre, do homem caído, do excluído, do homem que, por ser economicamente inútil, fisicamente destroçado, afectivamente insignificante ou socialmente marginalizado, devia ser deitado fora da sociedade; antes exigiam sabedoria e bom sentido revestidos de humanismo e clarividência a quem queria reger a cidade com ordem e eficácia.


As bem-aventuranças, o Magnificat, o vaso de água dado ao mais pequeno, o respeito absoluto pela criança, o assombro de Jesus perante o mistério de compaixão em que se convertem o paralítico, o leproso, e tantos outros gestos e atitudes demonstram totalmente o oposto desta distinta sabedoria (…).


Ao contrário da Grécia, que entende o homem em termos metafísicos, em termos de essência (donde, com tanta facilidade, os homens podem ser interpretados como de essência diferente), o cristianismo, ao ajuizar o homem em termos de história e de destino, e considerando esse destino como prometido e concedido a todos os homens, pôde modificar a sua maneira de olhar o pobre. Foi necessária a loucura de um Incompreensível, que considera compreensível o pobre. “Cada rosto é um Sinai que proíbe o assassinato”(…).


Em vez de nos descobrirmos a nós mesmos contemplando-nos ao espelho, descobrimo-nos no rosto do outro, da mesma forma que nos deciframos no rosto de Deus.


O cristianismo não pode separar a sorte de Deus e a do homem. Isso é o que a encarnação fixou na história. Chateaubriand, em os Mártires (1809), narra o episódio de um pagão e de um cristão que encontram um pobre. O cristão dá o seu manto ao pobre e então o pagão diz ao cristão: “pensavas certamente que se tratava de um deus?” – De modo algum, responde-lhe o cristão; eu sabia que era um homem”.


Foi seguramente a partir deste Deus louco e incompreensível como o Evangelho libertou o homem de sucumbir perante a fatalidade, essa fatalidade que marcou tantas vezes o rosto dessa divindade impassível e implacável, insensível ao homem. Todos os historiadores do pensamento e da cultura o dizem e reconhecem, os marxistas à cabeça (escola de Frankfurt, Adorno, Horkheimer): o cristianismo desfatalizou a história. Este seria, segundo eles, o seu único êxito absoluto.»


CONTINUA...


Adolphe Gesché, "Jesucristo", p. 45-48